Turismo rural e desenvolvimento local

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A realidade do “novo rural brasileiro” vem incorporando a prestação de serviços às tradicionais práticas agrícolas, proporcionando novas fontes de renda para a população. Entre as atividades desenvolvidas no meio ressalta-se o turismo rural, pelas suas características de envolvimento da mão de obra familiar e possibilidade de agregação de valor aos produtos agropecuários.

A abordagem deste tema relacionado ao desenvolvimento sustentável local é importante pela relevância da visão territorial com base local de planejamento e gestão da atividade. Embora os estudos acadêmicos apresentem muitas expressões utilizadas para designar termos semelhantes, “turismo rural” é aqui entendido como “o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade”, segundo definição do Ministério do Turismo.

A importância da conceituação extrapola a face teórica e permeia inúmeras formas de manifestação, estando assim diretamente relacionada com o fator da gestão do negócio. No turismo rural, a prestação de serviços turísticos deve conviver harmoniosamente com as práticas agrárias e com o modo de vida tipicamente rural. Além disso, orienta gestores públicos na concepção de políticas que contemplem determinado segmento em prol de resultados particulares, no âmbito do turismo sustentável.

Neste contexto, o turismo rural pode ser visto como importante vetor de desenvolvimento sustentável, desde que suas premissas conceituais sejam seguidas. Porém, paradoxalmente, seu sucesso é um dos principais problemas potenciais para a sustentabilidade dos destinos turísticos. Se empreendido de forma não planejada, o crescimento resultante do sucesso pode descaracterizá-lo em prol de ampliações e profissionalização demasiada, o que poderia impactar negativamente o ambiente natural, excluir a comunidade local e desfigurar o contexto de ruralidade.

A gestão tem de ser desenvolvida com muita sensibilidade e responsabilidade para que o limite máximo de crescimento da atividade possa ser identificado antes que seja ultrapassado, o que geraria, além dos impactos naturais, o descontentamento do público que vinha sendo contemplado e a desagregação da comunidade receptora. Parcerias locais compõem outro importante aspecto para o desenvolvimento do turismo rural e na transformação de atrativos em produtos turísticos, na medida em que os interessados de uma mesma região podem unir-se formatando roteiros com atrações complementares.

Muitas são as experiências bem-sucedidas por todo o País onde proprietários rurais e outros empreendedores com interesses em comum formam grupos para facilitar e promover o incremento da atividade, e assim fortalecem a governança local em prol do turismo rural. Essa articulação com base local é fundamental para possibilitar uma melhor convergência de interesses que contemplem as reais necessidades da comunidade e atores locais; isso motiva o engajamento em torno de uma causa que tem como objetivo estimular a melhoria da qualidade de vida das pessoas que vivem ou trabalham em um destino turístico potencial ou consolidado.

É importante ressaltar que na maioria das localidades onde se desenvolve o turismo rural a iniciativa de sua implementação está associada à busca, por parte dos moradores e proprietários rurais, por formas de viabilizar financeiramente suas propriedades. Isso não significa que, após seu início, a nova atividade não possa transformar-se em algo que seduza, envolva e estimule os empreendedores. Os casos de sucesso estão relacionados a um profundo envolvimento emocional entre o empreendedor e a atividade turística.

Sob outro aspecto, vários casos práticos demonstram que este segmento do turismo pode, a partir de um contexto local, originar-se e gerar consequências positivas a partir de duas vertentes diferentes. A primeira parte da necessidade de desenvolver mais uma atividade capaz de aumentar os rendimentos da comunidade e promover a valorização de sua própria história e cultura. Pode ser caracterizada como uma iniciativa baseada em interesse da “oferta”. A segunda pode ser caracterizada pelo interesse da demanda turística por conviver com a ruralidade, vivenciando seus costumes, tradições e modo de vida.

Por fim, e entre aspectos positivos e negativos, parece haver um grande consenso de que o turismo rural, quando bem desenvolvido, contribui para diversos aspectos do desenvolvimento local:

  • O resgate e a valorização da autoestima das pessoas, que passam a ver sua cultura, seus fazeres e saberes como fatores capazes de instigar o interesse, e até a motivar um fluxo de visitantes e turistas a ver e vivenciar o que é cotidianamente realizado;
  • A melhora na relação entre pessoa e lugar, estreitando os canais de relacionamento e os vínculos com determinado território através do desenvolvimento de atividades de interesse comum, com forte valorização das características da localidade;
  • A força do turismo como instrumento capaz de proporcionar um novo olhar tanto à forma de estímulo à melhoria da qualidade de vida, quanto à possibilidade de agregação de valor (e mesmo valoração) às atividades tradicionais, à beleza cênica a ao patrimônio intangível;
  • O empreendedorismo, envolvendo e estimulando direta ou indiretamente pessoas da comunidade a atuarem proativamente na atividade turística, ajudando-as, em muitos casos, a na reinserção na dinâmica sócio cultural local.

Vamos em frente!

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