Mais cidadania; mais negócios

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Por Enzo Avezum*

No caminho de volta de minha longa pedalada matinal resolvi “movimentar” ainda mais a manhã. Decidi investigar por que os corredores e as pessoas que faziam caminhadas estavam utilizando a ciclovia e não a trilha específica para eles ou as calçadas? De quatro “entrevistados”, todos responderam: porque eu quero. Nas quatro situações eu fazia silencio e olhava para a testa da pessoa. Isso mesmo, para a testa, procurando pelo terceiro olho. Sim, porque estes devem ser seres elevados, de outra dimensão, e com uma visão ampla da qual nós, terrestres, não temos a menor ideia. Para evitar esvaziar o resto da minha água sobre o suposto terceiro olho da pessoa, eu lhe desejava bom dia e continuava a pedalada.

Chego ao escritório e, gradualmente, vou fazendo algumas leituras necessárias, outras nem tanto. E eis que…NOVIDADE…nasce mais uma associação no turismo. Isso mesmo. Fiquei lembrando dos pedestres em locais designados às bikes . Por que se criam mais e mais associações e feiras de turismo?  A única resposta que me ocorre é….PORQUE QUEREM. Pois não precisam e tampouco podem, por algumas boas razões.

Tento, novamente, apurar números mais exatos do nosso turismo – número de agentes e agências, concentração por região do País, segmento de atuação, etc. Não existe. E se existem tais informações, devem estar guardadas bem longe dos olhos do grande público. Por que? Por que querem!

Consultando sites de associações nacionais e órgãos públicos, não encontro nada, a não ser uma breve referência aos associados e alguns poucos exemplos de ações pontuais interessantes realizadas em prol do agente. Mas para os olhos do consumidor, nada. Por que? Por que querem!

Em site governamental encontro a informação de 2014, quando eram aproximadamente 10 mil agências de viagens no País. No Butão, pequeno país asiático espremido entre China e Índia, cuja extensão territorial é menor do que o estado do Espirito Santo, existe essa relação completa e segmentada, com o número de agências e operadores receptivos ou emissivos e o perfil do turista visitante. Isso porque quando passamos de uma região para outra dentro do país, temos de declarar informações no posto de fronteiras – nacionalidade, idade, quem é a agencia local que está operando o receptivo, quais são os nossos interesses; se é turismo de aventura, pesquisa, cultural, voluntário, etc.

Por que existe esta prática? Porque é preciso conhecer seu povo e seus visitantes. E porque querem. Eles querem saber como e o que fazer não só para agradar ao turista, mas para tentar gerar negócios melhores dentro do país. E a população é informada. Se é a melhor prática, não podemos julgar pois não vivemos lá. Mas que tem resultados práticos e positivos para os moradores e para o trade local, ah, isso tem.

Segundo o jornal USA Today, no ano 2000 existiam aproximadamente 120 mil profissionais americanos, entre agentes e operadoras. Em 2016 eram cerca de 76 mil. Crises e práticas desastrosas fizeram evaporar uma enorme quantidade de mão de obra. E, olha só que interessante: esta informação foi compartilhada em um jornal voltado para o grande público consumidor, por um jornal com circulação diária média de 4 milhões de exemplares. Por que? Porque querem. E por que sabem que é necessário.

Existe uma patologia que acomete uma boa parte de brasileiros: o egoísmo. Que pode também ser traduzido em…PORQUE QUERO. Por isso vemos ultrapassagens pelo acostamento; carteiras de estudante emitidas por pessoas já graduadas que desejam ter descontos; casais nos supermercados que se dividem entre duas filas nos caixas para ver qual anda mais rápido, etc. 

O “porque quero” virou moeda corrente e as pessoas não se importam se estão prejudicando outros ou não. Por birra, por ego, por serem mimadas ou qualquer que seja o motivo. Atualmente, esse tipo de atitude é empregada por muitas pessoas em cargos de tomadas de decisões, ou nem tanto, que se acham no direito de travar a vida dos outros. Afinal se o ego está feliz, que se dane o resto. Eles devem pensar: “eu tenho o terceiro olho e vocês não!!”

Temos de quebrar esta cadeia do “porque quero”. Temos de parar de nos colocar na frente de outros. Temos de olhar para nossas equipes, nossos clientes, nosso entorno e cobrar o funcionamento correto seja onde for; bancos, empresas aéreas, associações de turismo, classe política, seja lá qual for o seu partido, do próprio cliente. 

Quando indivíduos e empresas preocupadas com o todo se unem, o resultado vem em forma de pessoas mais bem informadas e formadas. No final do dia, o que importa é um País como um todo, a população toda e não o seu umbigo ou o de meia dúzia de “poderosos” ao seu redor. A resposta “porque quero” deve ser usada muita cautela e sempre ser embasada em uma defesa justa e harmoniosa.

Ah, e de acordo com a Travel & Hospitality Marketing Firm os turistas de uma forma geral – inclusive os chatos millennials que se sentiam os inventores da frase “porque quero” – estão fazendo um movimento migratório de volta às origens do turismo. Traduzindo: estão buscando mais as agências de viagem físicas e menos as agências e sites de viagem on-line. Nos últimos três anos a procura pelas agências aumentou consideravelmente, e em relação à 2015, o ano passado teve um aumento de 18%, significando quase 50% em relação ao ano anterior.

Uma prova prática de que ‘”porque é preciso” é mais produtivo do que “quero”.

Uma ótima semana!

Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está totalmente focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Ele escreve no portal do Brasilturis às terças-feiras. Contato: [email protected]

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