Vinicius Lages debate pluralidade e diversidade no Turismo

Vinicius Lages

A amplitude que ecoa no conceito de diversidade. O penúltimo episódio da série Diversificando deste ano traz um convidado muito especial para debater a pluralidade. Vinicius Lages, atual diretor técnico do Sebrae Alagoas, é um dos melhores exemplos de líderes que são, de fato, inclusivos. Nas ações e não somente nos discursos.

Do trabalho na roça à cozinha de Michael Jackson, Vinicius Lages conta sua trajetória e as ricas experiências que o levaram à liderança do Ministério do Turismo. Diversidade de conhecimento, vivência em diferentes campos de atuação – e em países diversos -, e cabeça aberta a explorar o novo são atributos onipresentes nessa caminhada profissional e de vida. “Sempre tive curiosidade de ver outras perspectivas e viajar nos dá essa possibilidade de encontrar com o que é diverso”, diz.

A opção de sair da casa dos pais aos 17 anos para ganhar o mundo o levou a morar em três estados brasileiros e viver por sete anos em três diferentes países. Lages se comunica em quatro idiomas, além do português, e acredita que esse exercício de sobrevivência fora da zona de conforto foi essencial para forjar competências e habilidades para encarar novas posições, situações e desafios.

“O líder despoja em uma perspectiva de ampliar repertório e eu sempre fui buscar o estranhamento. Ter essa percepção do outro no cotidiano, como as pessoas vivem, se vestem, trabalham te prepara. Ajuda a incorporar técnicas e faz você se conhecer melhor.”

Ele lembra, entretanto, que é preciso olhar o mundo e as diferentes experiências proporcionadas com naturalidade. “Muita gente vai buscar esse outro lugar com um olhar exótico. Isso não te ajuda a ter a proximidade e a compreensão que alguém na posição de líder precisa desenvolver. A visão plural te torna mais capaz de liderar do que em uma condição mais simplificada”, complementa.

Por meio de conceitos, opiniões e vivências, Vinicius Lages explica as iniciativas do Sebrae Alagoas na construção de ambientes diversos, analisa a evolução da indústria de Turismo nessas questões e dá uma aula sobre liderança inclusiva, ampliando o olhar para além dos grupos minorizados.

Citando LGBTQIA+, asiáticos, idosos e pessoas de diferentes perfis socioeconômicos, Vinicius Lages reforça a urgência em exercitar a capacidade de acolher, servir e oferecer possibilidades no Turismo para a diversidade

Diversidade é fator estratégico nos negócios

“Estamos em um ponto de inflexão desafiador… Há um conflito de valores que põe em cheque a perspectiva que a gente tinha de ser um País aberto, onde sírios, libaneses e judeus convivem pacificamente. Na verdade a gente sabe que vivemos em uma sociedade fraturada, desigual e racista, ainda que sem perceber. Tem os blindspots. Eu fui me educando ao longo da vida, mas vi outras pessoas que têm fobia à diversidade”, comenta.

Citando LGBTQIA+, asiáticos, idosos e pessoas de diferentes perfis socioeconômicos, Lages reforça a urgência em exercitar a capacidade de acolher, servir e oferecer possibilidades no Turismo para a diversidade. Do ponto de captação de visitantes internacionais, ele acredita que ainda é preciso um trabalho amplo. “Há 200 milhões de chineses viajando pelo mundo e o Brasil recebe 170 mil. Não estamos preparados para receber 1 milhão, não sabemos qual é a jornada desse turista. Estamos em uma condição muito amadora para organizar esses novos fluxos em uma perspectiva global”, pontua.

Olhando para dentro, ele destaca a necessidade de um trabalho individual de desconstrução.  “Menos de uma década atrás, pudemos ver um fluxo de pessoas das classes C, D e E viajando de avião e frequentando aeroportos. E notamos certo estranhamento da classe média, que torcia o nariz para essa diversidade. A capacidade de lidar com isso é fundamental para termos uma sociedade mais inclusiva e próspera”, diz.

A naturalização da diversidade, para ele, vem do convívio – com a escola e a universidade como elementos integradores -, da criação de legislação punitiva, no âmbito público, e da construção de ações afirmativas por empresas que colocaram a diversidade como elemento estratégico. “Empresas que atuam nesse sentido perceberam como a diversidade é importante para produção, criatividade e inovação. O capital não é bobo”, defende.

Ele lembra que a experiência do cliente, ponto central de qualquer negócio, é muito melhor desenhada em empresas diversas. “Quando eu incorporo repertórios diferentes e trago para dentro da corporação outras formas de ver, falar e construir respostas aos problemas eu me relaciono melhor com o mundo, que é plural”, reforça.

Lages defende a adequação à legislação e a desconstrução dos vieses inconscientes para cuidar da reputação do negócio como os primeiros passos que devem ser dados pelos empreendedores que desejam se comprometer de forma genuína com a causa. “Não é questão política ou somente de interesse filantrópico. É algo que importa para o negócio”, crava. (Texto: Camila Lucchesi)

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