Turismo & BMWs; reinventar é necessário

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Por Enzo Avezum*

Casamentos arranjados ou por amor; temperos que não se misturavam, mas que hoje enchem nosso cérebro de felicidade com os novos sabores, pessoas que não se atraiam e agora não se largam. Um projeto, para dar certo, requer pesquisas, cálculos, conversas, trocas de experiências e por aí afora.

Arrisco dizer que a observação dos movimentos pelo mundo, fora de nossos infinitos particulares, podem ser equiparados àquela última garfada em nossas refeições. Pelo menos para mim, esta última porção é milimetricamente calculada em quantidade e na mistura de sabores daquilo que estou comendo para, assim, fixar na memória o imperdível gosto da combinação de um bocado de tudo que havia quando o prato estava cheio. E quem bem me conhece sabe; não me peça o último pedaço, o último gole e, tampouco, a última garfada.

Lembro-me de Barbra Streisand, no filme O Espelho Tem Duas Faces. Durante um jantar, a personagem discorre exatamente sobre essa pratica: a última garfada, ou, the last bite. Enquanto comemos vamos prestando atenção em diferentes texturas, cores e sabores à nossa frente (supondo que você não está com o rosto enterrado no celular, publicando foto da comida e esperando, ansioso, pelos comentários – eu ainda quero entender esse fenômeno).

E, enquanto vivemos nossa vida, um turbilhão de coisas acontece. Quem poderia prever o casamento entre uma grande marca de carro e o universo do turismo? Não é muito difícil. No início dos anos 2000, a Volvo chegou perto. Clientes norte-americanos que compravam um carro da marca recebiam uma passagem aérea para viajar até a Suécia, buscar seu objeto do desejo e dar os toques finais na personalização.

De quebra, o comprador conheceria Gotemburgo e o que mais lhe desse na telha sem, no entanto, haver um roteiro criado especificamente para esse fim. Entretanto, para que a ideia da montadora desse certo foi preciso acertar ao menos um bom acordo para tarifas aéreas e parcerias com hotéis da cidade-sede da empresa para ter os felizes compradores em “casa’’. Ou seja, parte da cadeia do turismo foi movimentada.

Então, eis que surge a BMW, em uma parceria com a tradicional operadora inglesa Butterfiled & Robinson lançada para o consumidor norte-americano. E para o quê, mesmo? Para alavancar mais vendas proporcionando vivências. Ao escolher o modelo, o comprador é apresentado a seis opções de roteiros pelas estradas da Europa, todos com duração de até seis dias. Nestes programas já estão inclusos hotéis, reservas em restaurantes, dicas e todo o apoio.

O comprador viaja a Munique para retirar o carro e é nessa cidade alemã que a aventura começa. Ao chegar à fábrica o carro é conferido e entregue para que o cliente inicie a road trip dirigindo seu próprio carro. Ao final, ele entrega o veículo em um dos doze pontos de entrega selecionados previamente para que seja limpo e despachado diretamente para a casa do comprador, nos Estados Unidos. Exagero? Não. Acredito em um senso de observação apurado de alguém de dentro da BMW que enxergou demanda neste movimento de turistas abastados que buscam por experiências diferentes, sem precisar reconstruir o muro de Berlim.

Voltando à temática hotelaria x AirBnb. De novo? Sim, de novo. Exponho uma situação cotidiana relacionada à insatisfação dos hóspedes – especialmente entre os viajantes de negócios – em relação aos serviços prestados por empreendimentos hoteleiros. Após um longo voo, eles chegam aos hotéis tarde da noite em busca de um banho, comida bem feita e saborosa (sem precisar ter estrelas Michelin) e de uma cama confortável para descansar e enfrentar a jornada de trabalho do dia seguinte. Mas, não com pouca frequência, o que encontram é um serviço de quarto totalmente equivocado (com sanduíches sabor plástico e água quente à qual chamam de sopa, além de outras poucas opções nada atrativas, nutritivas ou saborosas).

Isso porque alguns hotéis insistem em desativar o atendimento após a meia-noite. Quem sai ganhando? Empreendimentos que, por meio de pesquisas realizadas com viajantes de negócios, detectaram altíssimo índice de reclamações neste quesito. Felizmente (ou infelizmente) mais uma vez o exemplo vem de cima, bem a de cima. Hotéis como Dorchester, de Londres; diversas unidades de Four Seasons ao redor do mundo; e o Cosmopolitan, de Las Vegas, entre outros, entraram em campo e corrigiram a falha. O resultado gerou cardápios para tarde da noite com opções saudáveis, atrativas e, o melhor de tudo, saborosas.

É mais fácil gritar que plataformas como AirBnb estão depredando o mercado do que fazer um contra-ataque usando observações e pesquisas. Afinal, dá trabalho colocar tudo dentro do cérebro, filtrar e criar saídas originais que garantem bons resultados.

Ou vocês acham mesmo que a maioria de nossos turistas prefere ficar em uma casa ou cômodo alugado a ficar em um hotel só por causa do preço? Acham que todos os que viajam querem arrumar cama, limpar banheiro, fazer comida e supermercado enquanto estão de férias?

Hotéis, agências de viagens e operadores: uni-vos! Com cérebro e boa vontade, com senso de observação e ideias positivas. O seu bolso agradece e ajuda o brasileiro a viajar mais feliz e confiante.

Ótima semana!

 

*Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Ele escreve no portal do Brasilturis às terças-feiras. Contato: [email protected]

 

 

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