O X da questão e a juniorização no turismo

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Vamos começar por uma defesa. Não sou marxista, muito pelo contrário. Embora acredite que ainda é necessário corrigir certas injustiças sociais, através de ações afirmativas, espero que um dia a interferência do Estado seja mínima e que todos tenham os mesmos direitos e a partir daí colher seus méritos. Falando de Marx cientista: em sua obra ele afirma que o capitalismo, assim como os modelos de produção do passado, criaria os elementos que o levaria ao colapso. Muitos economistas, a posteriori,  vieram alertar sobre o perigo da busca pelo lucro desenfreado pavimentar o caminho que conduziria as empresas para um final, o que para qualquer empreendedor é a máxima tragédia.

Ninguém sabe exatamente qual o futuro das organizações e o ambiente de incertezas tem criado uma série de trapalhadas. Um dos maiores erros que as empresas vem cometendo, muitas vezes para economizar em salários,  é colocar hoje os millenials em certas posições estratégicas, jogando de escanteio as gerações precedentes, inclusive, e sobretudo, o pessoal da geração X. Trata-se de um grupo de pessoas que poderia conduzir a transição entre a geração dos baby boommers e a geração Y e Z com mais sutileza, sem traumatizar culturas organizacionais e reputações. Os millenials, autocentrados, desconhecem , em geral, qualquer olhar diferente dos seus. Qualquer geração anterior, mesmo que os banque, inexiste ou não merece ouvidos.

Embora não tenham nascido digitais, os nascidos entre 1960 e 1982,  têm mais facilidade em compreender, comparar e alinhar pensamentos analógicos e a nova tecnologia. Têm mais paciência com resultados, resiliência,  menos volúveis, respeitam minimamente processos e, trabalham com planejamento, algo que as atuais gerações, justificando que tudo é experimento, desconhecem. O resultado é sentido todo o tempo,  produtos e serviços, em termos de qualidade, vem se apresentando cada vez mais decepcionantes.

Na área de comunicação, a juniorização se torna ainda mais gritante. E não é a toa que as empresas tem enfrentado a todo momento, crises das quais não conseguem se livrar. Dois exemplos atuais: o primeiro, Santander e a exposição de arte discutindo diversidade em Porto Alegre. Sem entrar na discussão ética e estética, apenas marketing e relações públicas, qualquer ser  pensante deveria imaginar que uma exposição que discute gênero e sexualidade nos dias de hoje poderia receber, principalmente através das polaridades no universo digital, ataques e muitas críticas. A equipe do banco já deveria ter um discurso preparado para enfrentar, até o final, uma escolha de ativação de marca. Nunca poderia ter voltado atrás. Conseguiu em menos de 72 horas despertar a ira de ultraconservadores e liberais. Pensando bem, Santander tem uma direção de marketing e comunicação que é o exemplo da desgraça. Lembram do episódio da economista, que apesar de estar certa, foi dispensada após uma reclamação do ex-presidente Lula?

O segundo episódio, lamentável, foi a campanha da Dove, em que imagens veiculadas em redes sociais davam a falsa impressão que uma mulher negra, ao usar os produtos da Unilever, poderia se tornar branca. Uma campanha publicitária até chegar ao consumidor passa por inúmeras cabeças. Do diretor de criação da agência até o cliente que aprova, passando por diversos graus hierárquicos.  Não é possível que ninguém se deu conta do problema que tal comunicação iria criar. As ações da empresa, nas principais bolsas, sofreram queda e um movimento surgiu com ira e força para boicotar a Dove, marca que sempre investiu na diversidade, no emponderamento feminino.

Tem faltado pesquisa, planejamento e sobretudo reflexão. Tudo tem sido feito em velocidade de videoclipe, sem o devido cuidado. Isso tem acontecido na hotelaria, nas agências de viagens e até mesmo na promoção de destinos. Um amigo contou-me que recentemente recebeu um cliente dos Emirados Árabes para fazer eventos no Brasil. O estrangeiro ficou estarrecido com a qualidade dos hotéis em São Paulo e Rio. Mas uma surpresa negativa. Muito aquém do que se espera em duas grandes metrópoles como as nossas.

A preocupação com excelência, inovação e perenidade foi trocada pela impulsividade de se oferecer algo rapidamente, sem o devido amadurecimento.  Maturidade, excelência e confiança exigem tempo e experiência. E tudo isso tem faltado em nosso país.

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