Seriam os números mentirosos?

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Por Mariana Aldrigui

A fim de poupar o seu tempo na leitura deste artigo, a resposta simples e direta é: sim. Os números do turismo brasileiro não são confiáveis, por definição. Melhor dizendo, os números do turismo – não apenas brasileiro – não são confiáveis. Entretanto, há países em que a metodologia para apresentar os resultados desta atividade é mais rigorosa e, portanto, oferecem um panorama mais próximo da realidade.

Recentemente, um artigo publicado pela Skift fez uma comparação em relação às diversas publicações que comemoravam o número de chineses visitando a Europa. Em análises mais detalhadas, cruzaram dados de emissão de turistas pela própria China, desembarques em alguns países europeus como Itália e França, e relatórios de resultados apresentados. Os números não apenas não coincidem, como há casos de diferenças acima de 100%.

Não esquecerei jamais o episódio em que a Embratur fez uma festa junto à argentina Nadia Panis, que desembarcou no Aeroporto do Galeão, em 05 de dezembro de 2013, e recebeu das mãos de Flávio Dino o certificado de turista de número 6 milhões. Aí, meses depois, quando a própria Embratur divulga seu anuário estatístico, o número de turistas estrangeiros contabilizados oficialmente foi de 5.813.342 visitantes. Feliz da Nadia que comeu brigadeiro e se divertiu no desembarque.

Esqueceram de combinar internamente como seriam feitos os cálculos e qual seria a forma de relatar os dados? Ou o pessoal do marketing não conversa com o pessoal da estatística? Mais que isso: se você gosta de pesquisar os artigos mais antigos em que diferentes autoridades verbalizam as projeções baseadas em “pesquisas”, o Brasil já estaria na casa de 15 milhões de turistas internacionais e quase 10 vezes esse número em termos de turistas domésticos.

Outro exemplo, mais recente, foi a manchete disseminada no mês de janeiro, alardeando que “o Carnaval 2018 deve injetar R$ 11 bilhões na economia, segundo o Ministério do Turismo”. A previsão é de cerca de 400 mil estrangeiros e mais de 10 milhões de brasileiros viajando. Até aí, ok, deve ser verdade, afinal a gente percebe este movimento.

Agora – injetar dinheiro na economia? Vamos entender. Houve aumento de salários? Não. Houve queda de preços em serviços? Não. Houve algum programa de resgate de recursos (como FGTS, por exemplo) no mês anterior? Não. Ao contrário, o Carnaval acontece na segunda semana de fevereiro, quando ainda não deu tempo de respirar com o segundo salário do ano, após a avalanche de contas e parcelas de janeiro.

O Carnaval, especialmente com essa projeção de apenas 3% dos visitantes vindos de outros países, vai fazer o dinheiro do brasileiro circular em diferentes economias, mas para entrar na conta de um município onde haja festa, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Olinda, Salvador ou qualquer outro, ele deixa de ser gasto na sua economia local de origem, ou seja, alguém sai perdendo.

E isso não quer dizer que esta “perda” seja negativa. Não é, necessariamente. Especialmente quando há saída e entrada de visitantes – o morador do Rio de Janeiro viaja para o litoral, e o visitante de Minas Gerais vem aproveitar os blocos cariocas. O dinheiro circula, mas não há injeção efetiva nenhuma, especialmente quando o foco é nacional – lembrando que a nota saiu do Ministério do Turismo e não de uma secretaria estadual.

O mesmo raciocínio vale para o caso da promoção de eventos diferentes – se não há aumento na renda da população, o que há é alteração de gastos, de prioridades. O dinheiro circulando é o mesmo, o tempo todo.

Estão fazendo pesquisa errado? Ou será que “são de humanas” e os números são apenas um detalhe? Ou, mais ainda, é o abuso da falta de interesse da população (e, especialmente, da imprensa), partindo do pressuposto que ninguém vai se preocupar com isso, já que tem tanto assunto mais importante?

Há um problema de origem, sem dúvida. A formação na área não contempla as análises estatísticas e as projeções econômicas em profundidade. O aluno típico é avesso a números e muitos dos professores também o são, razão pela qual sobram pesquisas qualitativas, mas ainda são raras as densas pesquisas quantitativas capazes de apontar as oportunidades corretas.

Mais que isso, a insistência em privilegiar apenas indicações políticas para ocupar os cargos que estão envolvidos na estruturação da atividade turística, na elaboração de documentos norteadores e na captação de investimento acaba resultando nessa coleção de bobagens que a gente ouve e lê o tempo todo.

Se a nossa mania, muitas vezes saudável, de copiar modelos de sucesso fosse aplicada direitinho, já teríamos, há muito tempo, sistemas mais robustos para usar os dados de outros setores da economia para nos orientar melhor e, com isso, evitar o imenso desperdício de dinheiro público na promoção do turismo.

Enquanto isso não acontece, acredite – tem muita gente dando entrevista com dados que foram coletados lambendo o dedo e expondo-o ao vento.

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