Turismo abre caminho para o desenvolvimento social

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Por Cássio Garkalns*

A história de Angola é pouco conhecida por nós brasileiros, mas não deveria, já que de lá partiram alguns dos inúmeros navios negreiros que vieram desembarcar em nosso litoral. Angola é um país que viveu a Guerra de Independência de Portugal entre 1961 e 1974 e que, imediatamente depois, viveu mais 27 anos de guerra civil envolvendo os dois principais movimentos que buscavam acabar com os resquícios da colonização portuguesa.

Foi apenas em 2002 que o país passou a viver tempos de paz e se readaptar a uma vida sem tiros, minas, bombas e pessoas escondidas depois de quatro décadas de conflitos. Você deve estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com o turismo? O fato é que uma geração inteira cresceu sem poder viajar, tirar fotos e conhecer a cultura de sua própria pátria.

Por conhecer um pouco o país, hoje posso dizer que sinto que novos ventos estão soprando por lá, e que eles estão chegando por meio do turismo. O turismo que está sendo considerado no país quer que o povo angolano conheça e valorize sua pátria, que novos polos de desenvolvimento sejam estimulados nas diversas províncias, que os aspectos culturais e naturais sejam efetivamente reconhecidos e valorizados, que novos padrões de qualidade possam ser desenvolvidos em produtos e serviços.

E, ainda, que as questões de vistos e entradas possam ser desburocratizadas, que a cultura da hospitalidade, já presente, possa ser ainda mais valorizada, que os necessários investimentos em infraestrutura e serviços básicos possam ser vistos como subsídios para o benefício da população e também para a atração de investidores e a viabilização de produtos turísticos. E, essencialmente, que a matriz econômica seja ampliada, considerando a preocupação com o desenvolvimento sustentável.

Esse último fator tem um peso especialmente importante para o país que teve no petróleo uma de suas principais atividades econômicas nos últimos anos e que sofreu muito com a queda do preço internacional do barril. Nesse contexto, o turismo vem sendo chamado pelo governo angolano de ‘petróleo verde’, justamente para pontuar a importância dessa atividade econômica para esse novo governo.

Os líderes angolanos estão conscientes do potencial que possuem, das oportunidades que se apresentam, e dos grandes desafios que têm pela frente. Em 2016, Angola recebeu 500 mil visitantes, entre turistas de lazer – uma minoria – e de negócios. Seus colegas africanos do Egito, Marrocos, África do Sul e Tunísia receberam juntos, aproximadamente, 45 milhões de turistas, o que representa 64% dos visitantes no continente africano. Isto é, há uma oportunidade enorme de crescimento.

Há muito trabalho para ser feito, começando pelo atendimento aos padrões internacionais de qualidade de serviços e produtos, além da superação dos desafios alfandegários. Sem falar no potencial de desenvolvimento do mercado doméstico: os próprios angolanos conhecem pouco o país – uma minoria se aventura a viajar pelas províncias, por inúmeras questões que podem ser tema de outro artigo.

Os novos ventos do turismo que se aproximam de Angola trouxeram uma mulher para o comando da pasta do Turismo. A Ministra Ângela Bragança se comprometeu publicamente a encarar esses desafios, estabelecendo um plano de ataque aos problemas emergenciais para os primeiros 100 dias de trabalho. Ela também iniciou um ciclo de planejamento olhando para os próximos cinco anos, contemplando a formalização de uma parceria com o Ministério do Ambiente para estruturar a visitação às unidades de conservação e a atualização do Plano Nacional de Turismo.

É motivador olhar para uma realidade com enorme potencial, com pessoas comprometidas em mudar a situação atual e permitir que o turismo ocupe um papel de destaque na economia angolana.

Quem sabe, em poucos anos, você poderá chegar a Luanda para comer funge (pirão à base de farinha de milho ou mandioca) e muamba (galinha com óleo de palma, quiabo, alho e abóbora), conhecer as quedas de Kalandula (a segunda maior da África), visitar o impactante Museu Nacional da Escravatura, as áreas rurais e a história da guerra nas diversas províncias. E, sobretudo, conhecer a alegria dos angolanos que, diga-se de passagem, adoram os brasileiros.

Vamos em frente!

* Cássio Garkalns é CEO da GKS Inteligência Territorial e professor do curso de 
pós-graduação em Gestão Estratégica da Sustentabilidade. cassio@gks.com.br

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