O turismo invisível

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Por Mariana Aldrigui*

Feche os olhos. Tente esvaziar sua mente por alguns segundos. Em seguida pense em “turista”. Abra os olhos e balance a cabeça positivamente se a imagem que ocupou a sua mente é a do estereótipo: camisa florida, chapéu, óculos, câmera, mapa, short e sandálias.  Não tem problema se o seu turista não vem com tudo isso ou se é uma turista mulher. Para a maioria dos leitores, mesmo aqueles que trabalham o tempo todo com turismo de negócios e eventos, a palavra turista está ligada a uma imagem estereotipada.

O mesmo acontece com o turismo. É uma questão de linguagem e significados, imagens mentais que são formadas em nossa mente desde muito pequenos, com forte influência de desenhos animados, filmes, séries e reportagens a que somos expostos. Turismo tem sempre uma aura leve, alegre, vinculada com férias, praia, bebidas, descanso e diversão.

Isso não é ruim, de modo algum, mas constitui-se um desafio para quem trabalha para ampliar o conhecimento sobre a área e busca conferir aspectos de seriedade para o setor, quando estabelece relações com outros da sociedade.

No final de 2016, diversos brasileiros compartilharam com empolgação a notícia de que 2017 seria um ano maravilhoso em função do número de feriados prolongados. Serão nove no total, o que dá especial alívio a quem anseia por dias de folga. Independentemente do que se planeja para os feriados, a ideia de dias de folga acumulados é sempre bem-vinda.

Entretanto, já nos primeiros dias do ano foram divulgados relatórios e análises elaboradas principalmente pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e pela Fecomércio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) indicando que a manutenção das pontes – criando os feriados prolongados – trarão impactos da ordem de R$ 67 bilhões de reais na produção industrial (4,4% do PIB industrial do País) e de R$ 10,5 bilhões no varejo (as pessoas deixarão de gastar esse dinheiro principalmente com vestuário, combustíveis, farmácia e bens essenciais).

Naturalmente, editorias de meios de comunicação buscaram entrevistar responsáveis pelo turismo para verificar se os feriados não seriam capazes de compensar as perdas com a movimentação de pessoas pelo País, e nas reportagens que acompanhei (ainda no mês de janeiro) as respostas são sempre positivas e carregadas de estimativas (o famoso achismo, mas com roupa formal).

Infelizmente, os dados sobre o turismo brasileiro são frágeis. Por diversas razões, não recomendo que sejam tomadas decisões baseadas apenas no que é divulgado pelo setor. As estatísticas são falhas e as projeções são mal feitas. Eu não duvido, por exemplo, que a movimentação econômica estimulada pelos feriados seja significativa. Certamente é. Mas ninguém consegue projetá-la. Porém, ela é muito menor que a movimentação do varejo de um dia útil, por questões óbvias – uma grande parte das pessoas não sai de casa e, portanto, não gasta, de seu orçamento doméstico, o que gastaria num mês sem feriados.

Outro aspecto importante: o dinheiro do consumidor não aumenta por conta da existência de mais ou menos feriados. Ele apenas será gasto em outro lugar, com outros itens. Certamente haverá destinos mais beneficiados que outros e o local de origem dos turistas perde no volume de transações realizadas – e, consequentemente, na arrecadação de impostos.

O ponto central é não termos desenvolvido, mesmo que de maneira embrionária e falha, uma alternativa consistente de demonstrar por onde entra e de que forma se distribui o dinheiro gasto pelo turista, da mesma forma que não fica evidente a representatividade da atividade na economia de um município.

Por exemplo: qual é a prefeitura de cidades que estão a 100 ou 150 km de capitais, que tem dados exatos da geração de riqueza vinculada às casas de finais de semana (segundas residências) e aos negócios que flutuam ao redor delas – entrega de bebidas, venda de suprimentos para churrasco, assessoria na limpeza de piscina e segurança?

Quem tem os números (exatos ou aproximados) de pessoas que viajaram de carro e ônibus na temporada, se hospedaram na casa de amigos ou parentes e se organizaram para consumir pouco no local – mas, ainda assim, compram itens dos ambulantes? E quem se preocupa em monitorar o aumento do número de ambulantes e projetar o valor gasto em um dia com crianças na praia?

Enquanto tudo isso não se estrutura e segue sendo óbvio, o turismo invisível segue crescendo. Quantas pessoas viajam a trabalho por conta própria, não ficam em hotéis, mal se valem da estrutura evidente do turismo e, ainda assim, gastam dinheiro no destino? E o que dizer da quantidade de pessoas que viaja para tratamento médico, aconselhamento jurídico ou treinamento empresarial e não se considera turista de modo algum? Mais divertido ainda é, em uma cidade como São Paulo, ao final de cada feriado as notícias tratarem do “movimento no comércio das ruas especializadas” como se isso não fosse turismo.

Não se enganem: não se trata de convidar dois ou três pesquisadores para desenvolver o indicador. É um pouco mais complicado; significa redesenhar ou ressignificar algumas atividades para incluí-las como turismo, diminuindo, portanto, algumas outras áreas, especialmente no sentido do controle fiscal e tributário. Se o dinheiro não aumenta, o que haverá é apenas uma realocação no quadro de receitas e despesas… E algumas forças políticas vão se incomodar bastante com isso.

Talvez seja o momento de começarmos a reunir sugestões para novos indicadores e novas formas de contabilizar os efeitos do turismo na economia das cidades brasileiras. Enquanto o turismo for só estereótipo, será difícil que seja levado a sério.

* Professora e pesquisadora na USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo Brasileiro ([email protected])

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