Você se acha no direito de reclamar?

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“A energia gasta hoje para se queixar deveria ser utilizada para transformar”

Por Ricardo Hida*

Rodízio de pizza com amigos em uma quinta-feira.  A conversa sempre começa falando de filhos, dos colegas que não puderam aparecer e dos momentos memoráveis que vivemos juntos.  Quando o assunto se torna política e a atmosfera começa a ficar mais quente que a pizza baiana – aquela de calabresa com pimenta e dendê – o mais diplomata da turma – eu, no caso – muda o rumo da conversa para carreiras.

Muitos dos presentes ocupam cargos de alta direção nas empresas, outros, como eu, empreendem. E o que minutos antes seria uma briga de leões, torna-se um quase um lamento coletivo de bois indo para o abate. A competição era dura para saber quem era o mais sofredor em uma economia em crise, de um País com uma mão de obra desqualificada sob um governo que só atrapalha.

Como nunca tive paciência para ser vítima, lembrei que as empresas de alguns dos presentes ainda exibiam lucros consideráveis nos balanços publicados nos jornais. Mas quando o campeonato de novela mexicana começa, não há quem consiga parar.

No entanto, o que mais me surpreendeu foi o comentário de um amigo, diretor de uma das maiores operadoras telefônicas e de TV a cabo do País. Dizia estar escandalizado com a má qualidade dos serviços que consumia. Dos hotéis aos eletrônicos, sobrando até o para o garçom da pizzaria.

Lembrei-me de todos os velhos ditados: em que o sujo fala do mal lavado e daquele em que o cristão critica o argueiro do outro sem pensar na trave que carrega. Contive-me até que o espírito de justiceiro baixou em mim e lembrei-me do pau que bate em Chico, bate em Francisco. Elaborei uma lista para mostrar o quanto a empresa que ele dirige oferece os piores serviços do mercado. Cabisbaixo, sobrou-lhe comer o petit gateau para adoçar o sono que viria a seguir.

No dia seguinte, em um evento do trade, começou outra sessão de reclamações. Grandes críticas vinham do dono de uma operadora que eu havia visitado recentemente em nome de um cliente que represento. O convidado amaldiçoava o mercado até que lhe fiz a dramática pergunta: o que ele estava fazendo de diferente para enfrentar a atual crise?

Aproveitei para contar que fui mal recebido na operadora ao mostrar os serviços da DMC que represento na América do Sul. Trata-se de uma empresa que existe há mais de 20 anos, que figura entre as maiores e mais premiadas do Sudeste Asiático e que  oferece valores bem mais baixos que seus concorrentes. Ou seja, o preço da operadora poderia ser reduzido em até 15%, conquistando novos mercados.

Muita gente não está aberta a novos processos, novos fornecedores, novas estratégias que podem fazê-los sair da crise. Seja por falta de visão, seja por motivos sombrios. Mas não deixa de se queixar.

Neste ano, um executivo comercial que muito respeito disse estar ansioso para o “espírito lava jato” chegar ao turismo. Quantos “profissionais” seriam desmascarados? Quantos destinos que só patrocinam eventos ou anunciam em revistas se levarem comissão? E os funcionários que se fecham aos melhores fornecedores porque os últimos se recusam a pagar propina?

Perdemos muitas concorrências por não entrar em atividades desonestas. Não me arrependo, porque a conta a ser paga pelos concorrentes foi e continua a ser muito alta. Outros clientes, não ganhamos porque não fazemos mais do mesmo.  Pensamos grande, apostamos no grande.

Eu e tantos outros no mercado, preferimos não reclamar, mas agir. Fazendo o melhor dentro do nosso alcance. A energia gasta hoje para se queixar deveria ser utilizada para transformar. Toda a tensão que vivemos é o resultado de escolhas equivocadas que tomamos. Isso enquanto povo, enquanto segmento de mercado.

Passou da hora de sermos arrojados, honestos, firmes nos nossos propósitos. Mudando a realidade que nos cerca, podemos quebrar o circulo vicioso que nos leva sempre a engolir as mesmas pizzas.

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor-adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e é diretor da ABTLGBT. Ele escreve no Brasilturis às quartas-feiras. Contato: [email protected]

 

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente. Desde o fechamento de portas para novas idéias e fornecedores até aqueles profissionais que sabidamente tem acordos para favorecer um ou outro supplier. Engraçado, mas acho que os devem frequentar as mesmas mesas….
    Enquanto isso, aguardamos a próxima lista dos poderosos do turismo….muito triste, mas não me desanima.
    Abs

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