Vaca atolada (e não é o prato)

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Certa vez ouvi de um turista alemão: enquanto estiver jovem quero visitar destinos exóticos, longínquos e com pouca infraestrutura. O meu país eu vou conhecer quando estiver velho, com menos paciência para viagens longas e cansativas. Essa visão do turismo sempre esteve presente junto aos viajantes do Velho Mundo. Compreendi melhor tal posição quando trabalhava no turismo francês. A Atout France sabia que os franceses decidem conhecer melhor a França quando aposentados. No caso do Brasil, por outro lado, as viagens para destinos distantes são feitas por adultos entre 40 e 60 anos, geralmente das classes A e B.

Os nossos destinos domésticos são, na maioria das vezes, procurados para viagens familiares de lazer e jovens recém-saídos do Ensino Médio. Obviamente, quando falamos da classe média, o comportamento, graças às facilidades das viagens e à cultura do intercâmbio, tende a se modificar no médio prazo e, possivelmente, a lógica de viagem dos europeus se torne realidade em nosso País.

Começo tal reflexão para falar sobre turismo rural no Brasil. Poucos profissionais conseguem explicar do que se trata. E, por isso mesmo, a quem se destina. Turismo rural pode ser resumido a uma hospedagem em hotéis-fazenda? Ou a visita a uma propriedade rural e um passeio a cavalo? A wikipedia define tal modalidade como “aquela que tem  por objetivo, permitir, a todos, um contato mais direto e genuíno com a natureza, a agricultura e as tradições locais, através da hospedagem domiciliar em ambiente rural e familiar”.

Quais são os destinos no Brasil que se assumem como exemplos de turismo rural? Que hotéis e operadoras são especialistas no segmento? Que ações o Ministério, as secretarias de turismo e a Embratur tomam para promover tal empreitada? Como separar o turismo rural daquele voltado para o vinho, a aventura e o cultural? As associações existentes têm pouca ou nenhuma projeção, o que dificulta enormemente qualquer discussão sobre o tema. Daí o segmento estar no limbo, ou no brejo, junto com as vaquinhas que permeiam o imaginário popular quando o assunto leva o adjetivo rural.

Turismo rural é um importante vetor de preservação e projeção do patrimônio – imaterial, inclusive – de um povo e, por isso mesmo, é considerado altamente sustentável. Valoriza fazendas históricas, arquitetura e a gastronomia local, e ajuda no desenvolvimento de empresas familiares e artesãos. Também, nunca se deve esquecer-se disso, abre a visão de mundo de pequenos povoados com a experiência que o turista traz, além do dinheiro.

Mas a experiência tem de ser autêntica e muito agradável. E é aí que a maior parte dos empreendedores se perde. Foi o caso de uma cozinheira em Trancoso que, dona de uma casa típica do sul da Bahia com um charme inigualável, resolveu oferecer refeições para os forasteiros. Com o aumento do número de turistas, colocou porcelanato em todo o salão, uma tevê de tela plana ao lado dos sanitários e uma geladeira de sorvete Kibon junto ao caixa, enterrando um tesouro. Não que autenticidade seja sinônimo de ‘pobrismo’. Afinal nada é mais decepcionante que fazer a rota da cachaça e não encontrar o mínimo de estrutura para deixar a experiência inesquecível.

Causa-me prazer quando um estrangeiro fica encantado com Embu das Artes (SP) e Tiradentes (MG), mas não sente nenhuma emoção ao pisar nos Shopping Centers mais luxuosos de São Paulo.  As duas cidades nada têm a ver com o clichê nudez-abacaxi-praia pelo qual nosso País é reconhecido lá fora. E são brasileiras, brasileiríssimas. Em Minas Gerais, pude conhecer um sítio onde é possível ordenhar vacas, fazer doce em compota, aprender a plantar uma horta e degustar cachaça local. Levei um francês que quase largou sua vida em Paris para montar um negócio na região. Só não o fez porque percebeu que aquele tesouro teria muita dificuldade para ser valorizado, conhecido e apreciado por nós mesmos, turistas a poucos quilômetros da região.

Já passamos muito dos limites. Quanto tempo esperar para mostrar aos brasileiros o prazer que nossas raízes podem oferecer? É hora de tirar a vaca do brejo e ostentá-la com orgulho. Antes, pode dar um banho e uma escovada, mas sem querer transformá-la em algo que ela não é.

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