O turista e o malabarista

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Sou do tempo em que ir ao circo era programa quase nobre, principalmente no interior. A chegada deles nas cidades provocava alvoroço, especulações sobre as atrações, dúvidas sobre qual a roupa a ser usada e por aí afora. Era um mundo de cores, efeitos e truques, fantasias – desde as que aconteciam no picadeiro até aquelas em nossas cabeças pelo que iríamos ver, ouvir e sentir.

A pipoca, salgada ou doce, cheirava de longe. Ia até lá na esquina, onde a fila para a entrada fazia a curva ao redor do terreno onde se instalavam, atiçando o olfato de todos sem a menor piedade. O cachorro quente era generoso e com molho de tomate de verdade. O algodão doce vinha com opções diferentes de cores e as balas, ah as balas. Os sucos coloridos gelados em embalagens plásticas de vários formatos: carrinho, cacho de uva e foguete. Era um cardápio vasto, e tenho a impressão que muito mais divertido do que os dos atuais e poucos circos existentes.

Onde sentar era outra decisão importante; se era no picadeiro com ou sem almofadas – que ninguém levava pra casa de lembrança – ou nos privilegiados camarotes com divisórias, cadeiras em veludo vermelho bem próximas do picadeiro. Quem não queria ver o palhaço ali, bem debaixo do seu nariz, o cachorro andando de bicicleta e, passando de raspão pela família ali instalada, quase sentir o perfume das bailarinas? Uns juravam que sentiam e podiam até identificar.  Era a mesma vista privilegiada de quem senta na janela de um avião que irá pousar pela manhã no Caribe ou no meio de algum país no Himalaia. A felicidade era única e palpável, uma experiência que nos marcava para o resto da vida com momentos de felicidade incondicional.

Mas também existiam os circos mais simples, nos quais a única opção de assento era o picadeiro de madeira, sem almofada. O cardápio era mais reduzido, mas nem por isso menos gostoso. Não importava, pois todos estavam lá pelo espetáculo e nem isso apagava a mágica, a felicidade, os sorrisos dos rostos.

Nos intervalos das escolas, João já ficava cheio de olhos para sua grande paixão, Zélia, pois sabia que iriam se encontrar lá. E seria a chance de dividir uma “Mirinda” com ela. A chance de rir a valer e pegar na sua mão durante as aflições do globo da morte e aquele barulho infernal das motocicletas. Mas o barulho não incomodava, nem a fumaça, pois estavam todos felizes. E Zélia se sentia protegida.

Havia ainda os trapezistas. Não tenho recordação de nenhuma celebridade ou artista que tenha escutado mais ‘’ ooooooohs’’ e aplausos do que eles. E João ali, firme e feliz, muito feliz. Na cabeça deles nem se concatenava qual seria o desdobramento daquilo, pois o que importava era o picadeiro, as cores, as luzes, os movimentos, os cheiros e sabores. Se eu fosse entendido em marketing sensorial arriscaria dizer que os circos foram os inventores de tal modernidade.

E como todo avião que pousa e abre suas portas, o espetáculo acabava, as luzes eram acesas e calmamente se caminhava para as saídas. Sem empurrões, sem cotoveladas, sem dores. Talvez a única dor fosse a dos maxilares, de tanto rir, de tanto ranger os dentes torcendo pelo motociclista ou pelas aflições dos trapezistas e equilibristas.

A felicidade era geral, plena e elevava qualquer espírito – mesmo o de porco. E a primeira pergunta, principalmente vinda dos pais, das tias e das avós, e dos maridos para suas esposas: Do que você mais gostou? E claro, dos Joãos para suas Zélias. Não existia nenhuma pesquisa, mas tenho a lembrança de que a maioria das mulheres votava pelas bailarinas e equilibristas, enquanto os meninos preferiam o globo da morte e os trapezistas.

Havia um denominador comum a todos, sem falhar, sem pestanejar. Os palhaços. Ganhavam praticamente a todos, nos corações, mentes e almas. Tudo bem que mesmo naquela época também existiam os “existencialistas” que achavam os palhaços seres tristes e sofridos, que escondiam toda a miséria humana atrás do narigão vermelho e da maquiagem. Francamente, e na minha humilde opinião, eram chatos. Doutorados e credenciados.

Quando um circo desenvolvia seu espetáculo, as fantasias e os números que seriam apresentados tinham, na mais perfeita simplicidade e inteligência, a noção da responsabilidade. Era uma missão quase divina, um trabalho de Hércules. Precisavam encantar, emocionar, arrancar muitos e muitos risos, suspiros. Era uma regra cativar a todos por meio de um inexistente e até então nunca mencionado, teletransporte para um universo paralelo.

E os organizadores e pensadores assumiam essa responsabilidade e sabiam que, ao comprarmos um ingresso e entrarmos embaixo daquela lona, buscávamos uma identificação com algum número, personagem, um som ou uma luz. Buscávamos histórias para contar e, quem sabe, replicar no mundo real.

Era inadmissível para atores e organizadores que alguém saísse triste ou desapontado. O público era parceiro e cúmplice, testemunha viva que poderia espalhar, por onde andasse, a felicidade que traziam. E sem o menor ego eles acolhiam a todos, e correspondiam a esta parceria.

A decisão de entrar no circo era nossa. Só queríamos ser correspondidos. Sem tapetes vermelhos, sem água francesa, sem crachá VIP. Os circos e seus integrantes não tomavam partido de ninguém, não emitiam opinião a favor do leão ou do elefante. Eram fiéis única e exclusivamente a uma coisa: seu público.

Ao entrarmos em uma agência de viagens, operadora, hotel, parque, seja lá onde for e para quem for, é por que escolhemos. Se passageiro ou fornecedor, entrou por acreditar que as pessoas dentro destes lugares, que os dirigem e os fazem funcionar, são parceiros sérios e preocupados em tornar realidade os sonhos de viagens ou projetos.

Neste segundo caso, quando o local escolhido corresponder ou superar as expectativas, fará uma máquina muito potente girar. Fará parceiros duradouros e clientes que irão voltar sempre.  Esta máquina chama-se TURISMO.

Não desaponte o seu “respeitável público”, nem tome partido; não divulgue notícias que não te dizem respeito.  Não desarme a lona na cabeça do espectador, por que ele vai procurar – e vai achar – “circos” sérios, humanos e parceiros.

Uma ótima semana, e até a próxima!

Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está totalmente focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Ele escreve no portal do Brasilturis às terças-feiras. Contato: [email protected]

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