Ternos não combinam com turismo

Uma provável explicação ao uso intensivo dos ternos no turismo brasileiro é a sua histórica dependência de governos

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Uma questão intrigante do turismo brasileiro é a razão do uso de ternos por líderes ou empresários em todos os eventos que ocorrem no setor. Repare: basta aparecer uma feira ou congresso, uma destas premiações que acontecem às pencas, ou alguma comemoração, e lá vão eles, solenemente trajando ternos e gravatas.

Esta questão seria menor, não fosse a dissintonia em relação à própria essência do turismo. Afinal, esta é uma indústria que, apesar de séria, privilegia o lazer e o casual. Portanto, simboliza a antítese do formalismo de trajes praticado por seus representantes.

O traje vem gradativamente perdendo relevância no universo dos negócios. Até a sisuda IBM, que no passado tinha funcionários reconhecidos à distância pelos ternos azul marinho, camisa branca e gravata listrada, aboliu este modelo de vestimenta. Hoje, a exemplo de todo setor de tecnologia, predomina o informal.

Assim como as roupas costumam refletir o estado de espírito dos usuários, elas também têm capacidade de influenciar comportamentos. Tornam-se, assim, uma espécie de embalagem de um produto chamado “gente”. Em termos de percepção, a aparência fala mais sobre uma pessoa do que o que ela diz ou como age.

Em um ambiente tropical como o Brasil, ninguém pode se sentir plenamente confortável com o pescoço espremido por uma gravata e superaquecido por um paletó. Na prática, estes apetrechos podem contribuir para ampliar a rigidez e funcionar como freio à criatividade ou inovação.

Uma provável explicação ao uso intensivo dos ternos no turismo brasileiro é a sua histórica dependência de governos. Até pouco tempo, a presença de autoridades em eventos no passado causava frenesi. Obrigava participantes a seguir protocolos e liturgias que hoje perderam a razão de ser.

Mesmo com todo o descompasso do Brasil em relação ao mundo, o nosso turismo evoluiu. E isto aconteceu quase sempre pelas mãos da iniciativa privada. Neste processo, os governos deixaram de ser protagonistas para se tornar figurantes. Por isto, não faz sentido manter cerimoniais ou prestigiar autoridades que só fazem discursos e cortam fitas. Isto demonstra subserviência a um poder que hoje apenas mantém a pompa, sem a majestade de outrora.

O turismo brasileiro, debaixo da orientação estatal, vive grave paralisia. Os resultados não mentem. Estancou em torno de seis milhões de estrangeiros por ano. É bem menos que o museu do Louvre recebeu no ano passado – 10,2 milhões de visitantes, dos quais 7,6 milhões internacionais.

Associar-se automaticamente às ações do governo pode ser mau negócio. Um exemplo atual é o Plano Nacional de Turismo. Propõe dobrar o número de turistas em quatro anos, mas retira do texto o incentivo ao turismo LGBT. Ou seja, desprestigia um público estimado em 10% dos viajantes do mundo. Além do preconceito inaceitável, está desalinhado à tendência mundial.

O empresariado precisa se libertar das garras governamentais. Tem maioridade e capacidade para tal. E este esforço começa por abandonar cacoetes comportamentais adquiridos pelo tempo, dos quais o terno é emblemático.

Chegou a hora de ter menos discursos e assumir o barco – que anda à deriva. Quem duvidar da inoperância governamental deve contabilizar quantos ministros, secretários estaduais e municipais que o País já teve nos últimos anos. Enfim, é o momento de despir ternos – junto com o imobilismo e resignação que eles representam – e ir à luta, em busca de novos tempos para o turismo brasileiro.

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