Turismo é de humanas ou exatas?

Um profissional do turismo deveria dominar as distintas ciências

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A Antiguidade Grega e o Renascimento Italiano produziram mentes excepcionais que causam espanto até hoje nas grandes inteligências contemporâneas. Pitágoras, além de excelente matemático, era filósofo e também poeta. Michelangelo, além de escultor, dominava a pintura, arquitetura e engenharia. Seu grande rival, Leonardo da Vinci, entendia profundamente de anatomia humana, pintura, geologia e até física.

Se hoje os gênios são menos multidisciplinares, não é responsabilidade dos céus, de mutações genéticas ou da alimentação. Trata-se de um problema de mindset, ou no português mais básico, paradigma. Não são poucas as piadas e a burra competição entre ciências exatas, biológicas e humanas. Gabam-se os engenheiros de dominarem a lógica, desprezando os aspectos subjetivos da humanidade. Humanistas acham divertido não entenderem patavinas de números e assumem com tranquilidade o clichê de que podem se virar no mundo fazendo artesanato.

Tal separação do conhecimento se deu na época iluminista, gerando muitos especialistas e pouquíssimos generalistas. Mesmo as grandes discussões polarizadas nos dias de hoje têm raiz na época de Diderot. Tudo foi compartimentalizado, e os elos, naturais na vida real, rompidos nas pesquisas acadêmicas.

Um profissional do turismo deveria dominar as distintas ciências. Dá vontade de chorar – e isso não é abusar do lugar comum – quando jovens candidatos são entrevistados em processos seletivos para atuar em nossa indústria. A principal resposta para a célebre pergunta “por que escolheu o turismo?”  é a triste resposta “porque amo viajar”. Quem ama viajar pode ser um excelente turista, mas não necessariamente será um bom turismólogo.

Poucos profissionais dominam idiomas estrangeiros e muitos nem mesmo conseguem se expressar bem na nossa língua. Têm dificuldades com planilhas e contas e na arte de relacionar-se. Pouquíssimas lideranças do nosso setor são formadas em turismo. A maior parte vem de cursos de engenharia, direito e administração. E não é por conta da falta de tradição dos cursos de turismo, porque mesmo os jovens que se sobressaem no mercado vêm das faculdades renomadas, nas quais números e lógica são tratados com deferência.

O resultado é um prejuízo enorme para as empresas e para o turismo brasileiro. Conversando com um amigo advogado que dirige uma operadora, percebi que um agente de viagens deveria ter especialização em logística. Se no passado os turistas abusavam de circuitos ou destinos simples e únicos, hoje as viagens são muito mais complexas. Há quem aproveite uma ida para a Índia, para conhecer Nepal e Butão. Outros querem viagens complexas que envolvem quatro ou cinco cidades em países diferentes pela África ou América do Sul.

Mesmo os viajantes mais experientes compram as passagens aéreas sem pensar em todas as questões logísticas dos voos. Esse amigo me contou que um cliente muito rico decidiu eliminar o fee da agência, emitindo ele mesmo as passagens entre Frankfurt, na Alemanha, e São Paulo. O voo internacional ele comprou com milhas e, um trecho interno, com companhia low cost, via internet. Fez as contas e comemorou a economia de pouco mais de 200 dólares.

O problema é que o voo interno de volta atrasou e impactou o voo transoceânico, de outra empresa e em reservas distintas. A pretensa economia de 200 dólares tornou-se um gasto imprevisto de 2 mil dólares. Faltou a esse viajante fazer os cálculos que um bom agente de viagem domina: incluir uma folga para atrasos, tempo de saída do avião, tamanho do aeroporto, retirada de bagagem, imigração.

Logística fez de pequenos negócios grandes empresas globais. Saber otimizar recursos, ler e interpretar dados estatísticos é disciplina básica para qualquer gestor.

São muitos os obstáculos que nossa indústria precisa vencer. Alguns são externos e dependem do poder público. Mas outros são intrínsecos. E dois dos maiores deles têm a ver com a ótica sob a qual olhamos nossa indústria. Nosso negócio não é diversão, embora possa ser divertido. É um setor tão sério quanto o petroquímico e o bancário.

Tampouco o agente de viagem é um turista que ajuda outro turista. Ele é um engenheiro de viagem. Tem de dominar logística, finanças, geopolítica, português, inglês e relacionamento humano. Merece mais respeito.

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