Viagens corporativas devem crescer 5% em 2026, aponta Guilherme Dietze

Economista da FecomercioSP destaca resiliência do setor diante de cenário econômico desafiador e defende mais produtividade e eficiência nas empresas

Rafael Destro
Rafael Destro
Redator - E-mail: Rafael@brasilturis.com.br

São Paulo (SP) — As viagens corporativas devem manter trajetória de crescimento em 2026, embora em ritmo mais moderado diante de um cenário econômico marcado por juros elevados, menor expansão global e restrições ao consumo. A avaliação foi apresentada por Guilherme Dietze, economista e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, durante a palestra “Panorama das Viagens Corporativas no Brasil e no Mundo – Como as transformações globais estão redefinindo a gestão de viagens”, primeira apresentação do 12º Fórum Corporativo Abracorp, realizado nesta quinta-feira (27), no Hotel Pullman Vila Olímpia, em São Paulo (SP).

Segundo Dietze, o mercado de viagens corporativas encerrou o primeiro semestre com crescimento de aproximadamente 5% na comparação com o mesmo período de 2025. O indicador, calculado em parceria com a Alagev, considera despesas das empresas com transporte aéreo, hospedagem, locação de veículos e outros serviços relacionados às viagens.

Para o economista, o resultado é positivo diante das condições atuais da economia. A expectativa é que o setor encerre 2026 com movimentação próxima de R$ 205 bilhões, mantendo crescimento de 5% ao longo do ano. A projeção indica uma desaceleração em relação a períodos anteriores, mas não aponta retração dos investimentos das empresas em deslocamentos corporativos.

“Eu diria o seguinte, está excelente. Diante do cenário que nós temos, crescer 5% ainda está bastante satisfatório para as viagens corporativas”, afirmou Dietze.

Na avaliação do presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, as empresas devem continuar investindo em viagens, mas com maior atenção à produtividade, à eficiência e à gestão dos recursos. O ambiente de crescimento mais limitado exige que as organizações busquem melhores resultados a partir das estruturas que já possuem.

O cenário também aparece nos dados internacionais apresentados durante a palestra. De acordo com projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento global deve permanecer pouco acima de 3% até 2031. Dietze destacou que as principais economias, incluindo Estados Unidos, China e Brasil, passam por um processo de desaceleração, sem a presença de um grande mercado capaz de impulsionar sozinho a expansão mundial.

Para o setor corporativo, esse movimento se soma a uma maior proteção dos mercados domésticos. Países como Estados Unidos, Brasil e integrantes da Europa têm adotado medidas para proteger suas próprias economias e indústrias, o que pode dificultar relações comerciais internacionais e a entrada de empresas em novos mercados.

Tarifas aéreas e pressão do combustível

Outro ponto abordado por Dietze foi o comportamento das tarifas aéreas. Segundo ele, apesar da elevação do preço do querosene de aviação (QAV), o aumento dos custos não foi integralmente repassado para as passagens comercializadas.

O economista apresentou dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que mostram a evolução da tarifa média e do preço do QAV. De acordo com a análise, o combustível registrou alta de aproximadamente 60% em determinado período, mas o impacto sobre o preço final das passagens foi limitado.

Dietze ressaltou que é importante diferenciar o preço ofertado pelas companhias aéreas daquele efetivamente pago pelo passageiro. Em julho, a tarifa média ficou próxima de R$ 700, patamar semelhante ao observado em outros períodos recentes.

Nesse contexto, o executivo apontou uma oportunidade para as agências de viagens aumentarem a eficiência na busca e na efetivação das reservas, utilizando tecnologia e inteligência artificial para encontrar melhores condições para os clientes.

“Que a passagem de fato comercializada não mudou de preço em relação ao ano anterior. Talvez, em um ou outro caso específico, pode ser, tudo bem, mas, na média, isso não se refletiu”, destacou.

Cenário econômico limita crescimento

Na segunda parte da apresentação, Dietze traçou um panorama da economia brasileira e apontou uma combinação de fatores que deve limitar o crescimento do país nos próximos anos. Entre eles estão juros elevados, inflação ainda pressionada, baixo ganho de produtividade, endividamento das famílias, carga tributária e dificuldades para expansão do emprego e da renda.

Para o Brasil, a perspectiva apresentada é de crescimento próximo de 2% nos próximos anos. Segundo Dietze, a manutenção de uma taxa básica de juros elevada reduz os investimentos produtivos e dificulta uma expansão econômica mais acelerada.

O economista destacou que a taxa de juros brasileira, atualmente em patamar elevado, favorece a remuneração de recursos mantidos no sistema financeiro, mas desestimula investimentos em produção. Na avaliação apresentada, esse ambiente contribui para aumentar a desigualdade e restringe a capacidade de crescimento da economia.

Outro fator de preocupação é o mercado de trabalho. Com a taxa de desemprego próxima de 5,4%, Dietze avalia que existe pouco espaço para uma expansão significativa da massa de trabalhadores e, consequentemente, da renda. A inflação também apresenta uma limitação adicional, uma vez que não há espaço para ganhos relevantes de poder de compra por meio de uma desaceleração maior dos preços.

Nesse cenário, a produtividade passa a ter papel central. Dietze afirmou que o Brasil apresenta dificuldades históricas para aumentar sua produtividade e que o desafio não se restringe ao período pós-pandemia.

A situação financeira das famílias também foi destacada. Segundo os dados apresentados, o percentual de famílias endividadas chegou a 82%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. O volume financeiro de crédito em atraso das pessoas físicas alcançou R$ 250 bilhões entre janeiro e abril deste ano, alta de 50% em relação ao mesmo período de 2025.

O quadro também afeta as empresas. O crédito em atraso das pessoas jurídicas chegou a R$ 86 bilhões em junho, enquanto a taxa de inadimplência alcançou 3,3%. Dietze chamou atenção ainda para a concentração dos atrasos entre pequenas e médias empresas, que representam quase 80% do volume de crédito em atraso, segundo os dados apresentados.

Produtividade e caixa como prioridades

Diante do cenário econômico, Dietze defendeu que as empresas devem concentrar esforços em fatores que estão sob seu controle, especialmente produtividade, estratégia e gestão de caixa. Para o setor de viagens corporativas, isso significa buscar eficiência na negociação, utilização de tecnologia e inteligência artificial e adequação às mudanças provocadas pela reforma tributária.

O economista também alertou para os efeitos do chamado split payment, previsto no novo sistema tributário, que deverá alterar o fluxo financeiro das empresas ao antecipar o recolhimento de tributos. Na avaliação apresentada, empresas que dependem de prazos maiores para receber de seus clientes precisarão redobrar a atenção ao caixa.

“Se eu não consigo mudar o mundo, eu não consigo ter influência para a nossa mudança no cenário econômico, eu tenho que olhar pelo menos para a gente. E de que forma eu consigo melhorar o meu ambiente interno da empresa? Eu acho que esse é o ponto importante. Buscar produtividade e estratégia”, afirmou.

Para Dietze, o cenário internacional deve permanecer marcado por incertezas geopolíticas e econômicas, enquanto o Brasil continuará enfrentando desafios estruturais. Nesse contexto, a recomendação para as empresas é fortalecer a eficiência interna e buscar maior capacidade de adaptação.

Apesar das dificuldades, o economista mantém uma avaliação positiva para as viagens corporativas. O setor deve continuar crescendo em 2026, ainda que em velocidade menor, sustentado pela necessidade das empresas de manter deslocamentos para negócios, relacionamento e operações.

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