Por que lá fora é melhor?

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Por Mariana Aldrigui*

15/06/16 – Sendo desse mundo e vivendo nos dias de hoje, você está, de alguma forma, ligado a uma rede social. Pode até ser que não esteja ativo, que pouco se aventure nos debates e acaloradas discussões, mas vez ou outra curte, compartilha, comenta, repassa e vive a bagunça de sentimentos que a vida online desperta – raiva, emoção, alegria, tristeza, compaixão, entre outras. Se não estiver em uma, ao menos já ouviu falar.

Em meio a tanta polarização e debates, alguns até bem enriquecedores, dedico mais atenção aos que tratam das comparações entre o Brasil e outros países. Não raro, são textos que minimizam o que temos aqui e exaltam as qualidades de “lá”, sendo que o “lá”, normalmente, é um país na América do Norte ou na Europa.

Naturalmente, tem também os que se valem das comparações antes feitas para, então, destacar o já conhecido complexo de vira-latas do brasileiro. “Ataca as faixas para bicicletas, mas ama o que vê em Amsterdam” ou “Apoia o fim do Ministério da Cultura, mas exibe diversas fotos nos museus de Paris” e por aí vai.

O fato é – lá fora é melhor, sim. Muito melhor. E de tão melhor que é, especialmente no caso do turismo, há anos se tenta copiar, quase sem nenhum sucesso, o que se faz nos “países desenvolvidos”. Começaram copiando/traduzindo os livros e manuais, depois copiaram os projetos, tentaram se inspirar nas ideias, dar aquele jeito tropical, e na maioria das vezes o que se teve foram resultados dignos das Organizações Tabajara.

Venho estudando políticas de desenvolvimento do turismo há alguns anos e a constatação mais importante sobre o sucesso de alguns destinos está no fato de que não há necessidade de uma política específica para o turismo. Sim, é isso mesmo que está escrito. Quanto mais bem sucedido um destino, menos específicas são as ações em relação ao turismo. E talvez seja isso que deva ser copiado.

Mas não é tão simples assim. Pare e pense sobre o que realmente faz com que a grande maioria dos turistas se impressione com as grandes capitais mundiais – e falo de capitais por serem justamente as cidades com maior concentração de problemas em qualquer país – quanto mais gente, mais chance de ocorrerem problemas. Procure listar mentalmente os motivos que fazem um mesmo turista decidir voltar não apenas uma segunda vez à cidade, mas várias vezes. E perceba, talvez com um ar de desapontamento, que não são os atrativos turísticos – nem estátuas, nem prédios, nem torres, nem castelos.

As grandes cidades do mundo concentram o poder econômico mundial, e não por coincidência, são também os principais destinos de turismo, de negócios ou de lazer. Os city-breaks, viagens curtas para as grandes cidades, são os produtos que mais abastecem o turismo local – e o que é que os turistas compram? Lifestyle. Estilo de vida. Se quiser, chame de qualidade de vida ou bem-estar.

Tanto faz o termo que você escolha, mas pondere:

– O sistema de transporte público é integrado, funciona, e atende a todos; trata-se de um serviço básico para quem vive na cidade, quem paga os impostos e não quer, não precisa ou não pode usar seu veículo e, ainda assim, consegue ser transportado com dignidade, segurança e pontualidade. E atende a turistas, com bilhetes diferenciados, com mapas, informações, sinalização e segurança;

– Arte, cultura, entretenimento e lazer estão disponíveis e são oferecidos gratuitamente ou a preços subsidiados, com alta qualidade e sem discriminação; e, no caso de atrações pagas, há um aparente compromisso com serviços de excelência; há uma constante presença de grupos escolares vivenciando os equipamentos culturais, o que sempre chama a atenção de turistas brasileiros. Aproveito para destacar: a conservação dos diferentes museus e galerias mais visitados do mundo quase nunca depende de verba oficial. Elas são autofinanciadas ou mantidas por fundos de preservação da cultura local;

– A infraestrutura urbana permite que se caminhe a pé por diversas áreas, em ruas e calçadas planas e conservadas, com arborização, jardinagem, sinalização e a sensação de segurança (mesmo com diversas ocorrências de roubos e furtos, como em qualquer lugar do mundo);

– E há uma questão de orgulho de viver no lugar que, aqui no Brasil, eu reconheço nos baianos e pernambucanos, pessoas que “não permitem que se fale mal do lugar onde nasceu” e que nutrem laços de afeto fortes o suficiente para defender as causas que melhoram a qualidade de vida no local – manifestam-se, organizam-se, apropriam-se.

A real diferença entre os destinos bem sucedidos no mundo e os destinos brasileiros é a existência de políticas voltadas para a melhoria da qualidade de vida no local, entendendo que tanto quem mora como quem visita deve ter uma experiência agradável e sem intercorrências.

O reconhecimento da importância do turismo se dá em todas as esferas políticas, com destaque aos esforços voltados para educação, infraestrutura, segurança pública e desenvolvimento econômico, e não na criação de um ministério para acomodação/proteção política nem de secretarias pro-forma apenas para justificar repasses de recursos.

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora da USP, quase sempre inconformada com os rumos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

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