Viagem na Esportiva: conheça o mercado e as tendências do nicho

Copa do Mundo e Olimpíadas, além da democratização dos esportes nas redes sociais, despertaram maior interesse nos viajantes no decorrer dos anos

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Por Felipe Lima e Janize Colaço

O Brasil foi palco, há relativamente pouco tempo, das principais competições desportivas do planeta. Tanto a Copa do Mundo quanto os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro trouxeram a atenção do mundo ao País. Durante esses dois momentos, não foi incomum encontrar turistas, domésticos e internacionais, nas principais cidades brasileiras.

Em 2014, por exemplo, durante o campeonato mundial de futebol, mais de cinco milhões de brasileiros transitaram pelo território nacional, além de atrair um milhão de visitas estrangeiras. Em contrapartida, somente a Cidade Maravilhosa, dois anos depois, recebeu um total de 500 mil visitantes internacionais durante o período das Olimpíadas.

Isso demonstra um fato que pode não ser óbvio para todos: espectadores, praticantes experientes e aqueles em busca de aperfeiçoamento estão aos montes no mercado. E eles, por sua vez, querem que suas viagens envolvam tais atividades. Para assistir ou, quem sabe, participar das práticas esportivas. Cabe, porém, à indústria turística ser capaz de responder por essa demanda.

“A Fanato é pioneira ao trabalhar com turismo e esporte, criada há dez anos unicamente com esse foco”, revela Raphael Santana, CEO e um dos fundadores da operadora. “Desde o início, nós fomos muito bem aceitos. Havia um gap muito grande no mercado brasileiro e a nossa inspiração foi o modelo de empresas nos Estados Unidos e Europa, que dispõem tanto de um público melhor definido quanto de empresas que lhes dão o devido suporte.”


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De acordo com o executivo, desde a fundação, a operadora trabalha tanto com empresas quanto com pessoas físicas. Além disso, como o esporte – e todas as suas modalidades – é amplo demais para ser restringido a roteiros engessados, todos os pacotes disponibilizados são adaptados de acordo com a preferência do viajante. “Não são só os ingressos para as competições. A depender do destino, disponibilidade de tempo e valor a ser investido, nós criamos toda uma temática em cima da viagem, tornando a experiência realmente imersiva”, revela Santana.

Dentro das quadras

Seja nas viagens individuais ou incentivadas, Santana não demora a responder qual esporte ainda domina o coração dos viajantes: o futebol. “Ainda está no topo por conta da tradição aqui, ver futebol europeu, tanto Champions League quantos os campeonatos locais, como os ingleses e franceses, por exemplo”, ressalta o profissional.

Raphael Santana, CEO da Fanato

Santana ainda apontou um aumento de 30% na procura por viagens relacionadas a futebol europeu entre 2017 e 2018. Barcelona (Espanha), Paris (França) e Turim (Itália) são os principais destinos destacados por Santana para a modalidade. Sobretudo, por conta dos craques que vestem as camisas dos times – Lionel Messi, Neymar Jr. e Cristiano Ronaldo.

Essa paixão enraizada pelo brasileiro, a propósito, também pôde ser notada durante a Florida Cup. O evento ocorreu em janeiro e atraiu 40.126 pessoas, com o público advindo do Brasil representando 70% do total de espectadores. De acordo com Ricardo Villar, CEO da Florida Cup, a aceitação desse mercado foi uma grande conquista para a competição.

“O evento em uma crescente constante desde a primeira edição em 2015. Existem os torcedores fanáticos, mas esses são minorias. A programação é muito mais que apenas jogos de futebol. Hoje, atrai um público de diversos perfis e idades, atraídos pela música, corrida ou demais entretenimentos da ação”, explica.


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Mesmo com os brasileiros protagonizando o cenário, também são realizadas ações que visam estimular ainda mais a participação dos visitantes do País, segundo Villar. “A presença neste ano da Ivete Sangalo, por exemplo, é um grande indicativo disso. Nossa expectativa é aumentar ainda mais essa presença no evento, que ocorre sempre entre o segundo e terceiro fim de semana de janeiro”, finaliza.

O futebol americano também vem ganhando a atenção dos brasileiros, como destacado pelo CEO da Fanato. Ele afirma que a busca por viagens com foco no esporte dobrou nos últimos quatro anos. “Futebol americano tem crescido muito nos últimos anos, a gente pega essa evolução desde 2009, quando começamos, até agora. A popularidade do esporte cresceu demais, principalmente o Super Bowl, considerado um dos eventos esportivos mais procurados, junto com a UEFA Champions League”, aponta o executivo.

E, pelo jeito, a bola oval realmente tem captado a graça dos brasileiros amantes do esporte. Tanto que, segundo dados anunciados pela ESPN, que detém os direitos de transmissão da National Football League (NFL), o Brasil é o terceiro maior mercado da liga, com cerca de 19,8 milhões de fãs. Atrás somente dos Estados Unidos, que domina com mais de 117 milhões, e México, com 23,3 milhões.

Outro esporte que vem despertando a atenção do brasileiro é o basquete, com destaque para as competições da National Basketball Association (NBA). Esse interesse combinado com a paixão dos brasileiros por Orlando, na Florida (EUA), fez do estádio do time local um sucesso de vendas entre as operadoras por aqui.


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Em 2017, mais de 115 mil turistas internacionais visitaram o Amway Center, casa do Orlando Magic. O Brasil foi o país que mais contribuiu para esse número, seguido pelo Reino Unido e Canadá, o que reforça a importância do trabalho de promoção que tem sido feito há cinco anos com operadoras brasileiras.

Segundo Haley Meier, diretora de vendas de turismo e para grupos do Orlando Magic, o crescimento de brasileiros na arena azul foi de 60% na comparação entre as temporadas 2016-2017 e 2017-2018. “Isso porque a experiência é muito mais do que apenas assistir ao jogo. É uma noite para entrar para a história, com atividades memoráveis”, ressaltou Jess Lott, executivo de contas da casa.

A partir de US$ 20 é possível comprar ingressos para alguns jogos do time e usufruir da estrutura que dispõe de nove bares e restaurantes na parte interna e outros dois bares na área externa. Mas o destaque vai para os pacotes VIP, oferecidos para grupos a partir de dez pessoas, que podem garantir assentos em localização privilegiada, acesso ao Fields Ultimate Lounge com alimentação e bebidas incluídas, participação no tradicional ‘high five’ que acontece quando os jogadores entram em quadra e até uma foto com as cheerleaders.

Amantes da velocidade

No entanto, não são só as quadras que guardam o coração dos apaixonados por esporte. Fórmula 1 e Nascar, por exemplo, mantêm-se consolidadas quando o assunto é velocidade e adrenalina. De acordo com a Fórmula 1, a temporada de 2018, que contou com 21 circuitos, recebeu 4.093.305 pessoas, representando um aumento de 2,7% frente ao ano de 2017.

Dentre esses 21 circuitos, seis destinos demonstraram que os fãs querem acompanhar de perto toda a emoção, e registraram aumento acima de dois dígitos no público. Azerbaijão foi o que mais cresceu (+29,1%), seguido por Áustria (+25,2%), Barein (+22,1%), Canadá (+21,4%); Japão (+19,1%) e Hungria (+10,1%).


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Além disso, sete das 21 etapas contaram com mais de 200 mil pessoas ao longo do fins de semana da corrida. Foram eles: Inglaterra, com 340 mil; México, com 335 mil; Austrália, com 295 mil; Estados Unidos e Cingapura, cada um com 263 mil; Bélgica, com 250 mil; e Hungria, com 210 mil.

Pelas ruas

Mas não se trata somente de assistir e acompanhar eventos. As ruas deixam de cumprir o seu papel principal para dar espaço aos praticantes de caminhada e corrida. De acordo com João Traven, diretor da Spiridon Promoções e Eventos, que promove a Maratona do Rio, a organização da prova no Brasil está no mesmo nível das competições internacionais.

As três provas que ocorreram em junho de 2018 – Maratona de 42 quilômetros, Meia Maratona de 21 quilômetros e Family Run de 6 quilômetros – contaram com 33 mil inscritos. Destes, 61% veio de outras cidades e 20% de outros países, com as mulheres representando um pouco mais da metade deste público estrangeiro, respondendo por 53%.

“Grande parte [63%] veio com algum acompanhante, o que aumentou a estada nos hotéis, lotando vários deles. Realizamos um esforço específico de business inteligence em diferentes etapas do evento, isso nos ajuda a moldar essa importante prova que integra o calendário oficial do município”, completou o diretor.


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As redes sociais também foram importantes impulsionadores na promoção do evento, alcançando mais de 1,1 milhão de usuários nas plataformas com textos, comentários e fotos na semana da prova. Ao todo, foram mais de 86 mil curtidas, 173 mil interações com conteúdos postados e 144% a mais de postagens no Instagram em comparação a 2015.

“Medidas que ajudam a fomentar o comércio e o turismo esportivo precisam ser tomadas. As empresas podem aproveitar o período de inscrições para vender pacotes e incentivos, além de descontos nos produtos”, sugeriu Traven.

Oportunidades dentro do Brasil

Apesar disso, o segmento no Brasil, infelizmente, é pouco aproveitado. Contudo, ainda em relação aos viajantes e amantes de esportes, os agentes de viagens têm de ficar de olhos abertos. De acordo com dados da Fanato, em média, 65% dos clientes que viajam para um evento esportivo fazem uma nova viagem relacionada com o esporte dentro do período de um ano.

“De cinco anos para cá, sobretudo com o advento das redes sociais, tem se tornado mais comum esse tipo de viagem. Além disso, a cobertura televisiva mudou. Muitas modalidades esportivas deixaram de ser transmitidas apenas nos canais fechados e têm conquistado espaço na TV aberta, despertando a curiosidade de um público cada vez maior”, ressalta Santana.

Para além das viagens ao exterior, o Brasil tem muito a se beneficiar com o segmento. A exemplo disso, a Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta) destacou algumas das oportunidades para viajantes brasileiros e internacionais. A aventura, segundo a entidade, sempre possibilitou que o viajante arrisque um pé no esporte.

Nesses casos, aliás, os roteiros giram em torno de atividades físicas – muitas vezes em contato direto com a natureza –, que proporcionam lazer e diversão sem caráter competitivo. Dentre algumas das modalidades, que mesmo os amadores podem se arriscar, há as mais brandas. Entre elas: caminhada, cavalgada e cicloturismo. E também as que envolvem esportes radicais, como montanhismo, arvorismo, bungee jump, escalada, tirolesa, surfe, windsurfe, mergulho, canoagem, kitesurf, windsurf e voo livre.

Ao todo, mais de cinco milhões de turistas percorrem o Brasil em busca da prática de esporte ao ar livre, segundo o último relatório da Abeta, referente a 2017. Ainda segundo a entidade, há mais de duas mil empresas especializadas no segmento. Número que, inicialmente pode saltar os olhos, porém que ainda mostra estar longe da potência brasileira.

Afinal, o Brasil é o destino com o maior potencial para ecoturismo e turismo de aventura no mundo, segundo a classificação do Fórum Econômico Mundial. Ao todo, são seis biomas e três ecossistemas marinhos diferentes. Já a Organização Mundial do Turismo (OMT) pontua que, mesmo de maneira não tão intensa, o País recebe um milhão de viajantes, gerando um faturamento de US$ 70 milhões.


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Contudo, o País também conta com calendário próprio de eventos esportivos que são responsáveis pela captação de visitantes. De acordo com a da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o automobilismo, por exemplo, é uma oportunidade que vai muito além da Fórmula 1. Nela estão incluídas modalidades como Fórmula 3, Stock Car, Arrancada, Kart, Rally e Fórmula Truck.

“O setor pode ser fomentado através da análise de dados, capaz de antever situações, indiciar potenciais problemas e sinalizar direções precisas”, recomenda Alexandre Sampaio, presidente CNC, no relatório “Cenários em debate: desafios da Aviação Civil e caminhos para o Turismo Esportivo”.

O documento ainda recomenda a observação de destinos sob o ponto de vista de eventos, clima, recursos culturais, entre outros fatores e serviços, fazendo comparações de preços. A avaliação traduzirá como o turista entende o destino – e o que pode, aliás, influenciar sua decisão de querer ou não visitá-lo, independentemente do evento desportivo.

Parques investem em esporte

Durante a Florida Cup, o Universal Orlando Resort, patrocinadora do evento, promoveu no complexo a primeira corrida Florida Cup 5K, no parque Universal Studios Florida. Os 527 participantes, como o jogador Kaká, puderam percorrer as principais áreas do parque sendo cumprimentados por diversos personagens pertencentes a Universal.

A Disney também aposta nas maratonas, com uma série de corridas que se repetem ano a ano. Algumas são temáticas – como a das princesas, que acontece de 20 a 23 de fevereiro de 2020, e a de Star Wars, marcada para 16 a 19 de abril do ano que vem. A mais famosa, entretanto, é a Walt Disney World Marathon Weekend, que acontecerá de 8 a 12 de janeiro de 2020, com corridas de cinco e dez quilômetros, meia maratona e maratona.

Leonardo Leite, gerente internacional de vendas da Disney

Segundo Leonardo Leite, gerente internacional de vendas do complexo para a área de esportes, o segmento tem forte adesão do Brasil que está no top 3 de emissores – especialmente para as maratonas. “Corrida é um esporte de superação. As maratonas Disney têm essa característica, mas são muito mais divertidas”, afirmou.

Ele destacou, ainda, a estrutura do ESPN Wide World of Sports, complexo esportivo do grupo Disney que oferece uma diversidade de quadras e realiza eventos esportivos e profissionais durante o ano, focado em diversas modalidades. “Em janeiro, acontece o Pro Ball da NFL, um torneio de preparação para a temporada, com entrada gratuita”, lembrou Leite.

A matéria foi originalmente publicada na edição 823 do Brasilturis Jornal.


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