Meu carro novo, cor de geladeira velha!

Por: Marcelo Alexandre

Por Jorge Augusto

 

Esse simples título já deve esclarecer para muitos do que se trata essa crítica. Não deve ser novidade para ninguém, que o mercado automotivo vem passando por uma ‘modinha’, que até certo ponto é de um gosto muito duvidoso. Estou falando do gosto quase compulsivo por automóveis de cor branca. Nos últimos 2 anos, muitas pessoas assumiram um gosto inexplicável por essa cor, que já foi maldita em outras épocas. Mas antes de entrar nos considerantes, gostaria de abordar a questão técnica do branco.

 

O branco nos carros

 

Tecnicamente falando, o branco até faz sentindo para algumas necessidades. Então vamos a elas. Um carro branco, sob sol forte, pode ter a temperatura do seu interior até 5 graus mais baixa que um carro de cor escura, portanto faz sentido quando o carro não tem ar-condicionado. Outra vantagem técnica é a melhor reparabilidade em caso de acidente. O funileiro não precisa ser assim tão hábil para acertar a cor da parte pintada em relação ao resto do carro. Existe ainda o fato do carro branco aparecer melhor a noite. Dessa forma, um carro estacionado numa rua escura, tem mais chance de ser visto por outros motorista que trafegam em volta. E por fim, o carro branco tem a pintura mais barata que existe. Os compostos químicos para se obter o branco, são mais baratos que qualquer outra cor metalizada escura.

 

E é justamente por esses motivos que o branco é amplamente utilizado em carros de serviços, e centenas de outras aplicações de pintura sobre chapas de metal. Assim, carros de serviço das secretarias de saúde, ambulâncias, taxis (na cidade de São Paulo), carros de entrega, e muitos outros são da cor branca. Não vamos esquecer do líder absoluto (e incontestável) de vendas na história desse país, no segmento de três portas: a nossa Kombi, que já há algum tempo só sai da fábrica da Volkswagen, na cor branca!

 

Mas o branco vai muito além. Quem já não escutou a expressão “linha branca” para equipamentos de utilidade doméstica. Afinal, geladeiras, máquinas de lavar, secadoras e outros equipamentos de cozinha e serviço sempre foram em sua esmagadora maioria de cor branca.

 

De volta aos carros, há uns 6 anos atrás, os carros brancos eram detestados pelos usuários. Afinal, quem iria querer ter um carro da cor da Kombi de entrega?! Mas essa história começou a mudar, pelo menos no Brasil, no salão do automóvel de 2008. Vários fabricantes de grife apresentaram seus lançamentos (e lançamentos caros) na cor branca. E foi justamente ai, que a modinha do carro branco começou. Não demorou para os pedidos de carros brancos chegarem as concessionárias. E daí pra frente, o branco parece se proliferar igual mato em beira de estrada abandonada.

 

Qual o sentido do branco

 

Mas qual seria o sentido desse desejo pelo branco?! Realmente é complicado entender como essa cor ganhou tanta expressão! Vejamos outros mercados. Aqueles com mais de 30 anos, se lembrarão de uma campanha de TV onde executivos entravam no elevador vestindo camisas brancas, e apenas um deles vinha com uma camisa de cor diferente e o chefe falava: “Bonita camisa Fernandinho!”. Em outra campanha de sabão em pó, enquanto várias marcas ficavam prometendo o branco “Mais Branco”, uma marca resolveu lançar o sabão em pó amigo de todas as cores. Ou ainda a campanha de uma importante marca de tintas, que sugeria ao consumidor pintar a casa e interiores de outras cores bem diferentes do branco. Até a tradicional e imutável “linha branca”, parece ter caído na real, passando a oferecer esses eletrodomésticos em tom INOX, além de várias outras cores mais animadas e divertidas. Para ir mais longe, quem não se lembra dos primeiros computadores e seus acessórios numa cor quase branca! Ou seja, exemplos realmente não faltam para mostrar a evolução de outros setores que mudaram ao incluir cores nos seus produtos.

 

E nesse sentido, a indústria automobilística parece ter involuído, ou ainda, seus clientes parecem ter perdido o gosto. Aliás, esse mercado parece mesmo viver de modinhas bem estranhas. Não faz muito tempo, a bola da vez era o prateado. Para todo lado que se olhava, os carros eram prateados. Mas, ainda sim, o prata levava alguma vantagem sobre o branco. Afinal, cada marca tinha o seu próprio tom de prata. Mas e o branco!? Afinal, branco é branco! E mesmo que existam diferenças nos tons de branco, elas são bem menos perceptíveis que em qualquer outra cor. Pra ver a diferença entre os brancos dos carros, só colocando eles bem lado a lado, e com muita luz.

 

O “Branco” do lugar comum

 

No meio dessa história toda, o que realmente não dá para entender, são os carros caros e de luxo na cor branca. Isso, definitivamente, não faz qualquer sentido. Afinal, quem compra um carro caro e exclusivo, busca antes de tudo uma diferenciação dos demais veículos. E ai vem a pergunta: Qual a graça de ter um carro que custa mais de R$ 100 mil reais da mesma cor da ambulância, do taxi, do carro de entrega de mercadorias ou da geladeira que já saiu de moda?! É, no mínimo, conflitante o desejo de ter um carro diferente dos outros, com uma cor tão banal e comum como o branco. O branco é até considerado uma cor de brincadeira e palhaçada. Enquanto em Nova Iorque as limosines são da cor preta, na cidade do espalhafato Las Vegas, elas costumam ser brancas. Ou seja, a cor é usada pra dar aquele toque “cheguei chegando”.

 

Mas a pior parte de tudo isso, é aqueles que pagam mais caro por um carro na cor branca. A cor que é mais barata “industrialmente”, acaba sendo vendida por um preço mais elevado só por causa da modinha. Ainda temos algumas marcas com carros de “série especial” na cor branca, e mais cara. E o consumidor ainda vai e compra!

 

O futuro provável sem tanto Branco

 

E tudo leva a crer que essa moda do branco está no fim. Agora, é importante lembrar que um carro, não é exatamente como a calça jeans ou a camisa da estação. É um bem cujo o investimento é bastante elevado, e certamente vai durar mais que 3 ou 4 anos. E quando a moda acabar, os donos desses carros cor de máquina de lavar, poderão ficar com um belo mico na mão, no caso, um mico albino!

 

Estamos às vésperas do salão do automóvel de São Paulo. Foi nesse mesmo evento em 2008, que começou essa moda do branco. Agora é esperar pra ver se as montadoras vão continuar apostando no lugar comum, ou vão dar uma virada para algo mais interessante e animado. A provável aposta são carros com cores mais vibrantes. Afinal, essas modas são cíclicas, e se eliminarmos os carros pretos (que já tiveram a sua vez), os prateados, e agora o sem graça branco, o que nos resta?!

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