A escalada recente dos preços do petróleo tem provocado impactos diretos no setor aéreo e já começa a alterar a dinâmica das viagens corporativas em todo o mundo. O cenário é resultado do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que entrou em sua quarta semana e gerou um choque de oferta no mercado global de energia, elevando os custos operacionais das companhias aéreas.
Diante desse contexto, executivos do setor projetam um período prolongado de pressão sobre tarifas e despesas corporativas. O CEO da United Airlines, Scott Kirby, alertou em comunicação interna que, caso os preços do combustível permaneçam nos níveis atuais, o impacto anual nos custos da companhia poderá alcançar US$ 11 bilhões. A projeção considera a possibilidade de o barril de petróleo atingir US$ 175 e permanecer acima de US$ 100 até o fim de 2027.
Dados recentes reforçam a gravidade do cenário. Segundo a consultoria Argus Media, o preço do querosene de aviação praticamente dobrou nas últimas semanas. No mesmo período, tarifas aéreas em rotas nos Estados Unidos apresentaram aumentos expressivos, com passagens transcontinentais subindo de US$ 167 em fevereiro para US$ 414 em março, conforme análise do Deutsche Bank.
“É importante lembrar que esta é a primeira grande crise enfrentada pela indústria aérea desde que a maioria das companhias encerrou a prática de hedge de combustível, em 2024 e 2025. Sem esse mecanismo de proteção, não há amortecedor. O custo do combustível vai direto para o preço da passagem. Já está indo”, afirma Luiz Moura, conselheiro de turismo da FecomercioSP e cofundador da VOLL.
Empresas precisam agir rapidamente em três frentes estratégicas
Para o especialista, o momento exige respostas imediatas das organizações, especialmente das grandes corporações que mantêm equipes numerosas em deslocamento frequente. A avaliação é de que decisões baseadas em processos tradicionais podem ampliar o impacto financeiro das viagens corporativas em um cenário de custos elevados.
“Esse cenário não é uma surpresa para quem acompanha o mercado. O que precisa mudar agora é a velocidade de resposta das empresas. Quem ainda está tomando decisões de viagem baseado em planilhas enviadas por e-mail vai sentir esse impacto de forma muito mais intensa do que quem já tem visibilidade em tempo real sobre seus custos”, afirma Moura.
Segundo ele, as empresas precisam atuar simultaneamente em três áreas consideradas essenciais: revisão da política de viagens, fortalecimento da cultura organizacional e adoção de soluções tecnológicas capazes de monitorar despesas e otimizar decisões. O primeiro passo envolve compreender padrões de consumo, rotas mais utilizadas e comportamento de compra dos colaboradores, permitindo identificar oportunidades de economia ainda pouco exploradas.
A segunda frente está relacionada à cultura interna das organizações, com a necessidade de engajar lideranças e equipes no planejamento das viagens e na compreensão do contexto econômico. Para o especialista, a comunicação clara sobre custos e prioridades pode influenciar diretamente o comportamento dos viajantes e reduzir desperdícios operacionais.
“O gestor de viagens não pode carregar esse peso sozinho. Ele precisa do respaldo das lideranças e de uma comunicação interna que coloque esse tema na agenda. Quando o contexto é compartilhado, o comportamento muda”, diz Moura.
Tecnologia ganha protagonismo na gestão de despesas corporativas
A adoção de ferramentas tecnológicas aparece como um dos principais caminhos para enfrentar o aumento dos custos. Plataformas digitais e soluções baseadas em inteligência artificial têm permitido acompanhar variações de tarifas em tempo real e automatizar processos de gestão, reduzindo gastos e aumentando a eficiência operacional.
Entre os exemplos citados está o uso de agentes automatizados capazes de monitorar continuamente os preços de passagens já emitidas e realizar ajustes quando surgem tarifas mais competitivas. Esse tipo de recurso pode gerar economias relevantes para as empresas, ao identificar oportunidades de redução de custos sem necessidade de intervenção manual constante.
Os resultados observados em empresas que adotaram esse modelo indicam ganhos financeiros expressivos, com economias acumuladas que ultrapassam centenas de milhões de reais em períodos relativamente curtos. A análise aponta que programas de viagens estruturados e apoiados por tecnologia tendem a responder de forma mais eficiente a cenários de volatilidade econômica.
“As empresas não podem parar de viajar. Negócios dependem de presença, de relação, de deslocamento. O que elas podem, e precisam, fazer é garantir que cada viagem aconteça da forma mais eficiente possível. Com a tecnologia disponível hoje, isso é completamente viável. O que falta, em muitos casos, é a decisão de agir antes que o problema chegue na conta”, conclui Moura.







