Turismo doméstico: tábua de salvação?

Investimento, otimismo e criatividade permeiam a busca por alternativas para manter viva a atividade turística durante a pandemia
turismo doméstico destinos
(Foto: Ana Azevedo)

Por Ana Azevedo, Camila Lucchesi e Felipe Lima

Quando a indústria de viagens dará a volta por cima? A pergunta ainda não tem resposta, entretanto alguns caminhos sugerem que há esperança de uma retomada gradual da atividade em termos globais, inicialmente via turismo doméstico. Associações se esforçam para dimensionar os cenários para diferentes setores, mas a verdade é que é impossível estimar as perdas diante de um vírus que faz com que os dados mudem tão rápido quanto ocorre sua disseminação pelo mundo.

Um relatório recente da Organização Mundial do Turismo (OMT) mostra uma radiografia atual – e nada animadora – do setor de viagens: 100% dos destinos turísticos globais impuseram algum tipo de restrição a viagens por meio do fechamento parcial ou completo das fronteiras desde janeiro de 2020. Os dados de 20 de abril mostram que 45% dos 217 destinos listados fecharam totalmente ou parcialmente as fronteiras a turistas e 18% estão banindo a entrada de passageiros com origem de países específicos ou que tenham transitado por alguns locais.

A China, origem da pandemia, é um espelho natural do futuro e nossa única referência sobre a evolução da pandemia. Um estudo realizado pela STR, empresa especializada em benchmarking, análise e insights de mercado para a hotelaria em nível mundial, mostra que o setor de hospitalidade dá sinais (ainda que precoces) de recuperação. Entre 1º de fevereiro e 28 de março de 2020, as taxas de ocupação começam a apontar para cima, com a média chegando a 31,8% no último dia do mês – percentual 7,4% acima do registrado na primeira semana de fevereiro. Parte da demanda é decorrente de viagens corporativas e reuniões em pequena escala dentro da mesma província, mas há sinais de reaquecimento também no turismo de lazer.

Patrícia Boo, diretora da STR para América Central e América do Sul, reforça que a maioria dos hotéis chineses reabriu dois meses após o início do isolamento requerido pela covid-19

Para Patrícia Boo, diretora da STR para América Central e América do Sul, há duas importantes lições na recuperação inicial da gigante asiática que precisam ser observadas. A primeira é que a maioria dos hotéis da amostra fechados pela pandemia (88%) reabriu após dois meses; a segunda é que a retomada na China vem sendo liderada pelas viagens domésticas. Hong Kong, território autônomo chinês, segue pelo mesmo caminho, apoiada pelo apetite por viagens da porção continental do território – capaz de somar 5 bilhões de viagens anuais – e aposta na normalização da atividade turística em julho.

Mas será que a receita oriental se enquadra ao cenário nacional? Levando em conta as preocupações em relação à saúde e a percepção de segurança do viajante, tudo leva a crer que as viagens domésticas serão os alicerces para a reconstrução da atividade. O estudo “Oferta de Disponibilidade Hoteleira” feito pelo Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) com dados de março revela que 83% dos empreendimentos entrevistados estimam o retorno de suas operações entre maio e julho.

É o que também sugere uma pesquisa realizada pelo metabuscador Skyscanner a pedido do Brasilturis Jornal. Durante o mês de março, os viajantes já buscavam passagens e hospedagens para o trimestre seguinte, com destaque para o período entre abril e julho. Além disso, a pesquisa mostra que os destinos nacionais são tendência entre as buscas, com São Paulo (SP) se posicionando no topo do ranking, seguido por Recife (PE), Brasília (DF), Fortaleza (CE) e Salvador (BA).

Emerson Belan, diretor geral da CVC

A CVC, por exemplo, relata que a maior procura dos clientes é para embarques de outubro em diante e que os destinos mais aquecidos nas duas últimas semanas (5 a 19 de abril) estão no Nordeste e Sul do País. O time de produtos da operadora vem negociando com parceiros em viagens pelo Brasil para a disponibilização das tarifas para o segundo semestre e o verão 2020/2021 nos sistemas, para que possam trabalhar na formatação de pacotes para o período pós-pandemia.

Emerson Belan, diretor geral da CVC, reforça que a maior demanda por orçamentos é para viagens com período de embarque a partir do feriado de outubro e de novembro de 2020 até fevereiro de 2021. Segundo a operadora, o preço de um pacote para as praias nordestinas – com sete dias de hospedagem e aéreo de ida e volta – está 30% mais em conta do que roteiros similares comercializados em  2019.

Impulso fundamental

De acordo com Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo, a retomada da atividade no País passa por um plano que estimula o mercado nacional e, por isso, destaca que o MTur vem atuando com medidas que permitam a sobrevivência do setor e se empenhando em definir estratégias que possibilitem ao Brasil aproveitar de seu potencial. “A valorização do turismo interno certamente será um pilar vital nesse processo. Estamos em contato constante com todos os secretários estaduais de Turismo, gestores locais e municipais, bem como representantes de diversos segmentos turísticos para traçar um plano de retomada, fortalecendo as viagens internas, os nossos serviços, meios de hospedagem, eventos e belezas naturais”, detalha.

Normalidade não é bem como Mariana Aldrigui, pesquisadora e professora doutora de Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), avalia o reaquecimento. Ela defende que o setor passará por uma transformação, visto que muitas empresas – desde grandes companhias aéreas até pequenas agências de viagens – entraram em um momento de extrema fragilidade. Além disso, ressalta a visibilidade e a importância do Turismo por parte dos poderes públicos e de demais setores econômicos.

covid-19 e o turismo interno
Mariana Aldrigui, pesquisadora, professora doutora de Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP) e presidente do Conselho de Turismo da Fecomercio-SP

Mariana ainda declara que a campanha “Não Cancele, Remarque”, lançada no dia 7 de abril pelo MTur, com o objetivo de incentivar as viagens ao País após o fim da pandemia, auxilia muito na ideia de fomentar o turismo doméstico. “Ela nasce como uma campanha para ajudar na sobrevida, mas também encontra um gancho no confinamento. As pessoas estão com o desejo expresso em suas redes sociais de realizar as suas viagens, visitar os parentes, já que não puderam fazer isso durante a Páscoa e também não o farão no Dia das Mães. Particularmente, sem nenhum tipo de dado, me arrisco a dizer que pode ser um alavancamento ainda maior do que a gente pode antecipar”, completa a professora.

Outras ações governamentais – como a linha de crédito disponibilizada a micro, pequenos e médios empresários – foram abordadas com certa preocupação por Mariana, que também preside o Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP). Segundo ela, muitos empresários, por mais que sejam alvo desta ação, não conseguem cumprir as devidas condições exigidas, o que resulta em um cenário diferente da expectativa. Outro ponto está ligado à incerteza quanto ao tempo que levará para a retomada de operações e, principalmente, de caixa.

“É muito arriscado aceitar dinheiro emprestado para um negócio que não se sabe quando vai voltar. Não dá pra usar uma régua e regra para todo mundo. De fato, há linhas de crédito, mas elas são difíceis de acessar. O poder público poderia facilitar a troca de informações, deixar claro como as empresas vão se beneficiar e que vai levar pelo menos um ano para que o caixa volte ao normal para pagar as dívidas. Ou seja, de nada adianta para este setor”, avalia.

Andréa Marzagão, CEO da Gaia Eventos e Turismo, de Campinas (SP), concorda com a professora da EACH/USP. “Os bancos populares pedem garantias de bens pessoais para conceder empréstimos aos microempresários, os grandes bancos continuam com juros insanos e os gerentes do Banco do Brasil e Caixa Econômica estão dizendo que não querem emprestar para agências de viagens, pois o negócio tende a falir com a pandemia. Deveria haver maior flexibilização dos empréstimos para capital de giro, sem termos que deixar um rim como garantia”, lamenta.

Voz do agente

O Turismo já passou por outras crises – causadas pela síndrome respiratória aguda grave (SARS), em 2002, e pelo ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York (EUA). Nada se compara, entretanto, à situação atual. A diretora da STR antecipou, em webinar promovido no início de abril, que desta vez a recuperação levará mais tempo.

Segundo uma pesquisa recente da Fundação Getulio Vargas (FGV), o Produto Interno Bruto (PIB) do Turismo deve sofrer retração de 39% em 2020, considerando um período de confinamento limitado a três meses. No estudo, intitulado “Impacto econômico da Covid-19 e Propostas para o Turismo Brasileiro”, a FGV ressalta que a estabilização dos negócios deve se estender por 12 meses, contados a partir do fim do isolamento, para as viagens domésticas e por até 18 meses para as internacionais.

Mariana, no entanto, se atenta à forma como a China vem atuando após o pico do surto. “A resposta do país chinês foi muito rápida e tem destino com movimento de ascensão no turismo”, lembra a professora da EACH/USP. A região de Sanya, por exemplo, já vem mostrando aquecimento nas viagens de fim de semana, segundo pesquisa da STR. O balneário, um conhecido destino de lazer para os chineses, saiu de uma ocupação de 6% em 1º de março para cerca de 30% em 28 de março.

A professora defende que toda essa situação destaca pontos importantes para reflexão. “É preciso estar preparado para crise e não achar que tudo vai dar certo o tempo todo. Temos muito trabalho pela frente em termos políticos. Precisamos de representantes que saibam lidar com ciência, que levem temas importantes para níveis mais elevados”, declara.

União foi um fator visto como aliado para um possível reaquecimento. A professora afirma que as associações eram avaliadas com certo desprezo tempos atrás. No entanto, esta é uma imagem que vem se modificando com o passar dos anos, devido à força de negociação que elas possuem e a resiliência que oferecem aos seus associados. “É uma união de conceito. Um momento de unir ideia e levar isso para frente”, observa.

Magda Nassar, presidente da Abav Nacional

Uma dessas entidades é a Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), que apoia os agentes de viagens, reforçando esses profissionais como essenciais na cadeira produtiva do Turismo. De acordo com Magda Nassar, presidente da Abav Nacional, a crise vem ampliando o alcance dessa percepção dos profissionais, principalmente por parte do governo federal. “Abrimos interlocuções e canais de comunicação com setores, públicos e privados, que por muito tempo nos ignoraram. Penso que esse será um grande legado desta crise”, completa.

A dirigente declara ainda que essa confiança também é sentida por parte dos consumidores, que podem observar que as agências estão sendo o único canal que se mantém 100% operacional no atendimento ao mercado. Magda comemora os resultados da campanha “Adia!”, lançada pela associação, que registra mais de 80% nas negociações resolvidas com remarcações ou cartas de crédito. “Cancelamentos são, cada vez mais, minoria”, celebra.

Na opinião de Lurdes Tomba, diretora da Tombatur Agência de Viagens e Turismo, a intermediação nos adiamentos e cancelamentos solicitados pelos clientes deve resultar em na valorização desses profissionais. “Acredito que teremos mais clientes no período após a pandemia. Estamos vivendo uma tendência de valorizar as relações humanas. Muitas pessoas que compraram online ficaram sem respaldo do agente e vieram nos procurar. Algumas pessoas que eu ajudei disseram que com a normalização da situação, só comprarão com profissionais da categoria”, comemora.

Andréa defende que a ampla campanha para remarcações tem valor, mas reforça que o consumidor tem o direito de cancelar e ser reembolsado, se assim preferir. “Da mesma forma, a agência de viagens e a operadora devem ganhar pelo serviço de negociação, organização e emissão dos serviços. Conversar com o cliente e cobrar uma taxa de serviço, caso ele opte pelo reembolso, é digno e justo, não motivo de vergonha. O passageiro pode ser solidário e compreender. Se ele buscou uma agência, é porque conhece e valoriza esse serviço”, pontua.

Destinos se preparam para atender à demanda reprimida

A cidade de Gramado (RS) está adotando medidas de segurança além da quarentena obrigatória. O destino na Serra Gaúcha trabalha em três frentes para manter viva a atividade turística, incluindo experiências no destino, sustentabilidade e big data analytics. A Secretaria de Turismo da região também vem atuando no gerenciamento de crise, mitigação de impacto e estímulo e aceleração da recuperação.

Rafael de Almeida, secretário de Turismo de Gramado (RS)

Já mapeamos que a retomada no segundo semestre acontecerá pelas viagens rodoviárias, predominantemente por veículos particulares. Além disso, Gramado está dando as mãos para a tecnologia para que o turista tenha mais assistência. Vão surgir grandes novidades nos próximos meses com sistemas digitais aplicáveis às atividades turísticas que implantaremos. Tem muita coisa boa para acontecer”, destaca Rafael de Almeida, secretário municipal de Turismo de Gramado.

Outro destino que está investindo em infraestrutura, visando à melhoria da qualidade de vida e o reforço à saúde da população, é Alagoas. Ademais, o estado vem trabalhando na renegociação de débitos e prorrogação de prazos, bem como em parcerias com bancos e extensão de prazo para pagamento de empréstimos feitos pelos empreendimentos do setor.

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Rafael Brito, secretário de Turismo e Desenvolvimento de Alagoas

Rafael Brito, secretário de Turismo e Desenvolvimento de Alagoas, observa que o momento exige isolamento social, mas já pensa nas próximas estratégias de alavancamento do Turismo para o período pós-pandemia. “Faremos um grande investimento quando for decretado o fim do cenário pandêmico para mostrar que Alagoas venceu do ponto de vista sanitário e que continua sendo o estado mais bonito e aconchegante do Brasil. O que fica dessa pandemia é onde o turismo vai se reencontrar, em termos de equilíbrio, entre a satisfação do cliente e a capacidade do setor”, finaliza.

O trade carioca também acredita que o turismo doméstico será o grande protagonista da retomada, a partir do afrouxamento das medidas de isolamento. O Sindicato dos Meios de Hospedagem do Município do Rio de Janeiro (SindHotéis Rio) estuda ações de incentivo às viagens internas, a exemplo do projeto Carioquinha – que oferece descontos em atrações turísticas para cariocas e moradores do Rio e Grande Rio.

Para o fomento ao turismo de negócios, as secretarias estadual e municipal do Rio de Janeiro trabalham em um mapeamento dos eventos cancelados e adiados em cerca de 400 cidades para candidatar o Rio de Janeiro a sediá-los. O trade turístico carioca também trabalha em um planejamento de ações promocionais, que incluem a realização do Salão Estadual de Turismo e roadshows nos principais destinos emissores.

Empreendimentos turísticos também têm se esforçado para fazer a lição de casa para atender à demanda no retorno à normalidade. O Hotel Fazenda São Francisco, uma fazenda produtiva no Pantanal (MT), criou o “voucher quarentena” – com day use e pacotes de uma a quatro noites com 20% de desconto que valem para estadas até 23 de dezembro de 2021. “Desfrute de sua viagem ao Pantanal quando melhor lhe convier e ajude-nos a passar por mais este desafio”, afirma a proprietária Carolina Coelho, no comunicado enviado aos clientes.

Iniciativas nesse sentido são valorizadas por Andréa Marzagão. “Alguns hotéis já estão dando descontos de até 50% e tarifas flexíveis para alterações. É a hora de contemplar o cliente que não pode viajar com uma noite extra, 125% de milhas ou um plus nas próximas viagens, como uma recompensa por todo esse transtorno. Os restaurantes criaram o movimento #adoteumrestaurante, nós poderíamos criar o #feriascombonus e vender pacotes pague cinco e leve seis noites, ou um desconto na entrada, uma mala extra no aéreo, algo que seja mais do que o cliente está pagando. Continue vendendo o que vendia antes, mas busque promoções com seus parceiros”, sugere a agente de viagens.

Andréa Marzagão, CEO da Gaia Eventos e Turismo

A profissional lembra que os jovens que estão entrando no mercado têm maior consciência ambiental, são focados em experiências e nem sempre optam pelo luxo. “Trabalhe nichos como turismo voluntário, viagens na natureza e menos com espaços fechados. Em vez de ser mais um na multidão oferecendo mais do mesmo, crie produtos únicos, que atraiam públicos bem específicos de afinidades e interesses em comum, como pescaria, culinária com ervas, golfe, maquiadores, futuras mamães, divorciadas, barbudos, estudiosos de pássaros, board gamers, mães & filhas, fanáticos por esportes. Você também pode vender produtos correlatos ao Turismo, como oferecer consultoria de destinos, dicas para fazer mala, listar o protocolo em países muçulmanos. O que você sabe melhor, é o seu maior trunfo de produto”, defende.

Ela também acredita que os “open vouchers” criados por algumas operadoras são a opção para as agências fazerem caixa no momento. “Veja qual destino seu passageiro tem em mente, cote e ofereça uma opção no valor próximo. Por enquanto, só vi Azul Viagens, Agaxtur com Hard Rock, e a Schultz com Hard Rock e aéreo oferecendo flexibilidade na escolha de datas. Isso pode trazer um lucro no curto prazo para você não ter de fechar as portas”, aponta.

Em relação aos cancelamentos das diárias hoteleiras – procedimento que vem sendo comum, especialmente para reservas fora do País -, ela acredita no poder de negociação de operadoras com hotéis ou brokers para transformar reservas em créditos para uso em até 24 meses após a compra. “Mesmo que a reserva seja para julho e a pandemia tenha acabado, segundo a Organização Mundial de Saúde, ainda levará muito tempo para as pessoas sentirem confiança em novos procedimentos de higiene de hotéis, pontos turísticos e aglomerações. Tudo o que os passageiros não precisam nesse momento é de pressão para que decidam logo ou viajem com mais medo”, defende.

No caso da CVC, Belan explica que, para dar maior conforto ao cliente nesse momento, a operadora passou a oferecer a possibilidade de uma remarcação gratuita, sem cobrança de taxas e multas (nem da operadora, nem de terceiros), para viagens dentro do Brasil com embarques a partir de agosto. “O objetivo é que o cliente fique tranquilo para reservar agora com a garantia de que terá flexibilidade caso queira ou precise remarcar mais para frente”, afirma.

Apesar de isentar o cliente de multas, a cobrança de uma taxa para remarcações de viagens fora dos períodos de pandemia é aplicada por companhias aéreas e hotéis, variando conforme tipo de tarifa e/ou proximidade de embarque. Para quem já havia comprado a viagem antes da oferta deste serviço, a operadora e os fornecedores também vêm oferecendo alternativas para remarcações aos clientes sem ônus em função da situação atual.

Voos: remarcações superam cancelamentos

A campanha de adiamento também foi constante no mercado de aviação, conforme declara Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). De acordo com ele, a taxa de remarcação no segmento oscila entre 85% e 87%, enquanto as solicitações de reembolso variam entre 13% e 15%. “Criamos condições para que os clientes remarquem”, afirma.

Sanovicz observa que as Medidas Provisórias foram importantes para todo o mercado, principalmente MPs que iam ao encontro da agenda de 28 temas do setor, que são divididos em três grupos: Medidas internas, como revisão de contrato de trabalho, de pagamento de fornecedores, entre outros temas ligados aos custos fixos; infraestrutura e regulação, como estacionamento dos aviões nos pátios da força aérea e o acordo com a Secretaria Nacional Público Federal sobre as relações de consumo; e economia, que une seis medidas, sendo a mais importante a negociação de linha de crédito para fortalecer o capital de giro das empresas.

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Eduardo Sanovicz, presidente da Abear

A retomada do Turismo é uma certeza para o presidente da Abear que observa, com a experiência adquirida em mais de 30 anos no setor, um primeiro reaquecimento no turismo doméstico, seguido pelo mercado internacional. “Ainda é muito cedo para cravar quando essa retomada vai se dar e como ela ai se dar, devido às complexas variáveis envolvidas”, pontua. Questionadas sobre seus planos de voo no País para os próximos meses, Azul, Gol e Latam informaram que ainda é cedo para fazer projeções sobre o restabelecimento, visto que o aumento na demanda depende, ainda, de como o combate à covid-19 vai evoluir.

Uma das preocupações de Sanovicz é como o câmbio se comportará após a pandemia, já que a moeda norte-americana tem impacto de 52% em custos como querosene de aviação e leasing polarizados. “Nós temos uma situação complicada de câmbio. Tínhamos dólar a R$ 3,70 e hoje a cotação chega a R$ 5,40. É um cenário bastante difícil, bastante delicado”, finaliza.

Economistas do grupo suíço UBS traçaram três cenários para o câmbio, de acordo com a evolução de variáveis como desvalorização do dólar em relação a outras moedas, queda do risco-Brasil e aumento no diferencial de juros entre o País e o exterior. No cenário mais extremo, a moeda norte-americana pode fechar o ano valendo R$ 5,75 e chegar a inimagináveis R$ 7,32 em dezembro de 2021. Na outra ponta, o câmbio chega a R$ 4,45 em dezembro de 2020 e R$ 4,30 no final do ano que vem. A média fixada pelo banco foi de R$ 4,95 (2020) e R$ 4,60 (2021).

Apesar dos impactos no custo do aéreo, Andrea Barros, proprietária da agência Abtours, acredita que esse cenário de dólar alto pode contribuir para a tese de fortalecimento do turismo doméstico. “Acredito que o Nordeste deve crescer ainda mais. Sempre que um cliente pede algo fora do convencional, eu indico a Serra da Capivara, que é um destino muito bonito no Piauí e com pinturas rupestres. Além deste, sugiro também o Jalapão”, diz. (continua após o box)

Aviação no segundo semestre

Procuradas pela reportagem do Brasilturis Jornal, as companhias aéreas foram questionadas sobre seus planos para os próximos meses:

Azul: “Nesse atual momento é bastante difícil fazer previsões quanto ao reestabelecimento da demanda e, portanto da malha aérea, pois tudo depende da evolução do combate à epidemia e da retomada de vendas futuras. Estamos revendo toda nossa operação, nossos custos e estrutura buscando o máximo de flexibilidade para sobreviver num mercado menor, e ao mesmo tempo, responder rapidamente à retomada do mercado. Tudo dependerá de como a epidemia vá arrefecendo e a economia vá se recompondo.”

Gol: “Em função da contínua incerteza sobre o impacto e duração da pandemia da covid-19, a Gol suspendeu qualquer projeção até que o ambiente operacional volte ao normal. A companhia continua focada em buscar proteger empregos, economia de custos, trabalhar com o Governo do Brasil e preparar-se para o retorno ao serviço normal no devido tempo.”

Latam: “A Latam Airlines Brasil esclarece que neste momento ainda é prematuro pontuar qualquer previsão neste sentido. Entretanto, a companhia já tem trabalhado campanhas para o segundo semestre de 2020, com o objetivo de oferecer aos clientes passagens promocionais para destinos operados pela companhia, sempre com flexibilidade para alteração futura da data da viagem.”

Pesquisa entre operadoras

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Roberto Nedelciu, presidente da Braztoa

As solicitações de remarcação também superaram as de cancelamentos nos negócios entre as operadoras. De acordo com Roberto Nedelciu, presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), a campanha de adiamento está sendo um sucesso, com a taxa de remarcação chegando a 60%. Pesquisa realizada pela entidade entre associados para medir os impactos comerciais e trabalhistas da crise e avaliar possíveis perspectivas de retomada mostrou que três quartos das empresas estão com taxas de adiamento superiores a 50%. A pesquisa revela que 40% dos fornecedores internacionais – não vinculados às regras brasileiras – oferecem alternativas ao reembolso, 32% garantem o reembolso com restrições, 16% efetuam o reembolso integral e 12% cobram integralmente os valores.

A Braztoa nota que a ausência de recursos financeiros para ações de marketing e promoção é um grande desafio para 41% das operadoras; enquanto 16% consideram que o ponto de atenção é a falta de recursos humanos para retomar as atividades. Outras apreensões envolvem falta de demanda por insegurança sanitária (66%), condições inadequadas nos destinos para receber turistas (41%), questões relacionadas à falta de oferta de produtos e serviços por parte dos fornecedores (30%) e ausência de produtos pelo agenciamento (20%). 

“Há empresas que têm um caixa para sobreviver de quatro a seis meses e há aquelas que não conseguem passar por 15 dias. Todo mundo está trabalhando bastante para a redução de custos. Precisamos de linha de crédito com urgência, com juros de até 5% ao ano, carência de seis meses para pagar e prazo de até 36 meses. Estamos negociando com o governo para utilizar fundos como o Fungetur [Fundo Geral do Turismo], para ajudar o setor. Desta forma, ao invés de a negociação ser com o banco, será com o governo”, observa Nedelciu.

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Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo

Em coletiva de imprensa realizada em 22 de abril, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), o ministro do Turismo prometeu uma nova Medida Provisória (MP) para amparar o setor do Turismo. “Sem sobrevivência do setor, não vai existir a retomada. O modelo que vai garantir um crédito extraordinário de, pelo menos, R$ 5 bilhões para que o Fungetur, através do Ministério do Turismo, possa atender desde o microempreendedor individual, micro, média e até grandes empresas, sobretudo para o capital de giro”, explicou o ministro durante a coletiva.

Sobre ações organizadas com o governo federal, o presidente da Braztoa afirma que os pleitos foram divididos em três frentes: trabalhista (MP 936); cancelamento e adiamentos (MP 948); e crédito. Nedelciu concorda que o Turismo doméstico pode auxiliar na retomada econômica, contudo, nota que 45% das operadoras atuam somente com produtos internacionais, exigindo um remanejamento e/ou uso de criatividade para trabalhar no mercado.

Além disso, ele vê com esperança a aposta no turismo rodoviário. “Pelo que conversei com operadores, a tendência é utilizar o carro e viajar com membros da família inicialmente. Há alguns meses, a Braztoa já vinha provocando os operadores a inovar no modelo de negócio e reinventar o Turismo. Agora é uma megaoportunidade para descobrir novas possibilidades”, completa Nedelciu. Paulo Igarashi, proprietário da Think 2 Travel Consultoria Em Viagens, acredita que a resposta esteja no turismo interno e, em especial, nos roteiros terrestres. “As viagens de carro e o Turismo rodoviário serão beneficiados porque as pessoas terão medo de ficar ‘presas’ em destinos distantes, como ainda está acontecendo. Roteiros de natureza, como praias e cachoeiras, serão bem procurados”, defende.

Fernando Santos e Marcos Lucas, respectivamente presidentes do braço paulista da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav-SP) e Associação das Agências de Viagens do Interior do Estado de São Paulo (Aviesp), também acreditam no potencial das viagens terrestres para os próximos meses. “Natal, Réveillon e Carnaval devem ter maior procura porque os outros feriados estão comprometidos, bem como as férias escolares de julho e dezembro, além também da renda do brasileiro”, defendem.

Na visão dos executivos, o setor rodoviário já vinha crescendo com a redução de ofertas de voos, por conta do encerramento da Avianca. “Houve uma migração do Turismo no Estado de São Paulo para o transporte rodoviário, com a melhora da infraestrutura nas estradas, além do crescimento do número de viajantes da melhor idade para resorts e estâncias paulistas”, dizem, destacando que Abav-SP e Aviesp realizaram ações em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, como o incremento aos roteiros paulistas e ação em Brasília (DF) para regulamentar alguns conflitos de competência legal entre agências reguladoras do Cadastur e empresas que organizam excursões rodoviárias.

Andréa Marzagão reforça o coro dos que enxergam a a retomada pelo turismo interno. “Nossa única certeza é de que o fim da pandemia não levará 35 mil pessoas diariamente ao Vaticano ou 60 mil ao Magic Kindgom num passe de mágica. Nosso medo de contaminar ou de ser contaminado fará com que essa retomada seja gradual, começando pelas viagens de carro para hotéis fazenda próximos ao local onde o passageiro mora, viagens corporativas imprescindíveis, turismo nacional (90% das viagens realizadas por brasileiros em 2019), charters para destinos nacionais de sexta a domingo e em feriados prolongados”, enumera.

Para a agente de viagens de Campinas, a recuperação das viagens internacionais, seja a lazer, MICE ou trabalho, virá em um segundo momento. “A Emirates começou a testar passageiros de Dubai para a Tunísia com exames rápidos de sangue para detectar o novo coronavírus. Deduzo que se houvesse alguém positivo, não embarcaria. Essa pode ser a solução para viagens de avião de qualquer duração antes que se descubra uma vacina. Idem para os cruzeiros, depois de todo o terror que assistimos nessa pandemia, nada mais impressionante do que transatlânticos rodando sem autorização para atracar em porto nenhum com seus passageiros confinados”, reforça.

Elo de/para gigantes

O Turismo é considerado um dos principais geradores de emprego e essa força colossal permite à atividade se reinventar conforme surjam mudanças. Esta é a visão do empresário Guilherme Paulus, fundador da CVC e do Grupo GJP, que, assim como Mariana Aldrigui, relembra que o trade já passou por intensos altos e baixos.

Na opinião dele, os empresários devem se voltar aos consumidores para reconquistar o sucesso. “Eles devem ativar sua carteira de clientes e já pensar nos modelos promocionais e em campanhas de retomada. Agora é um período para todos se cuidarem, para seguirmos as recomendações da Organização Mundial da Saúde, mas sempre trabalhando de casa, com ideias e planejamento que irão favorecer a todos no curto e médio prazo”, detalha.

Paulus também acredita que a retomada se dará, inicialmente, por via doméstica, com o alinhamento de roteiros especiais para moradores de cidades próximas aos grandes centros históricos, por exemplo. O turismo rodoviário ganha atenção pela oportunidade de unir campanhas de promoção de destinos e atrativos hoteleiros de todas as regiões. “A Embratur, por exemplo, poderá nos ajudar com campanhas para a promoção do turismo doméstico nesse momento. Parte da verba de publicidade do Brasil no exterior poderia ser voltada para o turismo interno em uma grande campanha de incentivo a novas viagens ainda neste segundo semestre”, defende.

A sugestão do empresário ganhou forma em 27 de abril, data em que a Câmara dos Deputados aprovou a MP 907 que tem a transformação da Embratur como destaque. No texto, que seguiu para aprovação do Senado, foi determinado que a Embratur promova exclusivamente o turismo doméstico desde a decretação do estado de emergência e até seis meses após o seu fim.

Mariana Aldrigui concorda quanto à ascensão do turismo rodoviário neste futuro cenário, até por uma questão de renda. “É o que a situação financeira de muitos vai permitir. Vai ter muita gente visitando parentes, o que deve ser o motivo primário para a retomada. O público vai querer viajar, vai querer fazer o que for mais confortável e administrável. E a realidade dos destinos vai ser diferente”, posiciona a professora.

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Guilherme Paulus, fundador da CVC e do grupo GJP

Essa primeira fase de retomada que acontece de forma interna também é esperada na aviação, antes da abertura dos estados de forma completa e, consequentemente, de todas as rotas. E o corporativo, segundo o fundador da CVC, deve ser a mola propulsora para o segmento aéreo. “Antes mesmo do lazer, vem o corporativo, que demanda muito. As empresas seguirão com seus eventos no próximo semestre, os executivos começam a se deslocar e, assim, o aquecimento vai se consolidando ao longo dos próximos meses”, avalia.

Paulus declara que com as diversas camadas da população prejudicadas economicamente – com a chamada “erosão do poder de compra” –, é preciso estudar e sentir, de forma real, o tamanho do bolso do consumidor no momento em que a pandemia for superada.  “Não se trata de uma guerra tarifária, mas da forma como cada empresa vai sentir seu público. As promoções são, sim, um caminho importante, novas campanhas publicitárias, geração de conteúdo em redes sociais, e o mais importante: retomar a confiança do consumidor. O Turismo como um todo deverá se adaptar a essa nova realidade. E quem fizer esse tipo de readequação, sem dúvida, sairá na frente”, conclui.

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Fernando Santos (Abav-SP) e Marcos Lucas (Aviesp)

Santos e Lucas reforçam que, passado o período inicial de isolamento, as agências associadas trabalham na oferta de produtos nacionais e, em alguns casos, até mesmo internacionais para a retomada. “Já existem muitas promoções disponíveis no mercado, tanto para o segundo semestre como para 2021 e estamos incentivando os operadores e companhias aéreas para que abram tarifas especiais, para que as agências possam lançar pacotes para o início da próxima temporada, que será alinhado com o governo dos estados adequando o calendário escolar, feriados e início de férias”, afirmam.

Magda sugere que os agentes reforcem seu comprometimento nesse momento. “Não se distanciem do seu cliente e se mantenham firmes e seguros de que são o principal e mais eficiente canal de distribuição e vendas, e por isso um elo muito forte do mercado de viagens e turismo”, finaliza. Na mesma linha, Santos e Lucas aconselham que os profissionais se aproximem de seus clientes não apenas para oferecer pacotes, mas também para saber qual a necessidade atual de cada pessoa. “O consumidor deve ter o profissional como alguém em que se pode confiar durante esse período de incertezas”, afirmam.

Andréa acredita que a sobrevivência dos agentes de viagens depende da soma de sinergias baseadas em criatividade, inovação, empatia e parcerias. “Nesse momento, não venda viagem. Demonstre carinho por aqueles que te sustentam. Dê aulas, conhecimento, dicas, informações importantes de viagem, sobre destinos, livros, filmes, curiosidades, dados estatísticos. Lembre-se de aniversários, mande um mimo. Construa pontes, não muros. O outro agente não é concorrência, somos todos irmãos de caminhada”, defende.

A agente de viagens também acredita que a pandemia pode servir para qualificar parceiros. “Una-se a pessoas com a mesma sintonia que você. Repense seu negócio, seus meios de distribuição, seu financeiro, seus custos fixos, trabalhe com poucos, mas bons fornecedores com quem você possa negociar valores monetários e humanos. Com quem possa atravessar a crise de mãos dadas, não de mãos abanando”, crava.

Para ela, após a pandemia, os turistas irão valorizar conceitos como solidariedade e bem-estar, além de rever hábitos de consumo e ter mais responsabilidade nos destinos. “Terão a postura de um morador temporário e não de um gafanhoto predador, fugirão do overtourism e passarão a apoiar a assessoria do agente de viagens. Muita gente ficou na mão durante a pandemia por ter comprado de OTAs, chegou a hora de o agente mostrar seu valor”, finaliza.

NO MUNDO DO TIMESHARE

Localização, serviços e fidelidade no longo prazo são algumas das características do conceito de timeshare. A modalidade tem cerca de 180 mil famílias associadas no Brasil. Com a pandemia, mais 85 de viagens foram reagendadas, além disso, novas vendas a partir do terceiro bimestre e, em especial para 2021, se destacam.

“A partir do momento em que você tem uma base de cliente já fidelizada, a retomada é mais rápida porque ele confia no seu produto. A propriedade compartilhada ajuda muito nesse momento em que você precisa de uma ocupação para acabar com a sazonalidade. Teremos oportunidade sim, mas o timeshare não é a resposta para qualquer caso”, pontua Fabiana Leite, líder de Operações da RCI.

Segundo a executiva, 80% das remarcações internacionais forma mantidas. Há ainda a crença no turismo nacional e nas viagens de carro em curta distância e com o estabelecimento sanitário das viagens de longa distância, haverá a retomada da demanda internacional.

“O que nos favorece é que o brasileiro viaja muito nacionalmente. Em 98% das vendas realizadas em propriedades compartilhadas aqui no país, o comprador é do Brasil. Em comparação ao mercado exterior, o mexicano depende no americano, o americano do europeu e nós não temos isso”, afirma.

Conteúdo publicado originalmente na edição de maio do Brasilturis Jornal

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