Turismo selvagem?

Existe uma ingenuidade ainda pior em nossa indústria do que acreditar que toda forma de turismo vale a pena: a da exploração animal nas viagens

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Por Ricardo Hida

Nada é mais cansativo do que teorias conspiratórias. Embora sejam divertidas em um primeiro momento, elas ficam insuportáveis quando são repetitivas e assumem as culpas pelas más escolhas humanas. Por outro lado, o raciocínio ingênuo, preguiçoso e superficial em uma mente fértil e pouco habituada à leitura pode ser tão perigoso quanto uma teoria da conspiração. A boa intenção, sem reflexão sobre consequências, causa prejuízos irreparáveis. E não são poucas as vezes que isso acontece no Turismo.

Acredita-se, e tenho provas suficientes para concordar, que a indústria de viagens represente uma atividade fundamental na economia do futuro. Ela tem potencial para promover o desenvolvimento sustentável de uma comunidade, a diversidade e o diálogo entre povos; mas também pode ser altamente prejudicial quando não é planejada.

Tomemos como exemplo as praias brasileiras, que já sofrem ao se tornarem esgoto dos balneários e ficam insuportavelmente sujas com o turismo predatório. Outra questão que merece destaque é a nova regulamentação para visitação ao Parque Estadual do Jalapão, que proíbe o uso de drones para filmagens e fotografias nas dunas e impede o banho nas lagoas próximas.

Na maior parte das vezes, esse tipo de iniciativa é capitaneada por apaixonados pela natureza que veem seus templos destruídos pela chegada do overtourism. Esse conceito, embora não seja novo, voltou ao debate quando destinos como Barcelona começaram a debater a criação de barreiras à entrada de um excessivo número de visitantes. Não são poucos os destinos que se arrependeram profundamente de investir mal em estratégias de promoção ao verem seus patrimônios naturais, culturais e históricos sofrerem grandes danos.

Mas existe uma ingenuidade ainda pior em nossa indústria do que acreditar que toda forma de turismo vale a pena: a da exploração animal nas viagens. Há poucas semanas, uma conhecida influenciadora russa postou uma foto abraçada a um urso, naturalmente feroz, mas que se portava com a doçura de um cão guia. Ela escreveu “Nada como amor e cuidado para deixar um urso fofo”. Não foi preciso mais que dois minutos para saber os tratamentos nada amorosos que foram dados para amansar o urso.

Os críticos acusaram a influenciadora de cinismo e conivência com os maus tratos. Prefiro acreditar que seu comportamento foi ingênuo, assim como o de milhões de pessoas que tiram fotos com tigres apáticos na China, sobem em elefantes na Índia, ou passeiam alegremente com as crianças em charretes no interior do Brasil. Não se trata de um texto inquisitório com objetivo de gerar culpa em quem, por ignorância, já participou de atividades que exploram animais. O que não é aceitável é insistir no erro e continuar vendendo ou consumindo esse tipo de experiência. Essa mudança de consciência avança rapidamente e já influencia as novas gerações.

O turismo de observação e contemplativo de animais selvagens em seus habitats deve ser plenamente estimulado. No entanto, aqueles que incentivam a caça e o mau trato aos animais precisam ser combatidos, não apenas por ONGs, mas pelas próprias empresas que promovem e comercializam viagens.

A questão é tão significativa que grandes grifes decidiram abolir a presença de peles de animais em suas coleções e investem em alternativas ao couro. Há ainda o crescimento da hotelaria pet friendly e o aumento de opções sem proteína animal nos cardápios, não só em grandes restaurantes, mas também nas redes de fast food.

É fato que uma mudança significativa está acontecendo no comportamento do consumidor. Em um estudo recente publicado pelo BCG Group, em parceria com Altagamma, a sustentabilidade e o respeito ao meio ambiente e aos animais aparecem como atributos exigidos de uma marca de luxo, assim como tradição, excelência e o caráter artesanal. A consultoria Deloitte também divulgou uma pesquisa mostrando que consumidores de alto padrão exigem das grandes grifes um comportamento ético e o apoio à preservação da natureza.

Erra quem atribui tal comportamento a uma ou outra ideologia política ou, pior, ao modismo. Aliena-se quem acha que tudo não passa de teoria conspiratória. E assume um compromisso com o fracasso quem não encara a realidade e promove mudanças em um novo tempo que pede mais consciência.

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