Turismo rodoviário: muito além do pedágio

turismo rodoviário

Muita gente não sabe, mas o famoso guia que distribui estrelas para os melhores chefs do mundo nasceu de uma iniciativa rodoviária no início do século passado. Foi com a intenção de vender mais produtos que os fundadores da Michelin, uma das mais famosas marcas francesas, lançaram um livro com os melhores endereços gastronômicos da França. Assim, as pessoas poderiam circular bastante para comer e precisassem trocar pneus com mais frequência.

O guia Michelin foi uma das primeiras e mais bem sucedidas ações de marketing de conteúdo, segundo especialistas. Mas não foi apenas a empresa e os pequenos estabelecimentos de gastronomia que lucraram. Pequenas pousadas, lojas e destinos no entorno dos locais citados também viram crescer o número de frequentadores. Essa é uma das principais vantagens do turismo rodoviário.

O segmento é muito forte na Europa e Estados Unidos. Aqui no Brasil, apesar dos pesares, tem apresentado importante desenvolvimento. E não é de hoje, já que a mais poderosa e famosa marca do turismo nacional começou com a oferta de viagens rodoviárias para metalúrgicos de Santo André (SP), na década de 1970.

Até o início de 2020 os números eram animadores. E, ainda que não existam dados consolidados, a pandemia de covid-19 pode ter poupado as viagens por rodovias, tendo contribuído para um fenômeno inédito: pela primeira vez na história recente da hotelaria, as pequenas propriedades com vocação pro lazer, de fácil acesso pelas estradas,  tiveram recuperação mais rápida que aqueles com identidade corporativa. Isso porque, a imensa maioria das pessoas, em isolamento social, resolveu dar suas escapadas, de carro, para pequenos hotéis localizados a até 300 quilômetros dos grandes centros urbanos.

Além do desejo de mudar de ares, o medo de subir em um avião, foi a razão maior de tal fenômeno.  Mas, se a pandemia promoveu uma reviravolta que veio para ficar nos hábitos de consumo e nos serviços dos brasileiros – como maior uso do ensino à distância (EAD) e as políticas de home office – ela pode ter favorecido algumas reflexões, como o potencial relacionado ao turismo rodoviário.

Há, sem dúvida, um grave problema conceitual. Muita gente reduz essa modalidade de viagem àquelas feitas por ônibus, esquecendo-se que qualquer transporte por terra é rodoviária!  É possível incluir as viagens de carro, vans, bicicletas, motorhome, a cavalo e a pé.  Nessa categoria, portanto, encontramos os grupos de motociclistas apaixonados por Harley Davidson, as excursões de ônibus na terceira idade, o casal que vai de SUV ao litoral para surfar e até os romeiros e peregrinos.

Não há dúvidas do potencial imenso do turismo rodoviário, inclusive no desenvolvimento de pequenos distritos e cidades e no fomento de novos empreendedores. Entretanto, o modal esbarra em diversos obstáculos. O primeiro, obviamente, é o estado de nossas estradas. Muita gente credita os resultados do turismo à falta de promoção, mas posso assegurar que o pior vilão ainda é a infraestrutura. O que parece um paradoxo, uma vez que as políticas do Estado brasileiro sufocaram as ferrovias e hidrovias nos últimos 70 anos, mas não deram condições mínimas para melhor rodagem.

Não apenas buracos, mas problemas de segurança, iluminação e até fiscalização deficitária.

Mas quem já se arriscou -sim, o verbo arriscar é altamente conveniente – cruzar estados brasileiros percebeu que, além do valor desproporcional dos pedágios, falta investimento em proporcionar experiências encantadoras. Diferentemente do que ocorre em muitos outros países, as paradas das viagens rodoviárias ainda são vivências difíceis.

Fiz muitas viagens de carro pela Europa, enquanto diretor-adjunto da Atout France. Além de seguras, elas proporcionavam experiências únicas. Uma pousada cujo prédio datava do século XVI, um restaurante com uma especialidade de centenas de anos, pequenas lojas com produtos locais e paisagens instagramáveis.

Neste sentido, não temos do que reclamar. Lugares lindos há aos montes, sobretudo nas viagens pela costa brasileira. Ou em rotas históricas e temáticas, ligadas à cultura e aos costumes brasileiros. Mas não se acha com facilidade bons endereços para comer, dormir e descansar entre uma capital e outra. Já fiz viagens rodoviárias até o sul de Santa Catarina e até Salvador, partindo de São Paulo. A experiência é digna de um estudo antropológico, mas antropologia é algo que os turistas não têm interesse em suas jornadas.  Viajante quer conforto, diversão e boa comida, respeitando a lei do custo-benefício.

Para rodarmos tranquilamente, é preciso cumprir quatro etapas: melhoria na infraestrutura das rodovias, união de destinos na criação de rotas – gastronômicas, religiosas, históricas ou ecológicas -, investimento dos pequenos empreendedores em experiências autênticas e charmosas e, finalmente, promoção.  É possível e os resultados são garantidos. Mas quem está disposto a pagar esse pedágio?

Imagem de Joshua Woroniecki por Pixabay

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