Secretarias de turismo: ter ou não ter?

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Por Ricardo Hida*

Não há nenhuma novidade. A cada início de gestão pública – federal, estadual, municipal – ou troca de ministério, a história se repete: extinção ou redução de verbas na pasta de turismo, nomeação de pessoas sem nenhum preparo técnico para coordenar políticas públicas, confusão ao se articular com os players do mercado e a eterna reinvenção da roda. Mudança de slogan, identidade visual, sumiço de materiais e planos da gestão passada e nenhum resultado econômico relevante para a indústria do turismo no Brasil.

Neste início de ano, muitos prefeitos recém-empossados acabaram com secretarias de turismo – caso do Rio e de Porto Alegre, entre outros. Nos veículos de imprensa e nas redes sociais uma enxurrada de críticas e lamentos, como se o sétimo selo do Apocalipse tivesse sido rompido e o Armagedon estivesse próximo.

Refletindo racionalmente, há muitos municípios sem vocação turística e que tentam empurrar a visita a um prédio degradado, uma praia poluída ou um evento religioso com cem pessoas como atrações para atrair milhares de visitantes. Será que precisam de um secretário dedicado ao assunto? Já muitas capitais mais bem organizadas sediam as secretarias estaduais e municipais de turismo, autarquias, conselhos e convention bureaux – estes bem mais atuantes e eficazes. Muita gente, muitas ideias, muitos empregos, pouco diálogo e eficiência quase zero.

No âmbito federal, o mesmo acontece. Nos últimos 25 anos, tivemos alguns nomes memoráveis à frente do Ministério do Turismo e da Embratur: gente que pensou estrategicamente na indústria, dialogando com o trade, defendendo mudanças de leis e investindo em campanhas e eventos domésticos e internacionais. Houve outros ministros que sequer lembramos os nomes ou que, quando o fazemos, é em tom de chacota.

Nos maiores eventos de turismo do país – como a WTM Latin America e Abav Expo -, não são raras as vezes que, visitando espaços das secretarias estaduais ou municipais, encontramos gente despreparada para uma entrevista, uma conversa ou um projeto. Que está mais interessada nas compras que farão quando o evento terminar do que em atender aos profissionais do turismo interessados em suas cidades e estados. Quando muito, com um sorriso mecânico, empurram brochuras antigas de produtos questionáveis, uma bala, um amendoim e um boné para parecerem simpáticos, se verem livres dos visitantes e voltarem para seus smartphones.

Trabalhei muito em conjunto com secretarias no Brasil e no exterior. Gerenciando e representando hotéis, como consultor e assessor de convention bureau e como diretor adjunto de escritório de turismo vi que o apoio de um secretário pode ajudar ou atrapalhar muito.

Acredito que o poder público possa e deva colaborar com a indústria turística. O setor emprega muita gente, direta e indiretamente, promove a imagem de produtos regionais nacional ou internacionalmente, e traz maior arrecadação, embora parte dos munícipes reclame (e vote). É só ver a política antiturística da prefeita de Barcelona, pós-pressão eleitoreira. Mas aí, o buraco é bem mais embaixo.

Uma secretaria de turismo deve ouvir o mercado, propor mudanças de leis, pressionar o prefeito ou governador para investir em segurança e infraestrutura, fornecer dados estatísticos, auxiliar na captação de eventos nacionais e internacionais. O órgão tem de criar transversalmente eventos com secretarias de cultura e esporte, dar incentivos fiscais para criação de polos de entretenimento e orquestrar a promoção deste destino, em conjunto com todos os empresários interessados em movimentar uma cidade e gerar negócios.

O secretário, muitas vezes colocado na cadeira por negociação política, se restringe a criar um plano-diretor (feito pelo amigo do amigo do prefeito, que nunca será lido, debatido e implementado), viajar com dinheiro público para “promover o destino” em algum evento nacional ou internacional e receber, vez ou outra, um empresário regional.

Se o órgão existir para agir como descrito, ele não fará falta nenhuma. O mercado e os contribuintes agradecem sua extinção. Já que não se terá mais gente para criar entraves e haverá economia do dinheiro público.

ricardo-hida

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e foi diretor da ABRAT-GLS entre 2007 e 2009.

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