A maior festa de São João do mundo… Mas existem outras?!

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“O Brasil e o brasileiro têm de ser promovidos pela qualidade, pela diversidade e pela autenticidade”

Por Enzo Avezum*

Durante alguns anos, trabalhei com a promoção do Brasil no exterior, período que foi uma tremenda escola de aprendizado para o trabalho que desenvolvo hoje. Só tenho a agradecer por essa época, principalmente pelas pessoas que conheci e que permanecem até hoje como amigos verdadeiros e próximos.

Lembro-me de cada palestra, treinamento, seminário e, principalmente, daqueles em que todos nós tínhamos a cada retorno ao Brasil para as reuniões estratégicas do próximo semestre ou ano. Enriquecedor, pois os executivos de cada país se encontravam e era aquela oportunidade de ouro para a troca, aprender com outras práticas, adaptar o que a Espanha ou Inglaterra faziam para ser usado na costa Oeste americana. Tínhamos o desafio de mostrar aos outros países que o Brasil era muito mais do que samba, biquíni, futebol, Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu.

Ao final de um treinamento em Los Angeles no qual falei sobre os diferentes carnavais e suas influências regionais, fui abordado por um repórter do jornal Los Angeles Times. Intrigado, ele perguntou: “Então há outros, além de Rio e São Paulo?’’. Com muito gosto, reservei todo o almoço e parte daquela tarde explicando a ele tudo sobre Olinda, Recife, Salvador, Minas Gerais e até Parintins. E, à medida que mostrava, falava um pouco das culturas locais, origens. Eu mesmo ia aprendendo e me deliciando em ver a riqueza sólida e variada do Brasil.

Pois esta tarde com o repórter rendeu um presstrip para ele, e consequentemente uma matéria de 12 páginas – isso mesmo, 12, sobre o nosso País. Poucos dias depois, uma operadora pediu uma reunião. Era especialista em turismo de aventura e circuitos de bike mundo afora. Queria saber mais sobre Minas Gerais e a Estrada Real. Bem, aí foi quase um dia todo. Quem me conhece sabe de minha paixão por tudo o que diz respeito a este estado, sua cultura vasta e rica, e o povo mineiro.

Sempre com muita sinceridade, fui mostrando todo o lado bom e as deficiências da infraestrutura em algumas cidades menores ou vilarejos, ressaltando que isso poderia tornar a experiência ainda mais rica. O resultado: em 12 meses ele levou três grupos de 20 norte-americanos e suas super bikes para o circuito da Estrada Real e cidades históricas. Se foi sucesso? O que vocês acham?! Passados dez anos, esse ainda é um dos carros-chefes da empresa de porte médio, e que assim quer permanecer.

É curioso – e, ao mesmo tempo, triste – ver nosso País tão perdido e sem direção na sua promoção do turismo. Com conhecimento de causa, digo que não é somente responsabilidade de governos, ministérios, prefeituras. É também culpa de empresas de turismo particulares que insistem em promover mais do mesmo. Durante a participação do Brasil nas feiras internacionais, nunca vi uma empresa sequer apresentando uma opção de receptivo além do batido roteirão Rio (com Cristo, Pão de Açúcar, aquela armadilha de turista lá na Lapa, o Porcão, Copacabana) e Foz do Iguaçu. Eu ficava olhando aquilo, incrédulo.

Se vocês pensam que muito mudou em dez anos, se enganam. O País tem uma carência gigante em serviços receptivos autênticos. É triste ver essa pobreza de ideias e riqueza de reclamações. As limitações impostas por órgãos oficiais são sempre usadas para justificar essa quase ausência de receptivos.

E aí, como quase todo ano, leio o título de matéria: O MAIOR SÃO JOÃO DO MUNDO. E sempre me pergunto: mas tem outro? Exceto as pequenas comemorações realizadas por comunidades brasileiras mundo afora, existe uma festa oficial de São João, de raiz, realizada por outro governo?! E vários meios de comunicação compram esta ideia e divulgam com muito orgulho. Até mesmo publicações especializadas em turismo caem na armadilha do “pseudo-gigantismo’’ dessa promoção equivocada. O Brasil e o brasileiro têm de ser promovidos pela qualidade, pela diversidade e pela autenticidade.

No dia 13, na semana passada, comemoramos o dia de Santo Antônio. Ele mesmo, o dito santo casamenteiro. Foram dias vendo o coitado de ponta cabeça num copo d’água, dentro da lata de farinha de trigo, no fundo do armário de panelas (estas duas últimas eram práticas constantes durante minha infância, pois minha mãe cismava que o pobre coitado também tinha de fazer hora extra e atender pedidos fora do assunto “matrimônio’’, como conseguir uma boa empregada para ajudar em casa, que as suas vendas de Tupperware fossem arrebatadoras, etc ).

No próximo sábado, 24, é dia de São João. E, para fechar o mês, São Pedro ganha comemoração no dia 29. Bem que poderíamos pedir a esses santos tão cultuados pelos brasileiros uma cabeça mais aberta, uma visão mais ampla e generosa, um alinhamento de ideias e ações com os nossos iguais. Nós merecemos.

 

*Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Contato: [email protected]

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