Sorria, o seu mundo também está mudando

Já é janeiro de 2018 e muitos de nós ainda se lembra do que era viver tentando antecipar os anos 2000 e toda a modernidade que viria com ele. Minha mãe tinha certeza que estaríamos muito perto do padrão de vida dos Jetsons, cada um com sua navezinha e seus muitos computadores.

O tipo de vida não mudou muito, mas temos em nossas mãos um computador cuja capacidade de processamento e realizações é muito maior do que tudo o que se antecipava lá nos anos 1970 e 1980. Nem os mais experientes estudiosos de tendências foram capazes de antever o efeito da internet na vida em sociedade.

Outro fenômeno que poucos pesquisadores foram capazes de antecipar foi o retrocesso em termos de ideias e comportamentos. Como sempre foram líderes, os Estados Unidos nos mostraram com todos os detalhes o que é ter uma eleição manipulada por robôs eletrônicos e o compartilhamento excessivo de dados falsos, a ponto de uma figura inclassificável com Donald Trump ocupar o posto de presidente, envergonhando até os que antes não se importavam com política.

Vimos de tudo acontecer no ano passado, e na maioria das vezes, pouco pudemos fazer a não ser tentar fechar a boca depois do susto com as notícias. Talvez porque elas estavam nos noticiários da TV, rádio, jornais ou mesmo (e principalmente) no celular, nos pareceu que não era tão real.

Percebemos que houve um esforço maior de investigação e ainda mais escândalos envolvendo cifras incompreensíveis para os assalariados, além de políticos que só conseguem repetir as mesmas frases, alegando não saberem de nada. Esperamos por mais prisões do que as que efetivamente aconteceram, mas vamos transferir a esperança para 2018.

E, mais que isso, por conta da memória da internet, podemos torcer para que os mesmos políticos – que vão mentir mais ainda para conseguir a reeleição ou o retorno a algum posto de foro privilegiado – sejam punidos com a ausência de votos nas urnas. (Sei, parece ingênuo, mas precisamos fazer isso acontecer).

Assistimos, sem entender direito os detalhes, o governo comprando a peso de ouro votos de parlamentares que atuaram para proteger a si mesmos e a seu grupo, destruindo não apenas direitos, mas eliminando as perspectivas de vida digna a um significativo grupo da sociedade, que agora terá de trabalhar muito mais para ganhar muito menos.

Como estamos acostumados a olhar só para o que nos afeta, ainda é cedo para perceber que as mudanças colocadas em prática em 2017 podem ter efeitos terríveis sobre a atividade turística – seja do ponto de vista prático, com pessoas sem renda extra para viagens e lazer, como também do ponto de vista sociocultural – os recorrentes cortes de verba para educação, cultura e esportes diminuem a circulação de pessoas no País, afeta a instrução geral da sociedade e nos deixa reféns de grandes grupos de mídia, por exemplo. Entre as consequências ruins: aumenta a pobreza, aumenta a violência, e a imagem do País seguirá sendo de um destino exótico, porém muito perigoso.

Mas, olhe de novo para o celular à sua mão (mesa, bolsa, mochila). É graças a ele que alguns grupos estão conseguindo se reunir, se mobilizar e fazer com que mais e mais pessoas entendam a necessidade de lutar por uma causa (ou por várias).

Segundo dados divulgados pelo Facebook em dezembro de 2017, o assunto mais comentado na rede, em todo o mundo, foi o Dia Internacional da Mulher – e o Brasil foi o segundo país com mais comentários, postagens, fotos e compartilhamentos, atrás apenas dos Estados Unidos.

O relatório indica ainda que, no ano de 2017, foram registrados pouco mais que o dobro de postagens na comparação com 2016. Se mantivermos este ritmo, 2018 será ainda mais importante para a disseminação de mensagens que estimulem o debate sobre a igualdade de gêneros, equidade salarial e, principalmente, o combate a todo o tipo de assédio.

Também foi muito comentado o casamento de Daniela Mercury, em pleno carnaval de Salvador, comemorado com muita alegria em uma terra em que a diversidade impera. Ainda assim, a rede registrou um aumento significativo de postagens homofóbicas, transfóbicas e racistas, em muito atribuído às bolhas que acabam se criando quando se fala apenas entre iguais.

Seguimos sendo o país que mais mata pessoas por conta de sua preferência sexual, e as estatísticas apontam que ocorre uma morte por homofobia a cada 25 horas.  Não custa lembrar que um setor com grande parte de sua mão de obra composta por gays, lésbicas e trans não pode dar espaço a manifestações preconceituosas e, muito menos, apoiar pessoas que o fazem.

E, graças a uma grande mudança na forma como os jovens encaram a vida e as oportunidades, menos gente se interessa em acumular bens e posses. Com isso, as viagens realizadas por pessoas entre 18 e 25 anos cresceram 14%, muitas delas incluindo atividades voluntárias dedicadas a ajudar comunidades em todo o planeta. Aprendem mais sobre o mundo e a riqueza do respeito às diferenças, compartilhando bons momentos e construindo histórias.

Estamos todos mudando, sempre. Cabe-nos agora escolher com sensibilidade nossas fontes de informação. E eu sigo torcendo para que sejam sempre aquelas que representem toda a diversidade de nosso País – colorido, alegre, esperançoso e capaz.

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