Será que agora vai?

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Por Ricardo Hida*

Recentemente a Embratur anunciou mudanças em sua estrutura e objetivos.  Segundo comunicado oficial, a meta da nova Embratur é chegar a 12 milhões de turistas internacionais e arrecadar US$ 19 bilhões até 2022. Ela terá maior aporte de recursos – incluindo da iniciativa privada -, menos burocracia, gestão moderna e presença fortalecida no exterior. De fato, o atual ministro do turismo tem-se mostrado empenhado em deixar sua marca e promover mudanças no segmento e o caminho adotado para Embratur se mostra coerente e consistente, exceto nas metas.

A reestruturação é desejada e estudada há muito tempo. Vinícius Lages, quando ministro do turismo, foi um dos grandes entusiastas da mudança e se mostrou muito interessado no modelo adotado pela França. A antiga Maison de la France – que serviu de exemplo para criação da Embratur – se transformou, em 2009, na atual Atout France – Agência de Desenvolvimento Turístico da França, que serviu também de inspiração para o novo modelo de sua par brasileira. A transição, no entanto, foi gradual e muito bem articulada. Internamente foi necessário exaustivo trabalho e um árduo exercício de convencimento das equipes na França e no exterior e dos players do turismo francês.

Houve mudanças de ministros e de ministérios. A Atout France saiu da tutela do  Ministério da Economia e foi parar como braço do Ministério de Relações Exteriores. Mas toda a direção da agência se manteve intocada, já que era – e continua sendo – um corpo técnico altamente qualificado. Nesses últimos anos, a agência francesa nunca foi vista como um espaço político, mas como uma engrenagem que deveria funcionar independentemente da ideologia política.

Mas o sucesso da França como destino turístico não é apenas mérito da antiga Maison e atual Atout France. E por esta razão, fiquei surpreso com a meta arrojada de 12 milhões de turistas internacionais até 2022, com receita de 19 bilhões de dólares que a Embratur se colocou. O sucesso do turismo brasileiro não depende apenas de uma excelente estratégia e promoção pensada, orquestrada e implementada pela Embratur. Ele depende de várias outras vontades, saberes e competências.

Todo conhecedor de marketing de destinos sabe que um turista, ao escolher para onde irá viajar, leva em conta sete fatores: imagem que o destino passa para o mundo, segurança, acessibilidade, infra-estrutura, qualidade do serviço, preços e atrações. Aí é que começa a dor de cabeça. A imagem que a Embratur vai passar precisa ser confirmada por todos os demais formadores de opinião, digitais ou não, do planeta. Jornalistas, blogueiros e agentes de viagens precisam ser convencidos que o Brasil é um país que todo terráqueo precisa visitar antes de morrer. E todo turista que voltar pra casa tem de ter a mesma percepção.

A segurança – pública e sanitária – é outro eixo fundamental para o sucesso do destino. Não basta ter delegacia para turista, é preciso coibir, de todas as maneiras, violência contra o nativo e contra o visitante. E não só a violência praticada por outro ser humano, mas também por mosquitos, bactérias e vírus. Algo que o ministério do turismo ou sua agência técnica não podem assegurar. Aqui ou em nenhum lugar do mundo.

Acessibilidade é outro fator importante, mas tem sido administrado quando falamos nas cidades mais importantes para o turismo brasileiro. E uma boa articulação da Embratur pode garantir negociações eficientes para melhoria da malha aérea. Ficando sempre a pendenga do visto, mal visto pelo Itamaraty.

Infra-estrutura é um pesadelo. Não precisa dizer o sufoco que turista passa no verão em balneário, no Sul, Sudeste e Nordeste. Vou até passar rapidamente para o próximo parágrafo.

A qualidade de serviço é outro ponto que independe da Embratur. Trata-se de um ativo cuja gestão depende essencialmente dos empresários. Da companhia aérea ao restaurante. Passando obviamente pelo taxista e pelo hotel. Não preciso lembrar do horror que todos vimos nesta última semana em um voo da United Airlines. Neste quesito, no Brasil esbanja-se sorriso e simpatia (exceto nos aeroportos) e falta técnica.

Os preços deixam turistas assustados. Principalmente os asiáticos. E mesmo com vantagem cambial para os norte-americanos, os “brothers” ficam surpresos como conseguimos viver em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Cansei de ouvir, na Europa e nos EUA, que é mais barato ir para Seychelles e Maldivas que para o Brasil.

Falando de atrações, temos alguns eventos de repercussão internacional, mas em temos de patrimônio cultural e histórico, a divulgação deixa a desejar. Nisso, um trabalho coordenado com o Ministério da Cultura é essencial.

Tudo isso sem mencionar que os outros países – destinos concorrentes – também vão disputar a tapas os turistas nos cinco continentes.

Este texto pode parecer desmotivador ou pessimista. Muito pelo contrário. Ele aponta onde podemos melhorar para alcançar os objetivos divulgados pela Embratur. Justifica também a existência de inúmeros profissionais que são pagos para resolver questões tão complexas para transformar o Brasil em um grande destino turístico. O artigo quer apenas puxar para a realidade expectativas quixotescas. Essas, sim, especialidade do turismo no Brasil.

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: [email protected] 

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