O futuro do Turismo de luxo

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Soa como uma prática de sadismo repetir a todo o tempo que o Turismo sofreu um cataclisma com a pandemia e lembrar-nos que até mesmo o mercado de alto padrão foi abalado. No entanto, um estudo recente da Bain & Company, apresenta números com perspectivas e cenários, obrigando os profissionais a se debruçar sobre projeções e exercícios de futurologia.

O documento mostra que o mercado de bens e serviços de alto valor agregado, até então em franco crescimento, retrocedeu aos números de 2015 no ano passado. E que a recuperação ao mesmo patamar de 2019 acontecerá somente a partir de 2023. No caso das viagens de luxo, a queda foi de até 30 pontos percentuais nas taxas globais de ocupação, com certos mercados observando diminuição de 65% na receita.

Os números só não foram piores porque muitas pequenas propriedades isoladas serviram de refúgios para longas estadas. Queda menor também foi observada na negociação de aviões privados, explicada, justamente, pelo anseio de ter maior segurança no deslocamento.

Até o ano passado, repetia-se, à exaustão, que a sustentabilidade era o futuro do luxo. E se a preocupação com o meio ambiente, o comércio justo e a diversidade são atributos exigidos das marcas de prestígio mais importantes do planeta, a pandemia mostrou que outros atributos redefinirão o conceito do mercado de alto padrão e valor agregado.

Caroline Putnoki, diretora da Atout France para América do Sul, tem se debruçado sobre pesquisas que apontam para o futuro do setor. Segundo ela, historicamente, excelência é um deles, assim como exclusividade e o caráter artesanal. E é nesse sentido que se pode encontrar um caminho para o turismo de luxo no futuro.

Até o presente momento, os grandes conglomerados produziram milhões de bens – com reconhecida excelência e preços exorbitantes – que invadiram todos os espaços possíveis, inclusive o Turismo. Amenities de marcas cobiçadas, como Hermès, Lanvin, Guerlain, estavam nos banheiros de todos os hotéis, quando não na própria fachada, como Bulgari e Armani. Sem falar dos spas espalhados pelos continentes, todos com cara de boutiques do Faubourg Saint Honoré, em Paris.

No entanto, é possível observar que muitos outros empreendimentos, alinhados ao verdadeiro luxo no futuro, têm se voltado cada vez mais para os produtores artesanais. Incluindo tratamentos fitoenergéticos nos spas e até amenities feitos por integrantes de comunidades indígenas ou famílias de vinicultores da Itália. Não estamos falando apenas da ligação com o meio ambiente, mas sobre algo que é produzido a mão.

Muito possivelmente se verá, sim, queda no número de clientes acomodados nas primeiras classes dos aviões, nos restaurantes com três estrelas Michelin e nos hotéis de luxo, já que parte desse mercado corresponde às viagens empresariais. A queda deverá ser substituída por um aumento importante nas tarifas que só poderão ser justificadas se houver, de fato, excelência, singularidade e artesanalidade nos bens e nos serviços.

A jornalista Dana Thomas, autora do livro “De Luxe – Como o luxo perdeu o brilho”, amaldiçoa a família de Bernard Arnault. Segundo ela, a lógica de quantidade imposta destruiu marcas que eram muito exclusivas e artesanais, como Louis Vuitton e Dior. Talvez hoje ela esteja mais tranquila em relação ao futuro, porque, possivelmente, o luxo ruma no sentido inverso para o qual vinha caminhando. A democratização do setor foi interrompida e um movimento de maior exclusividade ganhará força, o que vai afetar sobretudo a hotelaria. Aquela bandeira lifestyle, que era uma versão mais em conta das bandeiras de luxo, por exemplo, poderá estagnar.

O confinamento exigirá uma reflexão profunda e radical em relação à qualidade dos serviços para justificar a importante readequação tarifária. E, é claro, que o que acontece no topo da pirâmide, refletirá, em algum momento, na base. Luxo hoje é ter sabedoria e serenidade para reinventar-se, conduzir seu negócio para outro cenário e ter um futuro igualmente novo.

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