Socialite do turismo

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Foto: Divulgação

Por Ricardo Hida

Nesta semana morreu Carmen Mayrink Veiga, aos 88 anos, no Rio de Janeiro, cidade que adotou quando jovem, movimentou socialmente e  tão bem representou no jet set internacional. Os nascidos após 1980 talvez nem saibam que foi essa paulista que, juntamente com Silvia Amélia de Waldner, mostrou que a mulher brasileira era deslumbrante e chique, muito antes dos fenômenos Dalma Callado, Shirley Mallman e Giselle Bundchen.

Durante os últimos dias, os mais consagrados jornalistas brasileiros escreveram textos emocionantes sobre ela, por conta de seu falecimento – a maioria falou de sua importância para a moda. Carmen foi a maior cliente latino-americana das grandes maisons francesas. Ela possuía mais de 400 vestidos de gala, com preços que variam entre US$ 50 mil e US$ 200 mil. Era a musa de Valentino, Saint Laurent, Azzaro e Cardin. Sem deixar de mencionar sua amizade com Portinari, Andy Warhol, Truman Capote e tantas outras figuras que marcaram o século 20.

No entanto, chamo a atenção pelo papel de Carmen Mayrink Veiga para o turismo francês. Pouquíssimas pessoas promoveram Paris tão bem quanto ela em nosso País. Fosse nas entrevistas, na coluna semanal que mantinha em um jornal de grande circulação nacional ou em seu livro, ela sempre falava da capital francesa, onde mantinha um apartamento no Trocadéro, com intimidade, domínio e muito carinho.

Dava dicas de restaurantes, lojas e até de serviços triviais, como sapateiros e floristas. O mesmo fazia, em menor frequência e efusão, com Londres e Nova York. O mítico Joseph Halfin, primeiro CEO da Air France no Brasil,  agitador cultural e social no país, criador do prêmio Molière, nunca deixava de lembrar que a socialite era uma das maiores passageiras do Concorde quando o supersônico voava entre Paris e Rio de Janeiro. E por ele era paparicada como cliente vipérrima. Um detalhe, Carmen abusava dos superlativos, inclusive para falar de suas viagens.

Se Madame Mayrink Veiga era uma embaixatriz informal dos destinos sofisticados no Brasil, não deixava de promover também o Rio de Janeiro junto às celebridades internacionais, com quem convivia intimamente. O Copacabana Palace, quando ainda era propriedade da família Guinle, era um dos seus points favoritos e era onde seus convidados se hospedavam. Fazia questão de servir nos  jantares suntuosos em seu apartamento no Flamengo comida brasileira, não por ser exótica, mas por ser autêntica.

Era uma influenciadora de peso, antes do surgimento das redes sociais. E não era paga para isso. Uma época em que viajar tinha muito mais charme que estresse. Em que a Varig era uma das melhores companhias do mundo, que o Le Meridien fazia um dos mais belos espetáculos de fogos no Réveillon e que a avenida São Luís em São Paulo era o sonho de qualquer globetrotter.

Como qualquer mulher rica nascida antes de 1940, possuía idiossincrasias que hoje não seriam mais apreciadas, sequer toleradas. Talvez seria alvo de muitas críticas e virulentos ataques. Mas muito possivelmente não perderia a compostura, o sorriso fácil e bom humor.

Carmen Mayrink Veiga faz parte de um Brasil que não existe mais. Sem mencionar o lado obscuro desse País que ficou para trás, era também uma nação otimista, divertida, autêntica e orgulhosa de si própria. Nosso povo, a começar pelo trade turístico, precisa recuperar a autoconfiança, o bom humor e a esperança. O Brasil precisa voltar a ser deslumbrante. Deslumbrantérrimo.

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor-adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e é diretor da ABTLGBT. Ele escreve no Brasilturis às quartas-feiras. Contato: ricardo@promonde.com.br

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