Treinamento online: alternativa em tempos de pandemia

Empresariado se mantém otimista e investe em ferramentas digitais para incrementar a eficiência e otimizar o tempo

treinamentos
Gervasio Tanabe, diretor executivo da Abracorp

“Como todas as crises que já enfrentamos, essa também vai passar. A vida vai voltar e precisamos nos conduzir para um novo normal”. Em entrevista ao Brasilturis Jornal, Gervásio Tanabe, diretor executivo da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp), reforça o sentimento de esperança para um novo começo do Turismo após a pandemia da covid-19.

Atividades de trabalho em domicílio se tornaram a nova realidade. “As pessoas perceberam que, muitas vezes, não precisam mais estar nos escritórios para trabalhar. Acredito que haverá uma incidência grande de atividades em home office. Empresas também devem passar a gerir melhor as viagens”, pontua. A pluralidade de capacitações online modificou a forma de aprendizagem e fez da modalidade – ainda em fase de expansão – uma ferramenta crucial para se manter vivo no mercado e em dia com as atualizações.

“As promoções de webinars vão impactar o setor com a redução de viagens corporativas. Visitas técnicas irão diminuir e acredito que a ferramenta poderá ajudar no planejamento da viagem. Mas assistir a um vídeo ou conhecer digitalmente o lugar não diminuirá o interesse em visitar o destino, porque a experiência não muda”, enfatiza.

Ricardo Amaral, CEO da R11 Travel
Ricardo Amaral, CEO da R11 Travel

Dentre os conteúdos compartilhados está o detalhamento de produtos e serviços, além de pontos turísticos com seus atrativos, cultura e especificidades. As transmissões ao vivo ganharam protagonismo tanto no Facebook e Instagram quanto em plataformas específicas para videoconferências.

“É um tempo de criatividade. As pessoas estão buscando alternativas para se manter produtivas. Nós já tínhamos um desempenho muito bom em webinars, mas isso foi potencializado. Chegamos a 800 pessoas interagindo”, afirma Ricardo Amaral, CEO da R11 Travel.

Feedback positivo

Na opinião dos agentes de viagens, público-alvo de boa parte dos webinars produzidos, a experiência tem sido válida. “É muito positivo você fazer home office e ter uma programação diária de webinar. É claro que precisamos filtrar, mas o conteúdo tem sido ótimo, pois são ministrados por profissionais que entendem bem de cada assunto. Acredito que quem está aproveitando esse momento tem muito a crescer”, declara Andrea Barros, proprietária da AB Tours.

Marcio Nogueira, diretor de vendas do Hotel Do (Brasil)

Marcio Nogueira, diretor de vendas da Hotel Do para o Brasil, comemora a integração com os agentes de viagens e ressalta a flexibilidade do formato e-learning. A plataforma de reservas online para o mercado B2B promoveu cinco webinars em duas semanas – com impactos no treinamento de um universo que engloba de 400 a 450 pessoas – e segue com a estratégia de reunir os profissionais em ambiente online semanalmente.

“A ideia é fazer o treinamento sempre em parceria com um especialista para manter o agente de viagens capacitado. Abrimos espaço para as dúvidas dos profissionais, diferente dos monólogos que eles estão acostumados. E, ao final da transmissão, certificamos todos os participantes”, declara.

O que vem por aí?

Redução de público em eventos, uso de holograma para humanizar encontros (tecnologia existente e já testada), otimização de tempo, espaço e investimento são estratégias disponíveis. “O Turismo é um mercado que exige interação. Em um primeiro momento, teremos uma forte demanda tecnológica, mas que não vai substituir a troca presencial. Haverá um deslocamento de receita na organização dos eventos para investir nesse nicho. Acredito que uma nova forma de se comunicar será estabelecida e o mercado vai se sustentar se reinventando com muito mais facilidade do que se fosse há dez anos”, defende Rachel Havas, diretora da Havas Creative Tours.

um contraponto apresentado pela executiva é a necessidade de troca humana que deve surgir com o fim das quarentenas. “Teremos uma necessidade real da volta do networking, da troca de conhecimento ao vivo e das relações e discussões presenciais sobre novas teses e tendências. Essa retomada deve ser gradual e trazer uma mudança fundamental nos eventos e congressos. Veremos mais encontros híbridos, com uma mistura presencial e virtual, onde o investimento em tecnologia será fundamental para trazer soluções que humanizem estes encontros, como, por exemplo, participação de palestrantes via holografia”, explica.

Eduardo Murad, diretor executivo da Alagev

A prática de lives também deve ser alvo permanente das marcas após a pandemia, porque reduz custos de deslocamentos físicos e pode atingir um público maior. A estratégia vem sendo usada pela indústria do entretenimento – com shows ao vivo enquanto as aglomerações são proibidas -, entre os destinos ao redor do mundo – que investem na ferramenta para ilustrar seus principais atrativos à distância – e em visitas técnicas a hotéis e equipamentos turísticos – o famoso site inspection – e não deve desaparecer com a chegada da cura para o vírus. Eduardo Murad, diretor executivo da Associação Latino Americana de Gestão de Viagens e Eventos (Alagev), afirma que ainda não é possível prever o comportamento do viajante corporativo em um cenário pós-pandemia.

“Não é só pela falta de oferta, mas também por procedimentos sanitários que serão implementados. Não sabemos, por exemplo, se e quando poderemos alocar um grande volume de pessoas lado a lado em um mesmo espaço”, declara o executivo.

um estudo realizado pela Alagev mostra que 42% dos respondentes acreditam na retomada de eventos para o terceiro trimestre deste ano. Outros 36% defendem que isso ocorrerá no quarto trimestre de 2020 e 4% dizem que acontecerá apenas em 2021. A coleta de dados foi realizada entre os dias 17 e março, baseada nas expectativas de 128 gestores de viagens e 105 fornecedores. Os dados revelam também o cancelamento de 41% dos eventos previstos, adiamento de 32% e cancelamento parcial de 27%, por conta do novo coronavírus.

“Os empresários vão pensar mais no propósito das reuniões. Os eventos presenciais vão continuar, mas as reuniões pequenas serão repensadas e transferidas para o ambiente online. A tecnologia será utilizada para automação de processos, ferramentas de check-in, reservas online e otimização de tempo”, defende Murad.

Ações e novos projetos

O cenário dá lugar também ao protagonismo das associações que representam agentes de viagens, operadoras e fornecedores na luta pela economia do setor. Segundo o diretor da Alagev, a união do setor nas relações comerciais, flexibilização de prazos e cumprimento de contratos tem sido positivo.

“Temos feito alguns pleitos junto ao governo para salvar a cadeia. Tentamos achar formas de garantir a sustentabilidade das empresas para que elas passem esse período sem quebrar e sem que haja demissões em massa”, pontua.

Na Abracorp, um serviço de consultoria focado em estratégias para o período pós-pandemia oferecerá avaliações estruturais, balanço financeiro, capacitações para funcionários e estratégias para fortalecer a relação com os clientes.

“Fizemos uma série de entrevistas com fornecedores, associados e clientes debatendo sobre o amanhã. Essa é a forma que a Abracorp entende que pode contribuir com o momento após o fim da pandemia”, destaca Tanabe.

Raffaele Cecere, presidente do Grupo R1

Empresas privadas também investem em ferramentas para esse novo tempo e unem esforços com o associativismo para facilitar o cotidiano dos profissionais de eventos.

A R1 Soluções Audiovisuais, por exemplo, vem trabalhando em dois projetos para a popularização de eventos virtuais. Em formato híbrido, uma das propostas mescla um ambiente com um número controlado de participantes presenciais com a transmissão online para uma quantidade maior de espectadores.

“Eu posso ter uma sala com cem pessoas e transmitir para outras 200”, pontua Raffaele Cecere, presidente da R1. A outra proposta contempla um cenário integralmente virtual – conseguido por meio do uso de tecnologia em terceira dimensão semelhante ao formato de vídeo games – que poderá permanecer disponível pelo tempo que o contratante desejar.

]“Em uma feira de grande porte, nem sempre dá tempo de visitar todos os estandes. A ferramenta em desenvolvimento simula uma área com realidade aumentada, virtual e links externos”, explica Cecere. Ele complementa, defendendo a permanência dos eventos físicos.

“Isso não quer dizer que as feiras vão acabar, acredito que será uma ferramenta complementar que a crise trouxe e estamos encabeçando para o segundo semestre”, enfatiza.

Em termos de investimento, o executivo avalia que a necessidade de sobrevivência imposta pela crise deve substituir uma relutância inicial do empresariado em aderir a novas tendências.

“Não há muito para fazer: É preciso se adaptar ou não haverá negócio. Estamos todos tentando nos adaptar a esse cenário, o que não podemos fazer é permanecer parados, sem ter produtos a oferecer, como um supermercado com prateleiras vazias”, compara.

A profissionalização do setor é outro desafio evidenciado pelo cenário do covid-19. “Acredito que essa crise vai evidenciar a profissionalização do mercado, vigorando somente aqueles que têm qualificação. Vejo o período como yin-yang, é preciso ter tristeza para ter felicidade. Com uma solução para a doença, o cenário vai melhorar”, finaliza.


Estreitando relações

Atuando com capacitação virtual em plataforma exclusiva desde 2019, a Schultz Operadora aproveitou o momento e criou dois produtos. A série “Trilha do conhecimento” – dividida em dicas diárias para lidar com o período de crise – e um treinamento para melhorar a performance digital dos empreendimentos. A programação oferece conteúdo da Schultz Vistos, TZ Systems e Schultz Operadora, às terças, quartas e quintas-feiras, respectivamente.

“Desde a primeira live, a iniciativa tem seguido muito bem, tanto em feedback quanto em interesse. A média é de 800 inscrições por treinamento e recebemos muitos elogios pelo conteúdo escolhido via e-mail, ligações e Whatsapp”, afirma Rodrigo Rodrigues, diretor comercial da Schultz Operadora.

O grupo também exibe a série “Guia no comando”, em parceria com a Europa Mundo. Nesse modelo, os especialistas em guiamento turístico utilizam o Instagram da operadora para demonstrar seus conhecimentos e compartilhar dicas. A programação vai ao ar duas vezes por semana – às terças e sextas-feiras.

“A Schultz também está trabalhando em uma plataforma com preços competitivos em relação aos oferecidos pela internet. As agências não vão mais perder para as OTAs”, afirma Rodrigues. Para acessar o serviço, basta ser afiliado à operadora. Após o lançamento da plataforma – que ainda não tem data estipulada –, será oferecido um treinamento específico.


Voz do agente

Veja a opinião de alguns agentes de viagens sobre o atual cenário do Turismo.

Lurdes Tomba


“Temos que cuidar da nossa saúde mental. Nós que somos do turismo viajamos com o passageiro mesmo sem sair do lugar. Nesse cenário, só estamos trancados. Acredito que a pandemia mostrou que viajar é uma questão de saúde mental”, afirma Lurdes Tomba, diretora da Tombatur agência de viagens e turismo.

Paulo Igarashi


“O Covid-19 trouxe a intensificação da conexão tecnológica. Acho que as OTAs que são os nossos principais clientes vão perder muitos clientes, pois elas não prestam suporte aos consumidores. Se os agentes de viagens fizerem uma pós venda de qualidade, vão sair na frente e serem valorizados”, pontua Paulo Igarashi, proprietário da Think 2 Travel consultoria em viagens.

Fritz Mayer


“A pandemia trouxe um cenário sem precedente. Todo mundo espera que a primeira demanda após resolução seja por destinos nacionais. Acho que os pontos turísticos ligados a natureza serão os mais buscados, como Pantanal, Fernando de Noronha, praias, cachoeiras, montanhas e selvas”, ressalta Fritz Mayer, sócio da Enjoy Brazil tours.

Mary Lemos

“É preciso fazer uma campanha para ressaltar o trabalho do agente de viagens, talvez até coletando o depoimento de consumidores que contaram conosco para resolver os problemas da compra online durante a crise. Um financiamento também é importante, porque mesmo com a normalização da situação, teremos dificuldades em manter os negócios, além de promoções viáveis de companhias aéreas”, sugere Maria Lúcia Lemos, proprietária da Mary Lemos Turismo.


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