Santos Dumont era millennial?

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Por Ricardo Hida

Há pouco mais de dez anos a Folha de S.Paulo, em sua revista semanal, publicou uma matéria que explicava o porquê de os turistas brasileiros optarem, durante viagens internacionais, pelas companhias aéreas estrangeiras em detrimento das nacionais. Mesmo se as tarifas eram as mesmas e se havia a vantagem de se falar português a bordo, os voos com as companhias europeias, por exemplo, eram bem mais procurados.

Uma das entrevistadas dizia que o voo para Paris com a Air France estendia em algumas horas a estada na cidade. Segundo ela, em tom bem humorado,  o bom dia dos comissários- bonjour- já mostrava que ela estava fora de seu cotidiano. Fala-se muito sobre experiência como algo novo e fundamental no turismo. Fundamental sim; mas, em absoluto, novo.

Lembro-me da minha primeira viagem para a Europa, em 1988. Por mais que eu já estudasse em uma escola francesa em São Paulo, pisar no Velho Continente fora um choque. A arquitetura, a gastronomia, os hábitos, o modo de vestir, os carros. Quem viaja hoje para Lisboa ou Paris não deixa de se impressionar pela beleza das cidades, mas certamente terá um choque menor do que se tinha há 30 anos.

A facilidade de se viajar e a internet realmente globalizaram o mundo. E não é à toa que os lugares mais longínquos do globo – ou aqueles mais recônditos no Brasil – são preferidos pelos viajantes atuais. É preciso vivenciar coisas novas, conhecer o que não é óbvio, buscar ter a mesma experiência que os europeus tiveram ao chegar às Américas, se é que é possível.

Daí a necessidade, no caso de viagens de lazer, de buscar hotéis autênticos, que preservem não só a paisagem local, mas a história, os costumes e o design de um povoado. Não que os hotéis de grandes redes não sejam fundamentais ao turismo. Eles garantem a segurança e a eficiência aos viajantes de negócios e aos de turismo em lugares mais exóticos. Muitas vezes, mesmo eles buscam também trazer experiências nativas aos seus hóspedes.

Autenticidade faz parte da experiência do luxo e é parte do espírito do turismo. Ninguém é turista em um lugar que lhe é familiar. Mas se destinos e hotéis buscam hoje valorizar a personalidade e os valores particulares dos quais são constituídos, as companhias aéreas tornaram-se praticamente commodities. São, em sua imensa maioria, meio de transporte. No sentido mais literal e chato da expressão.

Uma companhia, no entanto, que tem se destacado sob o meu ponto de vista é a Gol. A aérea vem procurando, por meio de sua comunicação – e, sobretudo, de seus serviços – destacar-se de seus pares. Ponto para German Carmona, profissional que fora responsável por algumas das ações mais bacanas da aviação quando estava no marketing da Air France, e tem buscado agora, com sua atual equipe, encontrar uma linguagem muito própria e pioneira para mostrar que a Gol, além de brasileira, é descolada, divertida, cheia de bossa e borogodó.

A Gol fala com todo mundo, mas principalmente com millennials. Fico sempre curioso sobre qual é o tipo de serviço que o millennial espera.  Tecnologia sempre, assim como  design, funcionalidade, informalidade e segurança. Há duas características, no entanto, que precisam ser bem alinhadas. Millennials, mais do que qualquer outro público, quer ter experiências exclusivas e impactantes. Trata-se de um público que adora o universo mágico dos heróis da Marvel, Game of Thrones, Star Trek e Star Wars. Isso é um desejo de querer viver, de fato, experiências muito além do banal. Millennials também buscam um sentido maior e espiritual (não religioso) em suas atividades e nas marcas com as quais se relacionam. Isso exige política clara de sustentabilidade e responsabilidade social.

É preciso lembrar que millenials pensam em uma economia compartilhada. Em que a apropriação de uma ideia, de forma ética, pode criar um conceito ou ou uma experiência de alto valor agregado quando combinada a outra ideia. É preciso, portanto, que o turismo e, principalmente, a aviação, façam uma revolução dos serviços, antes mesmo de mudar sua comunicação.

E não estamos falando de evolução, tampouco de reinvenção ou de releitura. Trata-se de pensar como nunca antes se pensou. Como fez Santos Dumont, que tinha cabeça de millennial, há mais de um século.

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