O que esperar de 2021?

2021

O final do ano se aproxima e destaca a necessidade de estabelecer diretrizes orçamentárias para o próximo exercício. Para isso é necessário fazer uma reflexão profunda e detalhada de possíveis cenários do Brasil e do mundo, com análise dos impactos na indústria do turismo. Seja para investimentos, ações comerciais, políticas tarifárias e de recursos humanos.

A primeira pergunta, claro, versa em torno da covid-19 e de uma possível vacinação em grande escala que traga mais segurança. A imensa maioria dos prognósticos nos leva a acreditar que a situação sanitária estará muito mais tranquila no segundo semestre de 2021, principalmente nos Estados Unidos, Europa, Japão e China. Nesse sentido, o turismo para destinos tradicionais e de negócios volta a ocupar posição privilegiada quando comparado aos anos anteriores em que cidades e países exóticos lideravam as listas das principais publicações de viagens, em todo o mundo.

No caso do Brasil, o adiamento – em alguns casos, o cancelamento – do carnaval irá afetar destinos domésticos tradicionais e impactar as vendas do primeiro semestre de hotéis e companhias aéreas, com consequências negativas no comércio. As viagens de escapada, num raio de 300 quilômetros de grandes centros urbanos, continuarão em alta, segundo estudos realizados por associações setoriais de turismo.  Trata-se de uma aposta segura para operadoras e agências de viagens, assim como a locação de casas por temporada.

É importante lembrar que, por conta dos prazos de vacinação, será preciso que meios de hospedagens, restaurantes e espaços de eventos continuem investindo em protocolos de segurança, equipamentos de proteção individual e infraestrutura. Além, é claro, de resistir bravamente a guerras e reduções tarifárias.

As viagens de incentivo deverão ter mais um ano ruim. Seja pela impossibilidade de lançar campanhas para 2021 seja porque as empresas buscaram alternativas à premiação, diante do cenário nebuloso. Estimativas apontam o início de recuperação para os eventos no terceiro trimestre do ano que vem. E um retorno aos números de 2020 apenas em 2023.

Ainda assim, mesmo com o possível fim da pandemia, o cenário não será o mesmo que aquele apresentado antes de março de 2020. Estudos apontam que, dentre as diversas mudanças nos padrões de consumo, as políticas de home office finalmente vieram para ficar. Muitas empresas nacionais resolveram adotar o modelo do trabalho em casa, depois de meses de testes bem sucedidos.

Mark Zuckenberg, fundador e chairman do Facebook, criou o cargo de diretor de trabalho remoto para gerenciar o crescente número de funcionários em home office. Tal prática trará impacto importante e favorável nas estruturas de custos das empresas do Turismo, reduzindo aluguéis e despesas de deslocamento entre outros.

Por sua vez, não se sabe ao certo se ela poderá interferir nas viagens corporativas. De um lado, há a certeza de que reuniões feitas em plataformas podem ser muito eficientes e eficazes, reduzindo a necessidade de encontros presenciais. Por outro lado, pergunta-se sobre uma maior necessidade de reunir equipes em hotéis e viagens para integração.

Tensões entre movimentos conservadores e progressistas também poderão interferir no setor. Países que vêm assumindo uma postura menos aberta às liberdades individuais e à diversidade, como o Brasil, tendem a receber menos turistas estrangeiros. Neste sentido é preciso lembrar que o extremismo ideológico – seja da direita ou esquerda – e fundamentalismo religioso não combinam com Turismo.

É o caso da imensa maioria dos países muçulmanos, ou ainda o cinturão da Bíblia, nos Estados Unidos. Nem de longe figuram como opções de viagens de lazer para turistas, independentemente de gênero, etnia, orientação sexual ou situação econômica.  Os países que mais recebem pessoas são aqueles que investem em imagem de respeito às diferenças. No território norte-americano é só pensarmos na importância de Nova York, Califórnia e Miami, e da posição de Salt Lake, Mississipi e Utah.

Israel, por exemplo, ainda que seja o destino preferido de católicos praticantes e evangélicos neopentecostais, investe em iniciativas para fomentar o Turismo LGBTQI+. Postura semelhante à da francesa Accor e à da companhia aérea American Airlines.

Igualmente importante levar em conta as tensões com relação ao combate ao racismo. O trágico assassinato no Carrefour chamou atenção para a conduta, incluindo os terceirizados, nas diferentes organizações. A quase totalidade de hotéis trabalha com prestadores de serviços em segurança e nos estacionamentos.

Compromissos dos fornecedores no combate à misoginia, racismo e homofobia serão exigências em governança corporativa. As áreas de cultura corporativa e treinamentos devem investir muito mais em campanhas de respeito ao ser humano e assédios do que em produtividade.

Por último, mas não menos importante, são os resultados da economia. O Brasil se mostra muito atrasado nas reformas administrativas e tributárias. As pautas de costume parecem desviar a atenção da mídia, do congresso e da opinião pública do real problema do País: a ineficiência e o tamanho do Estado, assim como a burocracia que só existe para se vender soluções através de despachantes e corrupção.

O corporativismo militar e judiciário segue consumindo parte importante do orçamento público e investimentos em infraestrutura e segurança ficam esquecidos. O fim do auxílio emergencial e o alto número de desempregados podem obrigar empresários a reduzir ainda mais sua expectativa com relação à recuperação das empresas em 2021 e 2022, reduzindo a capacidade de novos investimentos e aumentando sobremaneira a gestão de custos fixos e despesas administrativas.

Há que se desejar um melhor ano em 2021. Tudo leva a crer que será menos tenso que 2020, mas, é preciso dizer, de forma realista e conservadora, que está longe de ser o melhor ano da nova década.

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