O turismo em chamas

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O trágico acidente que consumiu o edifício e parte significativa do acervo do Museu Nacional do Rio tem, além dos óbvios e já mencionados simbolismos, outro que é igualmente dramático: o desrespeito total do nosso País à memória, inclusive no turismo.

Somos um país jovem, mas não demonstramos a idade. O que poderia ser um elogio para um indivíduo soa, neste caso, como um lamento quando se trata de uma nação. O Brasil parece uma criança: sem passado, sem limites, sem consciência da autorresponsabilidade, esperando ser guiado por um adulto.

Como nós, que trabalhamos com turismo, podemos permitir que o patrimônio histórico de cidades como Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) sejam relegados ao total (sim, total!) abandono? Como explicar que um acervo que possuía murais de Pompeia, múmias e o mais antigo fóssil humano das Américas fosse desconhecido por parte significativa dos turistas que visitavam a capital fluminense? Assim como a maior parte dos turistas que visitam São Paulo nunca pisou na Pinacoteca, no Museu de Arte Sacra ou ainda no Museu do Ipiranga, fechado há anos para o público.

O Quai Branly, em Paris, apresenta a produção artística das primeiras civilizações das Américas. Muitas peças vindas do… Brasil.  O brasileiro é conservador no que existe de pior, e não busca preservar o que tem de melhor, sobretudo sua produção cultural e artística.

E não se trata de um problema ideológico. Há, por exemplo, aqueles que atacam as memórias dos bandeirantes. Não se trata de considerá-los heróis ou vilões, mas de preservar os documentos e vestígios da passagem deles e construção de nossa história. Adianta construir um museu do futuro enterrando completamente o passado?

A questão da memória vai muito além da preservação do patrimônio histórico e cultural brasileiro. No turismo não preservamos marcas. É quase impossível pensar em ter uma categoria Palace na hotelaria tupiniquim (e uso esse adjetivo como um elogio). Nossos hotéis de luxo, com raríssima exceção, não estão em prédios legendários e históricos. Nossos melhores e mais antigos restaurantes possuem, quando muito, cerca de cem anos.

Em recente pesquisa que conduzimos junto à imprensa, profissionais de turismo e consumidores, percebemos que apenas duas marcas poderiam integrar o patrimônio do turismo brasileiro.  Aqueles que construíram o mercado e ainda estão vivos sequer recebem convites para as feiras que ajudaram a erguer no passado.

As eleições deste ano mostram a total desconsideração com a memória. Qual a trajetória daqueles que desejam conduzir uma das mais importantes economias do mundo? O que fizeram? O legado é mais importante que o desejo de construir.

Sequer nos lembramos dos ministros que conduziram as estratégias de promoção turística do País. Como eleger deputados e senadores que nunca tiveram preocupação com nosso segmento? Que ações de interesse de nossa indústria os atuais candidatos à presidência apoiaram?

Existe um frenesi pelo porvir. Vivemos pensando no futuro. Mas o futuro é construído a partir do respeito às experiências vividas e a memória. Se não houver essa consciência, continuaremos sendo uma nação sem passado. E. sem futuro.

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