Toni Sando: “É momento de compartilhar”

Em entrevista ao Brasilturis Jornal, executivo revela suas perspectivas em relação ao futuro dos eventos e detalha ações e posturas para o enfrentamento da pandemia

Toni Sando
Toni Sando (Unedestinos)

Toni Sando não para. O presidente executivo do Visite São Paulo está envolvido em diversos grupos de trabalho que visam ao desenvolvimento do turismo paulista, tem reuniões semanais com a equipe, supervisiona o alinhamento das demandas de associados e participa ativamente da articulação com representantes de diversos setores nas esferas pública e privada. Ele ainda encontra tempo para atuar como presidente da União Nacional de Convention & Visitors Bureaux e Entidades de Destinos (Unedestinos) e para coordenar as ações nacionais na vice-presidência que ocupa dentro da Associação de CVB na América Latina e Caribe.

Em entrevista ao Brasilturis Jornal, o executivo detalha as ações realizadas durante a fase mais crítica da pandemia, destaca a importância da união para a resolução de gargalos estruturais e legais na atividade turística brasileira, adianta suas expectativas em relação à retomada de eventos presenciais e fala sobre os próximos passos da campanha de retomada do Turismo paulista. Confira!

Brasilturis Jornal – Como o Visite São Paulo vem atuando para apoiar os associados na estruturação de ações para a reconstrução da atividade?

Toni Sando – Não está sendo fácil dada a dificuldade tremenda de sobrevivência que o novo coronavírus trouxe ao setor. Estávamos na coordenação de uma campanha, desde meados do ano passado, junto à Associação Brasileira de Empresas Aéreas e Secretaria de Turismo de São Paulo para aumentar número de voos no estado. A pandemia suspendeu essas ações e nós decidimos trabalhar em uma segunda leitura do Plano São Paulo, focada em desenvolver e implantar os protocolos.

Criamos vídeos curtos que demostram a capacidade que São Paulo tem para trabalhar essas normas obrigatórias e, por outro lado, começamos a preparar o mercado para a retomada. Essa grande ação que começou em agosto visa dar segurança para que aqueles que desejam vender os produtos ou fazer um evento no estado comecem a se programar. O próximo passo é o lançamento do market place Visit SP com dicas, passeios, hotelaria e compras direcionado ao perfil do usuário que será lançado em outubro.

Em paralelo, criamos um grupo de trabalho com entidades da hotelaria, parques e destinos para defender pleitos que poderiam ajudar na retomada. O G8, como era chamado, se reuniu com o grupo de operadoras e agências e se tornou o G20. Para garantir a sobrevivência dos negócios, o grupo criou uma série de pautas endereçadas de forma coletiva para o parlamento, tanto no Ministério do Turismo quanto no Ministério da Economia.

BJ – Quais são esses pleitos?

Toni Sando – São pleitos coletivos relacionados especialmente à questão de acesso a linhas de crédito e de financiamento que não estão chegando à ponta da cadeia. Também temos discussões relacionadas à reforma tributária para entender como a tributação impacta os negócios em Turismo, a batalha da hotelaria com o Ecad [Escritório Central de Arrecadação e Distribuição] e a restituição da Embratur à sua atividade original de promoção no exterior. A extensão da lei que prevê redução de jornada com auxílio governamental foi promulgada e vale até dezembro, o que também era um pleito nosso. É uma vitória importante conquistada com a união das associações para levar esse tema à frente.

BJ – E em relação à Unedestinos?

Toni Sando – Mantivemos o trabalho de integração entre os 45 CVB nacionais, que representam 300 cidades e têm 10 mil associados. Fizemos diversas reuniões para entender o que estava acontecendo em cada local. É uma fase que a gente acaba trabalhando muito mais do que em fases normais, porque exige muitos debates em busca de soluções. 

BJ – O que essa troca de informações entre destinos pode trazer em termos de melhores práticas?

Toni Sando – O que acontece é que alguém cria uma linha de comunicação voltada à promoção doméstica e outros adaptam a ideia para utilizar também. Aconteceu com Porto de Galinhas (PE) que iniciou ações em redes sociais e foi seguida por outras entidades de destinos. Também estamos analisando a criação de ações promocionais conjuntas entre os destinos e temos feito reuniões semanais com as 200 entidades que compõem o CVB latino-americano.

BJ – Como estão nossos vizinhos nesse momento?  

Toni Sando – A situação é bastante semelhante e o que fazemos é focar na troca de experiências para entender como cada um está sobrevivendo nesse momento. No Brasil, a hotelaria parada impede o repasse do room tax e trava todo o sistema; o trabalho de prospecção de eventos também tem dificuldades porque os demandantes estão com dificuldade para estabelecer quando irão realizar um evento. O que percebemos é que as entidades, hoje, estão muito mais voltadas à área de inteligência e estudo de mercado.

BJ – Foi dessas conversas que surgiu a ideia de criar um fórum regional com a participação de países latino-americanos?

TS – Sim, a Expo + Fórum Virtual de Turismo Global terá duração de uma semana e participação dos 200 associados em diversos países. Além de oferecer conteúdo para capacitação, o evento contará com uma área de exposição que poderá ser visitada 24 horas. Esse é um projeto inovador de encontro digital, pois permite que o interessado acesse o espaço quando tiver disponibilidade de tempo. Ela acontece de 14 a 18 de setembro e terá rodadas de negócios com compradores convidados.

BJ – Como você enxerga o futuro dos eventos no médio prazo?

TS – As feiras já sinalizavam certo desgaste no modelo tradicional, o que acabou acelerando uma revisão do negócio com foco em ser mais interativo. O que a gente já consegue entender é que o ser humano é coletivo e precisa de encontros. Obviamente a aposta nesse novo formato de evento, com a adaptação para o cenário virtual, terá resultados sensacionais. Esse conceito já existia, lembro de transmissões do Philip Kotler, realizados há 20 anos via Embratel, que lotavam plateias virtuais com mais de 7 mil pessoas.

O que vemos como oportunidade é a realização de pequenos eventos, segmentados, que tendem a crescer. Um pavilhão que antes era tomado por um único e grande evento deve ser substituído por vários pequenos eventos relacionados e acontecendo simultaneamente. Isso deve favorecer um novo movimento para o segmento. Outra questão é o poder de atratividade dos eventos que, certamente, vão exigir curadoria e mais inteligência para despertar nas pessoas o interesse de se deslocar. Com a dificuldade financeira, é certo que as empresas só vão investir no que tiver perspectiva de retorno.

BJ – Com a mudança no escopo de atuação da Embratur por conta da pandemia, o Brasil acabou ficando fora do calendário internacional de eventos. Como a Unedestinos pode ajudar a reposicionar o País nessa agenda?

TS – Fizemos uma reunião com o presidente da Embratur e ficou claro que não há condições legais para promover ações internacionais. O problema é que se a gente não divulgar o Brasil hoje perdemos um ano. O mundo todo está de pernas para o ar, mas calendários existem. Não dá para esperar passar tudo para começar, o preço é muito alto. A proposta é que a Unedestinos faça o papel de ir aos eventos, com ajuda de cooperados. Teremos uma segunda rodada de conversa com Embratur para cruzar os eventos prioritários e engajar os associados para trabalhar nessa promoção. Esse trabalho terá de ser feito via iniciativa privada.

BJ – Qual é o seu conselho profissional para que tanto líderes quanto a mão de obra na linha de frente lidem com o cenário atual sem perder o otimismo?

TS – É preciso ter muita paciência e equilíbrio para conviver com tantas dificuldades. Eu acredito que o momento é propício para compartilhar e observo que o associativismo nunca foi tão importante quanto é hoje. Talvez essa seja a grande resposta. Não precisamos do setor público em uma primeira fase, o que precisamos é que os empresários se unam para levar soluções ao poder público.

Não dá para ficar isolado, é preciso fazer o exercício de estar conectado o tempo todo. Tudo passa e muita gente fica pelo caminho, muitas vezes porque não estava atento aos novos movimentos. Por mais dolorido que seja, por mais restrições que existam é preciso se envolver, sem perder o ânimo. Buscar conhecimento, estudar, aprofundar a visão crítica sobre o mundo. A equipe do CVB está trabalhando em casa, mas não perdemos o ritmo. Seguimos atentos e ativos.

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