Saída pelo simples

É muito difícil enxergar oportunidades de negócios no meio da crise, enquanto vende-se o almoço para pagar o jantar. Mas, olhando para os casos de sucesso, é comum que eles tenham nascido de uma dor profunda que impulsionou uma solução inovadora.

A pandemia está induzindo as pessoas a buscarem refúgios de suas rotinas de isolamento doméstico em lugares que antes não passavam por seus destinos de desejo. O movimento que surge é de manter o isolamento, mas buscá-lo em um novo cenário, ou uma nova paisagem, para aliviar os sintomas não menos graves da Covid-19 – a solidão, a depressão, a ansiedade e a tristeza.

O mercado de luxo resolveu isso mais rapidamente. Os hotéis desse segmento naturalmente ofereciam produtos mais exclusivos que, antes mesmo da pandemia, já propiciavam o distanciamento e o acesso a facilidades que garantiram sua taxa de ocupação. Alguns até cresceram ao beneficiarem-se da redução das viagens internacionais.

Mas, o perfil desse novo movimento é outro. É, principalmente, das pessoas que têm o privilégio de poder trabalhar em casa e de outras que não foram impactadas em seus empregos e salários, mantendo uma rotina de férias. As estadas para eles são mais longas e as demandas estão muito associadas às rotinas de trabalho e familiares.

Não é um perfil negacionista da pandemia ou que esteja afrontando a dor alheia e as leis, mas pessoas que buscam aliviar seu desconforto e ter um pouco mais de saúde, sem trazer desconforto para ninguém. É ficar em casa em outro endereço.

A modalidade de turismo que atende a esse público ainda não tem nome, mas é crescente, haja vista o crescimento do aluguel de carros, como detalha a matéria da capa desta edição do Brasilturis Jornal, ou mesmo a transformação rápida promovida pelas plataformas de aluguel de casas que identificaram essa tendência bem no início.

Diante desse novo cenário, todas as cidades potencializam suas possibilidades. Quanto mais pulverizada seja essa demanda, menor é o impacto do deslocamento e na rotina da cidade. Não se trata de todo mundo ir ao litoral, mas de pequenos grupos acessarem uma infinidade de destinos novos. E isso movimenta não somente os hotéis, mas uma série de serviços locais que podem beneficiar-se de um turista mais consciente.

Mas, para isso, é preciso que haja produtos e ofertas voltadas a esse perfil. O que atrai agora é o acesso a internet de qualidade, um local com decoração agradável, mobiliário confortável para longos períodos dentro das propriedades, muitos pontos de energia para os tantos gadgets da bagagem. Um menu robusto de serviços de delivery ou take away que inclua supermercados, farmácias, restaurantes, mas também produtos e especialidades locais. Acesso à lavanderia rápida, espaços de atividades físicas individuais, entre outras coisas.

Enfim, é colocar a cabeça para pensar e parar de dar murro em ponta de faca tentando vender os velhos produtos. Essa transformação à qual estamos sendo obrigados cria novos hábitos também à força. Alguns deles estão muito mais alinhados ao desenvolvimento sustentável. Abrir fronteiras, na contramão do overtourism, não é ruim. Desenvolver novos produtos, tampouco. Oferecer a possibilidade de conhecer novos destinos e experiências localmente já era uma demanda que ficava em segundo plano pela rentabilidade dos destinos mainstream.

Está doendo. Mas a cura para as dores atuais oferece uma nova visão para o Turismo. Mais sustentável. Sustentabilidade é sobre as pessoas e o planeta. Quando os negócios apropriam-se desse conceito, um novo mundo de inovação e sucesso apresenta-se. É um movimento sem volta.  Chegar ao simples não é fácil, mas é possível. Boa jornada! 

Imagem de JoaoBOliver por Pixabay

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