Turismo LGBT+: Especialistas debatem desafios e boas práticas

Turismo LGBT+
Jorge Souza, Alex Bernardes, Ricardo Gouveia e Catalina Galvis participaram do bate-papo promovido pela WTM

Inovação e boas práticas em turismo LGBT+ foram os temas escolhidos pela WTM Latin America para um webinar focado neste segmento. O encontro reuniu representantes do poder público, entidades associativas e da iniciativa privada para ressaltar a importância de derrubar mitos que ainda persistem no imaginário coletivo em relação a esse perfil de viajante e alavancar os negócios.

“O turista LGBT+ não é somente o homem de 25 a 50 anos, de classe A e B que gosta de música eletrônica. Temos o mercado lésbico que é muito forte e pouco explorado, o destination wedding e também há as viagens em família, com diversas composições e incluindo os aliados, que são os amigos e familiares heterossexuais que embarcam juntos”, pontuou Ricardo Gomes, presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil.

Para ele, um dos desafios aos agentes de viagens é pensar em como criar produtos que atendam a esses grupos compostos por um núcleo LGBT+ e outro heterossexual de forma a agradar os dois perfis. “Customização é de suma importância”, reforça. Pelo lado do mercado, Jorge Souza, gerente de Marketing e de Novos Negócios da Orinter Tour & Travel, destacou a consultoria do agente de viagens como um diferencial importante.

“LGBT+ e heterossexuais têm os mesmos anseios de viajar. Todos querem conhecer Bonito, Paris, Maldivas, Cartagena… Nesse ponto, a experiência do operador na seleção de produtos seguros, com políticas inclusivas bem definidas, é essencial para que a viagem transcorra de forma segura”, defende Souza, reforçando que a Orinter trabalha somente com agentes de viagens e não vende ao consumidor final.

À frente do departamento LGBT+ da operadora, ele também destaca o investimento em produtos adequados ao público da Melhor Idade, às viagens de famílias compostas por núcleos distintos e ao segmento Mice. “Festivais de música e eventos esportivos têm crescido muito e podem estimular grandes empresas a promover viagens de incentivo voltadas aos colaboradores LGBT+. Há um longo caminho a ser explorado”, resume.

Souza também citou o trabalho de inclusão feito por estados brasileiros – destacando os exemplos de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco – e adiantou que a Orinter vai trabalhar com pacotes para participação em Paradas do Orgulho em diversos destinos do globo em 2021.

Políticas públicas e novas frentes de negócios

Ter uma base legal e o comprometimento da esfera pública também são pontos essenciais para o desenvolvimento desse segmento. Nesse sentido, a Colômbia tem liderado diversas iniciativas para atrair e acolher o viajante LGBT+, se tornando um case no continente. “O tema está na agenda do governo, que reconhece a importância desse perfil de turista , e os avanços em termos legais nos trazem uma vantagem enorme”, explica Maria Catalina Galvis, assessora de Turismo da Procolombia no Brasil.

Aprovado em 2016, o casamento homoafetivo, por exemplo, abriu novas frentes de negócios para o turismo no país. Destinos como Cartagena se tornaram cenários bastante procurados por casais para destination wedding e lua de mel. A Procolombia lidera as ações desde 2017 e trabalha em parceria com a corte constitucional para garantir cada vez mais direitos à comunidade LGBT+ em relação a benefícios trabalhistas, inclusão e no combate à discriminação.

Esse trabalho contínuo, aliado à oferta diversa que atende aos anseios dos viajantes, resultou na qualificação do país como o Melhor Destino LGBT+ da América do Sul, em 2018. A Colômbia concorre novamente, em 2020, ao título concedido anualmente pelo World Travel Awards. “Não foi uma tacada de sorte, mas um trabalho estratégico e coordenado”, pontuou Alex Bernardes, diretor comercial da revista ViaG e idealizador do Fórum de Turismo LGBT do Brasil, que acontece entre 23 e 27 de novembro, em ambiente online.

A aliança com a iniciativa privada é alicerçada por um guia profissional desenvolvido pelo governo, com base em uma consultoria prévia e nos resultados de estudos que traçaram o perfil do turista LGBT+ na Colômbia. “Essa é nossa bandeira de trabalho e a forma de orientarmos os empresários a entender as necessidades desse turista para recebe-lo de forma adequada e profissional”, resume Catalina.

A Procolombia também trabalha com capacitação e participa de eventos segmentados para destacar sua oferta. “Buscamos treinar os empresários em relação às tendências e estamos trazendo cada vez mais ferramentas, como um vídeo para promover todos os destinos LGBT+ na Colômbia que já está pronto e será apresentado ao mercado brasileiro, com inclusão de legendas em português, durante o Fórum”, finaliza.

Em território nacional, Gomes informa que a Aliança Nacional LGBTI está desenvolvendo um manual de boas práticas que terá um dos 24 fascículos dedicado exclusivamente ao turismo; os demais abordam temas como saúde, cultura e direitos, entre outros. O material vem sendo preparado por um grupo diverso – incluindo acadêmicos, pensadores e pessoas de mercado – e contém 100 páginas, sendo 30 de contextualização sobre a comunidade LGBT e 70 com informações relacionadas à indústria das viagens.

Potencial do segmento e comportamento no pós-pandemia

Ricardo Gomes embasou sua fala em relação ao potencial desse segmento com números obtidos em pesquisas recentes. A primeira, realizada pela Associação Internacional de Turismo LGBT+ (IGLTA), focou na intenção de viagem desse público no pós-pandemia. Os 2.338 brasileiros ficaram acima da média global, criada com base no retorno de 14.648 respondentes, em quase todos os quesitos.

Já o estudo desenvolvido pela consultoria OutNow e divulgado na WTM London de 2018 coloca o Brasil como segundo maior mercado para o turismo LGBT+ em termos de negócios, com US$ 26.8 bilhões em movimentação financeira. Os Estados Unidos lideram esse ranking, com US$ 63,8 bilhões. “Segundo a Organização Mundial do Comércio, se a comunidade LGBT se unisse para formar um único país, ele seria a quinta economia do mundo”, acrescentou Alex Bernardes.

Por outro lado, os números da OutNow mostram que o Brasil está na penúltima colocação – atrás apenas da Itália – em termos de crescimento ano a ano. Enquanto os negócios subiram 2,2% na média global de 2017 para 2018, o País registrou apenas 0,8% de crescimento no mesmo período. “Temos muito espaço para crescer”, finaliza o presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT+, entidade que completará 11 anos de existência no próximo dia 18.

Leia também:

Turismo LGBT+: 64% dos brasileiros podem viajar em 2020; cruzeiros se destacam

Fórum de Turismo LGBT do Brasil confirma edição virtual em novembro

Conheça ações e legados LGBT friendly do Mato Grosso do Sul

Deixe uma resposta