Representantes do Turismo LGBT+ repudiam fala do presidente da Embratur

Fórum de Turismo LGBT do Brasil, Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, Associação Internacional de Turismo LGBT e trade criticam posicionamento de Gilson Machado durante live transmitida pelo Facebook

turismo LGBT

Gilson Machado, presidente da Embratur, fez comentários ofensivos à comunidade LGBT+ durante uma live transmitida pelo Facebook, ao lado de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos. O executivo que lidera o órgão de promoção do Turismo brasileiro no exterior priorizou sua crença pessoal em detrimento à captação de negócios em um segmento que já mostrou seu potencial como importante aliado para que o Turismo saia da crise pandêmica em curso.

Dados da pesquisa LGBT Travel Market, promovida anualmente pela Consultoria Out Now/WTM, mostra que o Turismo LGBT+ movimentou US$ 218,7 bilhões em 2018. Ao se posicionar de forma direta contra a comunidade, o presidente da Embratur faz grave ataque aos direitos universais, atravanca a entrada de US$ 26,8 bilhões na economia brasileira e dificulta as relações com países que valorizam o fim do preconceito.

Pesquisa recente realizada pela Associação Internacional de Turismo LGBT (IGLTA) corrobora esses dados no cenário atual ao comprovar que esse perfil será um dos primeiros a retomar as viagens. O estudo mostra que 66% dos respondentes globais e 64% dos brasileiros disseram que pretendem viajar o quanto antes e têm planos para embarcar ainda em 2020. “Nossa pesquisa comprovou que o turista LGBT+ sairá na frente na retomada, mas a fala do presidente da Embratur sinaliza que nosso País perderá espaço frente a outros destinos que já entenderam a importância do segmento, especialmente nesse momento em que vivemos”, lamenta Clovis Casemiro, representante da IGLTA no Brasil.

Entenda o caso

O episódio aconteceu na citação da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, espetáculo com temática LGBT+ encenado durante a sétima edição da Mostra Internacional de Teatro em São Paulo. O festival foi realizado de forma virtual, com financiamento governamental do Ministério da Cidadania e Secretaria Estadual de Cultura, na primeira quinzena de junho, e o presidente da Embratur categorizou a apresentação como “canalhice com dinheiro público”. Em sua fala, Machado Neto ataca o que chama de uma tentativa de “impor a sua sexualidade perante a maioria de cristãos brasileiros” chamando-a de “abominável”.

As declarações geraram rápida resposta de entidades e empresários que atuam no segmento. “O mundo LGBT+ é altamente comprador em todas as áreas e, no Turismo em especial, além do grande consumo, somos força de trabalho na aviação, hotelaria, agenciamento de viagens, segmento de guias…. Declarações como esta nos fazem sofrer em duas frentes, o que é muito desanimador, pois buscamos a inclusão e não o incentivo ao desrespeito que pode gerar violência. Declarações de autoridades e formadores de opinião devem ser muito cautelosas, pois além da ofensa e da desqualificação, a situação nos deixa ainda mais vulneráveis. Não queremos ser melhores nem piores, apenas iguais, como de fato somos”, comenta Marcos Destro, diretor de Vendas e Marketing da agência Uau, especializada em turismo LGBT+. 

Alex Bernardes, criador e diretor do Fórum de Turismo LGBT do Brasil, afirma que a fala não causa estranheza e destaca a resiliência dos profissionais. “O presidente da Embratur erra ao sobrepor suas convicções religiosas à responsabilidade de seu cargo. Fica nítida a falta de conhecimento em relação à representatividade do segmento no setor de Turismo, mas isso não está fora de contexto. Desde o início, o governo deixou clara sua política que vai na contramão das melhores práticas mundiais. É triste, mas não é o fim, já que nossa comunidade é reconhecida pela resiliência. Seguiremos fortes com o trabalho de fomento ao Turismo LGBT+ em nosso País, gerando respeito, renda e mais igualdade”, diz. Criado em 2017 para capacitar o trade no atendimento aos viajantes LGBT+, o Fórum tem conquistado grande adesão, o que reforça o entendimento do empresariado em relação à importância desse público para os negócios.

“Além de mostrar desconhecimento sobre a comunidade, as palavras atacam de forma direta a promoção do turismo LGBT+ no Brasil e causam regressão em todo o trabalho desenvolvido para desenvolver nosso País como um destino acolhedor. Em um momento em que o turismo começa a pensar na retomada do setor, responsável pela geração de milhões de empregos, e que o turista LGBT se destaca, essa fala é desastrosa. Apesar de não refletir o sentimento de toda a população brasileira, atinge a promoção do destino Brasil de forma direta por seu papel institucional”,  declara Ricardo Gomes, presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil.

Assim como o Fórum de Turismo LGBT do Brasil segue preparando a quarta edição de seu encontro – com previsão de realização no último trimestre deste ano, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil informou que vai continuar o trabalho de promoção do País como um destino diverso. “Continuaremos defendendo e promovendo o empreendedorismo e empregabilidade da e para a comunidade LGBT, firmando nosso compromisso com o fomento da economia e da geração de empregos”, finaliza Gomes.

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