Menos & mais

No momento em que as empresas do setor de turismo ainda estão com a corda no pescoço e tentando descobrir como manter empregos, pagar salários e sobreviver, pode até parecer fora do tempo falar em overtourism. Mas é justamente agora, quando há menos gente viajando, menos trabalho e mais problemas a hora de encarar os fatos e inovar. 

Não foi só o meio ambiente que se recuperou rapidamente com a queda drástica das viagens.  As cidades que, até antes da pandemia, eram vítimas do excesso de turistas estão se redescobrindo. Se de um lado as microeconomias municipais agonizam com a ausência de visitantes, a redução de turistas gera uma sensação de alívio aos moradores, como se eles reocupassem seus lugares de direito como cidadãos.

Questões práticas como redução nos episódios de falta de água e de energia, melhoria na segurança e nas condições de trânsito foram verificadas em cidades do Brasil, mas também mundo afora.  Mas, cuidado! Não vamos nos deixar cair no falso dilema entre economia e sustentabilidade. Ele definitivamente não existe. A pandemia demanda aceleração nas iniciativas de turismo sustentável, mas a necessidade de mudança já estava dada.

A economia já estava em transição para integrar resultados financeiros com bom desempenho ambiental, social e de governança. Empresas, governo e a sociedade demandavam prestação de contas além das demonstrações financeiras. No turismo, grandes companhias aéreas começavam a fazer balanço de suas emissões de gases de efeito estufa, armadores eram demandados por ações de proteção aos oceanos, grandes redes hoteleiras foram convocadas a adotar medidas em favor da diversidade e os viajantes começavam a declarar interesse pelo turismo sustentável nas pesquisas de opinião.

Tratar o problema do overtourism na raiz não faz mal à indústria. Ao contrário, pode ser uma excelente oportunidade.  Antes de janeiro de 2020, a questão do excesso de turistas já era um tema relevante. Havia vários movimentos para gerenciá-lo, como a alternância de horários de visitação em Machu Picchu, no Peru, a cobrança de taxa de visitação em Fernando de Noronha (PE), o controle do número de visitantes em Bonito (MS), a retirada do monumento “I Amsterdam”, na Holanda, o fechamento de praias na Tailândia para recuperação ambiental, entre tantas outras iniciativas.

Mas, mesmo que os viajantes já estivessem tentando adaptar-se a um estilo de viagem mais sustentável, a bem da verdade, a grande venda de viagens mantinha-se no business as usual. Ou seja, nos negócios como sempre foram feitos, visando apenas ao lucro financeiro.

Agora a própria venda para acontecer tem novas regras. Exige prever distanciamento entre as pessoas, preocupação com aglomerações, responsabilidade com a saúde dos turistas e dos moradores dos destinos. Demanda mais programas ao ar livre e mais contato com a natureza preservada. As aglomerações são vigiadas e repudiadas mais fortemente pelos moradores em nome da saúde. Responsabilização e reputação estão ainda mais em jogo.

O turismo vai se restabelecer, mas agentes de viagens, empresas de turismo, governos e todos os atores da indústria precisam fazer um planejamento melhor. Todas as pessoas têm direito a visitar seus destinos dos sonhos, mas deve haver um compromisso de quem atua nessa indústria de oferecer uma ótima experiência para quem viaja e para quem recebe.

Organizar melhor os calendários de eventos para pulverizar o fluxo de turistas, desenvolver novos destinos, capacitar ininterruptamente os produtos, considerar os limites da infraestrutura das cidades, entender o meio ambiente como aliado, cuidar do social como ferramenta de desenvolvimento e, no final, dar transparência a tudo isso, são saídas altamente viáveis. É assim que vai haver menos excessos de pessoas e mais negócios.

As rupturas provocadas pela pandemia geraram, entre tantas consequências, um anseio por viajar. E é uma grande responsabilidade ajudá-los a se reconectar com o turismo. A indústria precisa estar forte e preparada para oferecer o seu melhor. Paralelamente, a retomada da economia global também depende também do setor, afinal recuperar 10% do PIB do mundo é uma tarefa dura.

Toda crise é uma oportunidade de renascer e fazer melhor. É hora de agarrá-la.

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