A prisão de João Ricardo Rangel Mendes, ex-CEO da Hurb (antigo Hotel Urbano), na noite desta segunda-feira (5), no Aeroporto Regional de Jericoacoara, no litoral do Ceará, adiciona um novo e sensível capítulo à trajetória recente de um dos casos mais emblemáticos do turismo brasileiro pós-pandemia.
Segundo informações da Polícia Militar do Ceará, João Ricardo tentava embarcar em um voo com destino a São Paulo/Guarulhos utilizando documento falso, o que levantou suspeitas durante os procedimentos de check-in e embarque. Funcionários da companhia aérea acionaram as autoridades após identificarem inconsistências na documentação apresentada.
Ao ser abordado pelos policiais no terminal, os agentes constataram ainda que o empresário fazia uso de uma tornozeleira eletrônica descarregada, o que caracteriza descumprimento das condições impostas pela Justiça. Diante da situação, João Ricardo foi conduzido à Delegacia Regional de Acaraú, onde acabou autuado em flagrante por uso de documento falso.
Um caso que extrapola o episódio policial
Embora o episódio tenha natureza criminal, a prisão ocorre em um contexto mais amplo e delicado, que envolve processos judiciais em curso, investigações e disputas com consumidores, fornecedores e parceiros comerciais ligados à antiga operação da Hurb.
João Ricardo Mendes tornou-se uma figura central no debate sobre governança, responsabilidade empresarial e limites do modelo de crescimento acelerado no turismo digital. A Hurb, que chegou a figurar entre as maiores plataformas de venda de pacotes turísticos do país, enfrentou uma sucessão de crises a partir de 2023, com aumento expressivo de reclamações, cancelamentos, judicializações e questionamentos sobre sua capacidade operacional e financeira.
O caso passou a ser acompanhado de perto por órgãos de defesa do consumidor, Ministério Público e Judiciário, além de provocar impacto direto na confiança do mercado em modelos de negócios baseados em vendas antecipadas e preços fortemente subsidiados.
Tornozeleira descarregada e agravantes
O uso de tornozeleira eletrônica descarregada é tratado pelas autoridades como um descumprimento relevante de medida cautelar, uma vez que o equipamento é considerado instrumento essencial para o monitoramento judicial. A constatação reforçou a decisão de condução imediata do ex-executivo à delegacia, agravando a situação no momento da abordagem.
Especialistas ouvidos por fontes policiais indicam que esse tipo de infração pode pesar negativamente em análises futuras do Judiciário, especialmente em processos que avaliam risco de fuga ou reincidência.
Repercussão para o turismo e o mercado digital
A prisão de um ex-CEO de grande visibilidade no setor turístico provoca novo desgaste reputacional não apenas para a marca associada ao caso, mas também para o ecossistema de turismo online, que nos últimos anos passou por um processo de amadurecimento forçado, com maior atenção a compliance, capitalização, transparência e entrega efetiva de produtos.
Para agentes de viagem, operadores e fornecedores, o episódio funciona como um alerta adicional sobre a importância da sustentabilidade dos modelos comerciais, do cumprimento rigoroso de contratos e da separação clara entre marketing agressivo e capacidade real de execução.
Mais do que um fato isolado, o episódio em Jericoacoara simboliza o desfecho de uma sequência de acontecimentos que já vinham sendo acompanhados pelo mercado com preocupação. O caso segue sob investigação, e novos desdobramentos jurídicos não estão descartados.
Fonte: UOL

