Turismo LGBT+: 64% dos brasileiros podem viajar em 2020; cruzeiros se destacam

Outubro e dezembro são os meses mais populares; analista comenta que restrição internacional pode trazer oportunidade para reposicionar produtos para o último trimestre

Turismo LGBT+ pós-pandemia
LoAnn Halden, vice-presidente da IGLTA, participou da conferência

A Associação Internacional de Turismo LGBT+ (IGLTA, da sigla em inglês) divulgou os dados de uma pesquisa feita com 15 mil viajantes sobre tendências do Turismo LGBT+ pós-pandemia. As entrevistas foram realizadas em todo o mundo, entre 16 de abril e 12 de maio, e os resultados globais renderam a matéria de capa do Brasilturis Jornal de junho.

Hoje, a IGLTA destacou os resultados do Brasil, segundo mercado em número de participantes – atrás apenas dos Estados Unidos – com 2.330 respostas. Dois terços (64%) dos entrevistados que vivem no País afirmaram que poderiam viajar antes do final de 2020 por motivos não essenciais, contanto que haja protocolos de segurança globais consolidados. Os meses mais populares na enquete foram outubro e dezembro.

A apresentação foi conduzida por Clovis Casemiro, coordenador da IGLTA no Brasil, e Alex Bernardes, diretor do Fórum de Turismo LGBT do Brasil, com análise de Mariana Aldrigui, Doutora em Turismo Urbano, professora da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho de Turismo da Fecomercio SP, e Ricardo Gomes, presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil.

LoAnn Halden, vice-presidente da Comunicação da IGLTA global, participou da conferência e explicou que a ideia da pesquisa é confirmar a percepção com dados concretos. “O Brasil é muito importante para a associação e uma das razões para conduzirmos essa pesquisa é comprovar a lealdade e a resiliência desse viajante para mostrar como ele é importante para a indústria global de viagens na retomada”, informa.

turismo LGBT+ pós-pandemia
Dados mostram confiança do viajante LGBT+ na retomada

Outros destaques foram a fidelização do viajante LGBT+ em relação aos destinos: 41% dos entrevistados disseram que não irão trocar o local escolhido para viajar e 27% se mostraram indecisos em relação à escolha futura. Como já era previsto, metade dos entrevistados (50%) optam por roteiros curtos, com voos de até três horas; 36% optariam por voos de média duração (até seis horas) e 30% afirmaram que poderiam realizar voos com mais de seis horas de duração.

Os participantes destacaram alguns destinos nacionais que têm preferência do viajante LGBT+: Rio de Janeiro, São Paulo, Guarujá, Socorro e São Roque (SP), Juiz de Fora (MG), Bahia, Gramado (RS), Bonito (MS) e Pirenópolis (GO). Presente à apresentação, Bruno Giovani, presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur), destacou os trabalhos recentes realizados que destacam o potencial de Natal (RN) para o segmento.

Restrições no exterior: O lado bom

Para Mariana, as oportunidades vão além do potencial. “Com as recentes restrições para a entrada de brasileiros na Europa e Estados Unidos, talvez Argentina e Chile, esse grupo de viajante vai selecionar destinos, produtos e experiências mais caras e ativar essas economias. O que para muitos empresários parecia momento de jogar preço para baixo, pode ser oportunidade de subir um ou dois degraus e reposicionar o produto para último trimestre de 2020. O foco nesse segmento dá uma oxigenação diferente em termos de reposicionamento de produto”, orienta.

Gomes destaca que a Câmara de Comércio LGBT+ vem trabalhando com a sensibilização de destinos para recepção ao viajante desse segmento. “Além de personalização, muitos destinos estão começando a se preparar. O interior do estado de São Paulo, por exemplo, vem criando produtos específicos para atrair esse turista. Outros estados podem aproveitar o período para fazer essa lição de casa”, diz. Ele prevê um grande Réveillon e acredita que é um bom mercado que se abre no momento.

Entre os respondentes, 31% disseram que se sentem confortáveis em fazer viagens internacionais e 44% afirmaram que optariam por ficar em hotéis e resorts. “Esse grupo é gregário, viaja para encontrar amigos, por isso o equilíbrio entre as respostas de optantes por hospedagem em resorts e outros que ficam em apartamentos que, não necessariamente, são alugados. Nesse universo, empreendimentos com serviços podem se destacar”, diz Mariana. Em relação aos eventos, Casemiro reforça a Global Pride, que acontece de forma remota em todo o planeta em 27 de junho, com o mote “exista, persista, resista” e apoio da IGLTA.

turismo LGBT+ pós-pandemia
Resultados da pesquisa IGLTA trazem dados relevantes do viajante brasileiro

Eles também categorizaram como “provável” ou “muito provável” a possibilidade de participar de eventos LGBT+ (41%), fazer viagens em grupo (32%), embarcar em cruzeiros (21%) e visitar parques de diversões (16%). “Existe interesse significativo dos brasileiros em cruzeiros, temos confiança maior do que outros mercados”, diz Casemiro. Em relação aos parques, Bernardes citou o Hopi Pride, evento realizado no Hopi Hari ha três anos, que teve grande adesão do público LGBT+. “Os parques deveriam investir em ações para esse público”, diz.

“As respostas mostram a disposição desse segmento de reencontrar as pessoas e estar juntos por uma causa, seja a LGBT+ ou o Turismo, o fato de viver e aproveitar a vida. Isso revela a força do segmento e o quanto esse público responderá positivamente a ações promocionais e de fidelização, oferta de experiências novas, adequadas ao público. Destinos devem reforçar esse investimento de captação de clientes.”

Mariana Aldrigui
turismo LGBT+ pós-pandemia
Mercado brasileiro apresentou o resultado mais significativo em relação à confiança para voltar a embarcar em navios de cruzeiro; resultado da pesquisa global foi 16%

Turismo LGBT+ pós-pandemia: Perfil dos respondentes brasileiros

No Brasil, 90% dos entrevistados se identificaram como gays; 8% bissexuais e 2% outros. A baixa participação de lésbicas, segundo Casemiro, é histórica nas pesquisas. Segundo Mariana, isso tem uma explicação lógica. “Todo mundo está bombardeado por pesquisas, então as respostas dependem de engajamento para participar e gerar dados. Gays assumidos ocupam esse espaço, enquanto as mulheres não sentem tanta necessidade de fazer essa afirmação quando se trata de viagem. Duas mulheres viajando juntas não sofrem tanto preconceito quanto dois homens na mesma situação”, diz a professorea doutora.

O coordenador da IGLTA Brasil explica que a pesquisa não teve cunho financeiro. Mariana acrescenta que os viajantes LGBT+ que mantiveram seus rendimentos acabando fazendo uma poupança compulsória durante a pandemia e devem investir esse valor em viagens após a pandemia. Gomes sugere às agências e operadoras que observem o comportamento de seus clientes fiéis em relação aos destinos e desenvolvam novas propostas para esses viajantes na retomada.

Agências e operadoras podem usar os dados da pesquisa como base para atrair viajantes do segmento. “Empresas especializadas podem fazer a assessoria de produtos. A gestão de destinos que não têm profissionais capacitados acaba sendo mais lenta, enquanto empresas e associações especializadas podem conseguir resultados de curto prazo”, diz Mariana. “Dados da Organização Mundial de Turismo afirmando a rentabilidade do segmento, junto com as informações de disposição do brasileiro em viajar permitem impulsionar as viagens que assim que houver liberação sanitária. Empresários antenados devem ‘puxar o cordão’ para preparar parceiros e cobrar o poder público em termos de capacitação “, finaliza Gomes.

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