Vai reclamar pro bispo

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“Como exigir que haja diálogo se gerações foram preparadas apenas para ouvir, sem poder contestar”

Por Ricardo Hida*

Gosto de ser polêmico. Até porque nós, como povo, temos horror ao confronto de ideias. Contestar é sempre mal visto. Buscamos sempre a unanimidade, nunca o consenso. Somos ruins de negociação e de argumentação. E isso se reflete na política, na economia e nas relações sociais. Culpa-se muito as redes sociais pelo furdúncio que causam. Mas a verdade é que por trás de toda a confusão existe medo e inaptidão ao debate. Vivi muitos anos em organizações francesas; franceses adoram pensar e discutir. Do futuro do país ao melhor queijo. E, depois de um bate-boca, continuam como se nada tivesse acontecido, celebrando a vida com um poderoso Bordeaux.

Nós temos horror a tudo isso. Acredito que há questões históricas que justificam tal atitude. Fomos colonizados por um país que por anos foi dominado pela fé cega a Santa Sé. A Inquisição também chegou aos trópicos, contrariando a ideia de que não existe pecado abaixo do Equador. E qualquer revolta política era abafada com muita violência. Quem, criado no Brasil, não leu os horrores que fizeram com Tiradentes?

Já na República, por muitas décadas, a população esteve sob o julgo da ditadura e de militares. Muitas gerações cresceram ouvindo os terrores das torturas. Como exigir que haja diálogo se gerações foram preparadas apenas para ouvir, sem poder contestar e ameaçados pela violência, a resposta natural aqueles que contestam?

Muita gente tem se questionado para onde caminhamos politicamente. Outros, questionam políticas públicas para o turismo. Todos ganharíamos se as perguntas merecessem reflexões e respostas estruturadas e lógicas. Recentemente o atual prefeito do Rio, o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella, informou que deseja diminuir o apoio financeiro que o município dá ao Carnaval carioca, justificando a calamitosa situação orçamentária. E muita gente apoiou a causa.

Eu, particularmente, não gosto de Carnaval. Mas nem por isso deixo de reconhecer sua importância econômica para a Cidade Maravilhosa (sem mencionar seu valor histórico, social e cultural).  Tampouco deixo de fazer contas para afirmar que trata-se de uma imensa burrada, no meio de tantas outras que Crivella tem feito – como, por exemplo, ter concedido aos taxistas cariocas o título de patrimônio da cidade.

Para cada real investido no Carnaval, ganha-se 3 reais. Ou seja, triplica-se o investimento feito. Nenhuma aplicação financeira no planeta garante tal proeza. Para fatia expressiva dos turistas, além do Réveillon, a festa do rei Momo é a única que justifica a travessia de oceanos para visitar a cidade.

Diante dos 3 bilhões de reais em déficit, não serão 19 milhões – que geram três vezes mais – o problema. Há quem diga que a medida é eleitoreira, já que Crivella deseja manter-se querido pela fatia neo-pentecostal do eleitorado. E é para isso que chamo a atenção. Não se pode tomar decisões públicas pensando apenas em eleições e em crenças de parte da população, que sequer é maioria. As decisões tem de estar embasadas em valores democráticos e econômicos.

Qualquer evento – da Formula 1 à Parada LGBT, passando pela Marcha para Jesus – deve receber apoio público se gerar divisas para a cidade – hotéis, receptivos, lojas, restaurantes, teatros, taxistas, locação de automóveis. Se o problema é econômico, que tal repensar a isenção de impostos para as igrejas, quaisquer que sejam? Elas não geram riquezas para a Federação, estado ou municípios. A isenção de impostos é a subvenção do Estado para a fé das pessoas. Eu sou uma pessoa de fé e tenho minhas crenças religiosas, mas sei que para sustentá-las o resto da população não tem que pagar o pato (amarelo ou de qualquer outra cor).

Os governos municipais e estaduais do Rio – de Brizolla a Eduardo Paes, passando por Garotinho, Rosinha, Benedita da Silva e Sergio Cabral – conseguiram a proeza de jogar na cova o turismo carioca. Só não conseguiu matar o turismo, porque a iniciativa privada, vem trabalhando corajosamente para salvar a cidade e sua imagem. Crivella pretende agora jogar a primeira pá de terra sobre o combalido turismo carioca.

A bolha hoteleira explodiu. Assim como o moral da cidade. É hora de um líder inspirador e visionário dar um novo fôlego para o Rio. Alguém que não  tenha medo de pensar economicamente, e não apenas politicamente, e de confrontar crendices e ideias. Você pode não concordar com o que escrevi, mas pense se há lógica. Caso contrário, vai reclamar com o bispo.

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor-adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e é diretor da ABTLGBT. Contato: [email protected]

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