Sazonalidade: A revolução silenciosa

É claro que a pandemia vai ser vencida e a vacina trará boas novas para o Turismo. Mas, antes disso, será preciso lidar com incertezas e um novo calendário de festas

Sazonalidade
Foto: reprodução

No meu entender, viajar na baixa estação sempre pareceu muito mais inteligente. Maio e outubro são meses excelentes para chegar aos destinos do Hemisfério Norte. Nada de filas, temperaturas amenas, preços dentro da realidade.

O aumento na proporção de casais sem filhos e, portanto, independentes de férias escolares; a disposição da terceira idade para bater perna e até o crescimento de escolas internacionais no Brasil, com anos letivos diferentes, vêm mudando os hábitos de viagens dos brasileiros, ano após ano. Isso inclui, principalmente, as datas de embarques.

Os números ainda são pouco expressivos, mas insisto, estão em ascensão. Até 2019, julho e janeiro lideravam a preferência dos turistas brasileiros, mas com decréscimo porcentual sistemático e consecutivo de viajantes.  Até que veio a pandemia e  bagunçou completamente todo o calendário da indústria de viagens.

O que se viu foi uma alteração significativa nas reservas de hotéis, principalmente aqueles próximos de centros urbanos. Campos do Jordão (SP), que sobrevivia com os meses de junho, julho e agosto, registrou um verão badalado sem fondue nem raclete, mas com equipamentos de hospedagens e restaurantes cheios em pleno dezembro.

A cidade viu surgir novos empreendimentos de alto padrão – como o Secreto Luxury Boutique Hotel – fato que também foi observado em outras cidades do País. Plataformas de locação de imóveis de temporada registraram aumento no número de transações comerciais durante todo o segundo semestre. Não só durante os finais de semana, mas também em “dias e horários comerciais”.  

É claro que a pandemia vai ser vencida e a vacina trará boas novas para o Turismo. Mas, antes disso, será preciso lidar com incertezas e um novo calendário de festas. Ninguém sabe, por exemplo, quando e se o carnaval vai acontecer. 

O tal do “novo normal” caiu no lugar comum, mas aparentemente – e os números de contaminados mostram – muitos ainda não notaram. É essencial perceber que esses novos hábitos adquiridos chegaram para ficar. Hotéis corporativos terão de refletir sobre o quanto plataformas de videoconferência vão impactar seus negócios e deverão encontrar receitas alternativas. 

O ensino a distância (EAD) também se mostra uma vantagem para a indústria de viagens. Quem disse que não é possível assistir a uma aula de história direto do Museu do Louvre? Tivemos, neste ano que passou, todas as oportunidades para errar, acertar e analisar a eficácia e eficiência do home office, prática que também pode promover mudanças nas viagens.

Ilhas do Caribe e hotéis isolados criaram tarifas para hóspedes interessados em trabalhar remotamente, em um lugar repleto de mordomias, sem precisar ficar confinado em casa.  Fazer uma reunião à beira-mar não é mais visto como problema, uma vez que o resultado esperado de um projeto seja entregue na data certa e de forma impecável.   

Sociólogos alertam que diminuição de católicos no País e o fortalecimento de movimentos sociais poderão alterar o calendário de feriados – e, consequentemente, a agenda de viagens de lazer – no Brasil.  Para protestantes, uma série de feriados não faz sentido, enquanto outras religiões pedem a criação de feriados dedicados às suas crenças.

O Distrito Federal, por exemplo, parou no dia nacional do evangélico, para alegria dos hotéis do Centro-Oeste. A parada LGBTQIA+ e o dia da Consciência Negra são exemplos da pressão de movimentos sociais.  Há quem possa pensar, erroneamente, que se propõe no texto que brasileiros trabalhem menos e que mais feriados ocasionam prejuízos econômicos.

É preciso lembrar que o brasileiro é um dos povos que mais trabalha no planeta, embora isso não represente uma grande produtividade. Da mesma maneira,  feriados representam oportunidades financeiras para o setor de serviços, que não para de crescer. Faz-se urgente um exercício de reflexão.

Dependendo do nicho de mercado em que sua empresa atua, quanto que a sazonalidade vem se alterando? Como aprendizado caro que foi o ano de 2020, será possível aos destinos criar eventos para públicos específicos que tragam mais viajantes nas épocas de baixa estação? A estratégia para 2021 é realizar o carnaval no inverno. Em um cenário pós-pandemia, seria possível criar outro carnaval fora de época, dependendo do resultado da experiência?

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