Unindo o mundo para a recuperação: Cúpula do WTT debate estratégias para o turismo

Cúpula do Conselho Mundial de Viagens e Turismo se reúne em Cancún para primeiro evento presencial desde 2019

Turismo WTTC CÚPULA GLOBAL

*Por Ana Azevedo e Camila Lucchesi

Mais de 600 líderes do setor de viagens e turismo, de diversas partes do mundo, se reuniram no Moon Palace Resort, em Cancún (México) para a reunião global do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, da sigla em inglês). O encontro marca a reestreia das reuniões presenciais da entidade e também entra para a história como um dos primeiros eventos desse porte organizados dentro do setor.

 Testes foram disponibilizados para todos os participantes, além da adoção de protocolos rígidos. Com o tema “Unindo o Mundo para a Recuperação”, a programação incentivou líderes de empresas privadas a dar as mãos aos gestores públicos para garantir a reconstrução do setor o quanto antes. Um componente híbrido garantiu que outros milhares de espectadores pudessem acompanhar a programação de dois dias, que teve foco em compartilhar a experiência de executivos de diferentes setores para lidar com assuntos decorrentes da pandemia.

 Mais do que isso, a entidade apresentou sua visão de longo prazo para atividade, alicerçada em pilares como sustentabilidade e diversidade. De acordo com os dados apresentados por  Chris Nassetta – presidente e CEO do Hilton que, então, também ocupava a liderança do conselho do WTTC e passou o cargo a Arnold Donald, presidente e CEO da Carnival Corporation -, o setor perdeu quase US$ 4,5 trilhões em receita e cortou 62 milhões de postos de trabalho em escopo global.

Gloria Guevara, presidente e CEO do WTTC, acrescenta que esses números fazem da pandemia a pior catástrofe para o turismo, de longe. As perdas projetadas são 18 vezes maiores que a crise econômica mundial. Nassetta reforçou a importância da vacinação e aconselhou que os líderes por todo o mundo sigam pressionando os governos para a reabertura segura dos destinos, pautada pelas soluções de saúde propostas pelos protocolos e pelas facilidades trazidas pela tecnologia.

“Nosso setor precisa liderar a defesa de reabertura de fronteiras internacionais para garantir segurança e consistência em cada etapa da jornada do viajante conforme progredimos. Nós podemos colocar as pessoas em movimento, só temos de ser inteligentes e coordenados nessa execução”, disse.

Essa necessidade de alinhar estratégias e unir forças pelo bem comum foi ressaltada em diversos painéis. O ponto, abordado por diversos painelistas, é que a falta de unidade nas políticas mundo afora vem trazendo incerteza e confusão entre os viajantes, atributos que prejudicam a recuperação global. Abordagem com foco em ciência e uniforme foi citada por Donald. “A percepção do risco é uma grande barreira que precisa ser superada”, acrescentou Rita Marques, secretária de Turismo de Portugal.

MUDANÇA DE ESTRATÉGIA

Harry Theocharis, ministro de Turismo da Grécia, detalhou a reabertura em fases iniciada pelo país europeu para atrair viajantes internacionais que consigam comprovar a vacinação ou apresentem teste de PCR negativo. A estratégia de considerar a abordagem geográfica, que considera a origem do passageiro, foi substituída pela seleção com base na análise do eventual risco individual que cada passageiro apresenta.

Outros cases vieram da Espanha, que vai iniciar um piloto de certificado digital de vacinação em todos os 46 aeroportos, com expectativa de reabrir as fronteiras internacionais em junho.  Barcelona, cidade que era atrelada ao overtourism antes da pandemia, se aproveita da pausa forçada para intensificar ações de marketing e gestão, incluindo adoção de ferramentas digitais, que devem ajudar o destino a se livrar de vez das mazelas associadas ao excesso de turistas.

“Quando o visitante chegar, será automaticamente conectado a ferramentas que permitirão saber quantas pessoas estão em cada atração no momento, quais são as medidas de segurança e se há fila para entrada”, explicou Marian Muro, diretora geral do Turismo de Barcelona, durante painel que reuniu grandes líderes ministeriais.

Gilson Machado, ministro do Turismo brasileiro, participou do painel “Como recuperar 100 milhões de empregos”, por videoconferência. Ao lado de Luís Araújo, presidente do Conselho de Turismo de Portugal; Craig Smith, presidente do Grupo Marriott International; e Luis Felipe de Oliveira, diretor-geral do Airports Council International, o debate teve foco na colaboração público-privada para criar uma coordenação internacional dirigida à reabertura de fronteiras.

O ministro destacou o auxílio financeiro aos empreendimentos e ressaltou o potencial do País para atrair mais visitantes nacionais e internacionais aos seus principais destinos. “Conforme a vacinação avança, poderemos retomar nossas atividades e recuperar parte dos empregos perdidos durante a pandemia”, comentou.

A crescente importância do uso de ferramentas tecnológicas – com destaque para a biometria e outros processos touchless – foi destacada como essencial para as viagens em um mundo pós-pandêmico. O WTTC também se comprometeu a trabalhar para um futuro mais inclusivo e sustentável, com lançamento de iniciativas voltadas à equidade de gênero, e anunciou o próximo encontro em Manila, nas Filipinas. As datas serão anunciadas em breve.

LEGADO SOCIAL

O que você está fazendo hoje que realmente causa impacto ao Turismo? Daqui a dez anos, quando olhar para trás, que legado terá deixado? Foi com essas perguntas que Kathleen Mathews, jornalista e embaixadora do WTTC, abriu a agenda do segundo dia de debates.

A programação destacou iniciativas relacionadas aos direitos humanos e ao papel da atividade turística em frear o tráfico humano e a exploração sexual. Norma Aguayo, coordenadora nacional da End Child Sexual Ex Exploitation (ECPAT) para o México, pontuou que é necessário um trabalho conjunto entre governos e as empresas privadas para identificar e tomar atitudes a fim de erradicar tais práticas.

“A indústria do turismo possui força e alcance para atuar em diferentes níveis e parar de vez com a exploração sexual de jovens e crianças. Temos de proteger não só a natureza, mas tambémas famílias e treinar os profissionais dos vários setores para que sejam capazes de agir contra o abuso sexual, a prostituição e o tráfico infantil”, enfatiza.

A valorização do turismo social foi assunto para Fahd Hamidaddin, CEO e membro do Conselho da Autoridade de Turismo Saudita. O executivo acredita que a proteção da cultura local nas comunidades pode ser usada não só para manter viva as tradições, mas também para compartilhá-las por meio da atividade turística.

“Basta olharmos para as tendências, que veremos millennials procurando por sustentabilidade e responsabilidade social, além vivência nas viagens. A tecnologia está roubando empregos em todo o mundo, exceto no turismo, o que é muito bom, porque podemos conciliar experiências ágeis a autenticidade dos destinos, atendendo assim, o turista da geração Millennials e das futuras”, afirma.

O futuro da indústria foi definido como aquele que unirá experiências com responsabilidade social e ambiental, respeitando as culturas, a natureza e os indivíduos de cada comunidade visitada. “Tenho visto muitas pessoas comprando casas em resorts e se mudando, porque lá elas conseguem trabalhar e viver próximo à natureza e com uma infraestrutura de qualidade. O conceito de férias mudou”, ressalta Frank Rainieri, presidente do Grupo Puntacana.

Diante das exigências desse novo perfil, José Azcárraga, do Grupo Posadas, endossa a busca por vivência nas comunidades. No entanto, ele propõe à indústria que pense em soluções de infraestrutura para atender a essa demanda com o menor impacto negativo possível. “Nos últimos meses aprendemos a diminuir o ritmo das nossas vidas e isso será transportado para as viagens”, disse, ressaltando a preocupação com as formas de promover a interação entre turistas e comunidades locais para garantir experiência.

“Não tenho essa resposta ainda, mas pelo menos já sei qual o problema em que tenho de trabalhar”, pontua. A diversidade e inclusão também estiveram em pauta, com a celebração da ProColombia pela inclusão na lista de melhores empresas para se trabalhar. “É importante ressaltar que empoderamento não é só para as mulheres. O conceito significa permitir que o outro mostre o que é capaz de fazer, independentemente do gênero”, enfatiza Aileen Clemente, presidente da Rajah Travel Corporation.

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