Vacina, pé frio e cabeça quente

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Hoje, quando escrevo este artigo, entidades do turismo promovem em suas redes sociais a campanha “Vacina para todos” com posts lembrando que a vacina salva nossa indústria. Neste clima, lembro-me de meu avô que dizia: negócios pedem cabeça fria e pé quente, nunca o inverso.

Se um hoteleiro acha absurdo que um médico, sem nenhuma experiência, dê palpite na administração de um hotel ou resort, por que ele aceita fazer o inverso?  Se a comunidade científica explica que a vacinação é a única saída para combater a covid-19, por que contradizer?

A polarização política e a consequente briga por conta da vacinação atrasará a recuperação do segmento, mais do que a qualquer outro setor da economia, colocando em risco a sobrevivência de empresas e de empregos.

Tudo virou teoria conspiratória. É preciso aceitar e trabalhar para que o maior número de pessoas seja imunizada, o quanto antes. Não importa sua crença pessoal, é preciso trabalhar com cenários reais e, a partir daí, enumerar as razões pelas quais todos nós deveríamos abraçar e exigir uma campanha vacinação em massa.

A primeira delas é a restrição de entrada de brasileiros nos mais diversos destinos internacionais. Israel, por exemplo, está impondo uma quarentena aos brasileiros que chegam ao país. Por outro lado, que turista estrangeiro se arriscará a pisar em nosso País nesse momento, com números tão dramáticos de contágio e mortes?

O segundo aspecto é o comportamento do consumidor. Pesquisas em todo o mundo indicam que as pessoas têm, sim, receio de viajar para destinos mais longínquos.  Não só com medo de serem contaminadas longe de casa, mas de não terem as devidas assistências se apresentarem sintomas depois de iniciada a viagem.

Outra razão importante para a vacinação é a proteção das equipes. Há juristas preocupados, inclusive, com possíveis processos trabalhistas de empregados que possam ter sido contagiados no exercício de suas funções nos hotéis. Pensando nisso, grandes redes hoteleiras contemplaram, em seus orçamentos, vacinações para as equipes, ainda que a Justiça brasileira entenda que tal prática não é legal.

Por essa mesma razão, a maior parte das empresas se recusa a organizar eventos presenciais, reuniões e até viagens de incentivo, colocando em situação desesperadora o turismo de negócios e hotéis com vocação unicamente corporativa. Mesmo os hotéis de lazer, que observaram bom movimento, não puderam trabalhar com sua capacidade integral.

Para os teimosos de plantão, estatísticas não faltam. Apesar do histórico internacional, que mostrou a chegada da segunda onda, depois de certo relaxamento em relação aos protocolos sanitários, muitos destinos brasileiros, assim como empresários e clientes, apostaram na normalização da situação no réveillon. Sem nenhuma surpresa os resultados se apresentaram trágicos, com o mais funesto exemplo no Amazonas.

Não se trata de um texto alarmista ou pessimista. Apenas uma reflexão fria. Ninguém ganha com a pandemia. Nem mesmo os hospitais e, menos ainda, médicos e planos de saúde. Portanto é desejo quase absoluto que a covid-19 seja erradicada do planeta. Algo que não se dá em um ou dois anos; é preciso visão de longo prazo, resiliência e muita estratégia. Tudo que a maior parte dos brasileiros não tem.

A prática negacionista e teorias de conspiração sempre são más conselheiras e péssimas administradoras.  O primeiro semestre de 2021 será a ressaca de 2020. Mas, quanto mais forte, radical e rápido for o remédio, mais rápida será a cura. O que tem se visto na economia brasileira é uma situação análoga àquela de alguém que se recusa a ficar alguns dias sem trabalhar, após um acidente,  para total recuperação, e acaba complicando a situação de saúde por negar as recomendações médicas.

Se o turismo brasileiro nunca teve pé quente, que tenha agora, ao menos, a cabeça fria.

Imagem de torstensimon por Pixabay

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