Viagens transformadoras?

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Há pouco mais de 40 anos, a cantora franco-egípcia Dalida lançava uma canção com Alain Delon, tão dramática quanto cafona. A novidade é que ela está de volta nas playlists mais descoladas do planeta: Paroles, Paroles, Paroles. Na obra, uma mulher desiludida, exausta de ser enganada, se recusa a aceitar as desculpas e juras de amor de seu namorado. Em todo momento, repete “palavras, palavras, palavras, apenas palavras”.

Pensando em Dalida e na liquidez da modernidade, segundo o filósofo Zygmunt Bauman, pode-se afirmar que o mercado chegou ao limite do ridículo ao tentar empurrar qualquer coisa para o consumidor, com pretextos novidadeiros, usando palavras e expressões de efeito. E que são apenas isso, palavras, apenas palavras.

Uma série delas já perdeu seu sentido (como, por exemplo: luxo, glamour, fashion, gourmet) e precisam ser ressignificadas. No turismo, a mais nova abominação é o conceito de “viagens transformadoras”.

Ora, desde que o conceito de turismo existe, viagens sempre foram transformadoras. Todo indivíduo que saía da sua rotina, de sua cultura e entrava em contato com saberes e viveres diferentes mudava seu olhar e pensar. O filme Sabrina, por exemplo, mostrava a filha de um mordomo que após uma viagem a Paris, na década de 1960, volta outra mulher.

Dizia-se com frequência em nosso País, antes da era da internet, que bastava uma ida a outro país para se tomar um banho de civilização. Não importa o quão anacrônica parece essa percepção, mas ela apenas retrata o caráter transformador de uma viagem. Até a trilogia Senhor dos Anéis exagera na abordagem do mito do herói e cai no clichê quando coloca na boca dos hobbits a fala de que existe um mundo incrível muito além do Condado.

Uma jornada, mesmo a alguns quilômetros de sua casa, pode ser renovadora. E a renovação é transformação, já que propõe algo de novo. Um indivíduo, vivendo uma rotina estafante, pode modificar sua saúde mental e física passando alguns dias na praia ou no campo. Ou ainda reconstruir seus laços afetivos e familiares, passando alguns dias com os seus em um hotel fazenda ou parque temático, saindo de sua realidade.

O que querem dizer então os trend setters quando se referem a viagens transformadoras? Pode-se falar, quando se pensa em Nepal, Índia, Butão ou Amazônia, em viagens espirituais. Porque nelas é possível um reencontro do turista com seus valores mais profundos. E espiritual não quer dizer religioso.

Espírito, na raiz, quer dizer essência. Resgatar a essência e a humanidade perdidas é algo que se faz necessário nos dias atuais. Trocar o acúmulo de tranqueiras por experiências regeneradoras é algo que as pessoas em todo o mundo vêm buscando.

Quando um executivo altamente competitivo decide passar duas semanas na África, ou no vale do Jequitinhonha, como voluntário junto a comunidades carentes, pode encontrar um sentimento de cooperação nato que estava perdido dentro de si. Quando jovens nascidos após o ano 2000 são colocados em contato com práticas meditativas algo há de se transformar interiormente.

Mas viagens espirituais tampouco são novidades.  Algumas vezes os destinos é que mudam, mas não as experiências. É preciso que destinos saibam comunicar com precisão, sem perder a poesia, o que realmente podem oferecer. Seja gastronomia, imersões linguísticas, culturais ou apenas e puramente, momentos epicuristas e hedonistas.

Insistir na palavra transformadora é o mesmo que uma grife afirmar que é fashion. Não diz nada.

 

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