Pandemia e gestão de crises

É estarrecedor o fato que, na história recente, tivemos o ebola e o H1N1 e, mesmo assim, as nações não se prepararam com o devido cuidado para enfrentar o maior predador humano

viajar durante a pandemia

Estudo e trabalho com gestão de crises desde a década de 1990 e, nesses últimos anos fui contratado para resolver diversas delas. O que no Turismo, convenhamos, é bem comum. Vivenciei dramas de quedas de avião, crimes em hotéis e, não de muito perto, a blindagem da imagem de cidades que foram cenários de ataques terroristas.

Mas o que fazer quando a crise causa medo até na guerrilha? A chegada da Covid-19 obrigou até o Taleban a tomar medidas de prevenção. E é aí que podemos perceber a dimensão do drama que estamos vivendo. Cada crise é única, mas há certos protocolos que devem ser seguidos. A primeira lição é nunca subestimar um problema, por menor que seja. Ele não se alimenta do medo, mas da displicência. Essa foi a primeira orientação que ouvi em Paris, em uma aula sobre acidentes aéreos.

É estarrecedor o fato que, na história recente, tivemos o ebola e o H1N1 e mesmo assim, as nações não se prepararam com o devido cuidado para enfrentar o maior predador humano. Taiwan, Japão e Cingapura conseguiram lidar de forma exemplar com a questão, o que muita gente atribui à disciplina asiática. A maior razão do sucesso foi a fragilidade que eles perceberam sem si próprios. Ao entender a vulnerabilidade a que estavam sujeitos por serem vizinhos do berço da pandemia, os governos agiram rapidamente, de forma eficaz.

Asiáticos são peritos na mobilização coletiva e em planejamento de crises. Já os países que, por qualquer outra razão, se sentiram menos ameaçados e foram menos austeros com medidas sanitárias, já estão pagando a dramática conta que o novo coronavírus traz sem nenhuma complacência. Em uma crise, segundos, minutos, horas fazem a diferença. A forma como as autoridades brasileiras, a pretexto de não causar pânico, lidaram com o tema servirá como estudo de caso em um futuro próximo. E não será de forma lisonjeira.

Essa a segunda lição de crise: é preciso manter a frieza e a racionalidade a todo custo. Mas sem menosprezar o perigo latente. E é nessa discreta diferença que mora o perigo. O que interessa para nós é que o Turismo, a vítima primeira de qualquer crise econômica ou política, ainda não criou uma estrutura permanente para combater momentos graves. Isso se vê no microuniverso até atingir a escala global. Muitos empresários do setor, infelizmente, não têm visão sistêmica.

A preocupação legítima em relação à gestão deve estar acompanhada do cuidado para com a sustentabilidade do segmento, com os clientes, com os funcionários e prestadores de serviço. Uma crise como essa mostra que só uma ação articulada, em que interesses individuais são deixados de lado, pode resolver o problema. É inevitável que todos saiam perdendo com uma pandemia, mas é preciso equidade. Um exemplo é a corrida que algumas pessoas fizeram para estocar álcool em gel, não se importando com os demais.

Trata-se de uma reação irracional e, portanto, selvagem. Mas não é a selvageria somente em relação ao outro, mas principalmente em relação a si próprio. Em uma pandemia, se muita gente estiver contaminada, muito dificilmente o louco egoísta acumulador de produtos não se contaminará. Nunca se pensa no sistema.

Vamos superar isso tudo? Sem dúvidas. Mas o planeta não será mais o mesmo depois do novo coronavírus.  Em quanto tempo poderemos nos reerguer? Não sei. O que me preocupa realmente é se as lições serão aprendidas.

Deixe um comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui