Pra quem tanta associação?

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“Diante de muitos interlocutores, a sociedade acaba com dificuldade em negociar com aquele que tem reais condições de apresentar soluções de interesse público.”

Por Ricardo Hida*

Não tenho nenhuma simpatia pelo presidente Michel Temer. Mas reconheço que sua gestão tem trazido a tona certas discussões e propostas que, se analisadas a fundo, são coerentes e necessárias para o crescimento do Brasil. O tema deste artigo, no entanto,  não são as reformas em si, mas uma situação que, apesar de excêntrica e escandalosa, sempre passou despercebida para maior parte da população: a questão do imposto sindical e a necessidade de tantos sindicatos em nosso País.

Nessas últimas semanas, a mídia  trouxe, sempre que possível, números comparando a quantidade de sindicatos e sindicalistas no Brasil e nos países com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e produtividade. A diferença, em termos percentuais, chega a três dígitos. E, até como anedota, jornalistas apresentaram ao público a existência de associações brasileiras que de tão esdrúxulas chegam a ser engraçadas –  se não, trágicas. Será que realmente trabalhadores que vestem branco precisam pagar um dia de seus trabalhos para alguém que os represente? Que tipo de influência  os sindicalistas exercem? Sobre a Omo, Ariel e Vanish?

E os fabricantes de chapéus de palha? Convocação de greve geral às vésperas das festas juninas, criando um caos nas escolas e quadrilhas?

Sim, porque associações, em tese,  servem para reunir pessoas -físicas e jurídicas- com os mesmos objetivos  para que reflitam e ajam conjuntamente junto ao poder público e demais grupos da sociedade para favorecer seus interesses.

A indústria do turismo é um reflexo do País. Com as mesmas qualidades e mazelas. E uma delas é a existência de inúmeras associações que não têm nenhuma razão social para existir. Sim, digo social porque elas apenas foram criadas para defender certos interesses individuais.

A imensa maioria das associações, incluindo vários Conventions Bureaux, deveriam se espelhar no trabalho sério de Abav, Braztoa e FOHB, para enumerar apenas algumas referências. Mencionei entidades que fazem um trabalho coerente, consistente e relevantes para os associados e o setor. Muitas outras, no entanto, surgiram por briga de egos dentro de outras associações, para gerar receita para seus fundadores ou ainda para dar visibilidade aos dirigentes.

É como a questão dos inúmeros partidos políticos. Muitos existem apenas para receber dinheiro do fundo partidário e usarem-no durante as campanhas  junto às gráficas, agências de publicidade que são propriedade dos dirigentes políticos.

Ao contrário do fundo partidário, que é dinheiro público, não tenho nada contra empresas e profissionais pagarem mensalidades ou anuidades para fazer parte de grupos que não têm razão de existir. Como liberal, defendo o direito de cada um gastar seu próprio dinheiro como lhe convier, desde que respeitando a lei. O problema é que diante de muitos interlocutores, a sociedade acaba com dificuldade em negociar com aquele que tem reais condições de apresentar soluções de interesse público.

Associações deveriam existir para levar adiante projetos de leis municipais, estaduais e federais que beneficiem a categoria. Apresentar razões favoráveis ou desfavoráveis para aprovação de leis. Informar a sociedade do que ocorre no setor. Criar campanhas cooperadas para favorecer as empresas de um segmento, propor formações, treinamentos para associados. O mesmo vale para sindicatos, quando pensamos em pessoas físicas.

Como funcionário e empresário já tive possibilidade de ser sindicalizado ou associado de várias entidades. Garanto que nem metade delas realmente defendiam meus interesses, mas não se furtavam, tampouco, de enviar o boleto de cobrança na data certa.

Já passou da hora dos empresários e empregados exigirem das organizações das quais fazem parte atitudes proativas e arrojadas que justifiquem as anuidades que pagam. E o setor em si, começar a separar o joio do trigo.

Porque, nesse caso, é tanto joio que o trigo não consegue ar nem sol para crescer.

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor-adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e é diretor da ABTLGBT. Ele escreve no Brasilturis às quartas-feiras. Contato: [email protected]

 

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