Quando Joy Jibrilu recebeu o convite para comandar o Nassau & Paradise Island Promotion Board (NPIPB), sua primeira resposta foi um sonoro “não”. Não era uma questão de currículo. Depois de oito anos como diretora-geral do Ministério do Turismo das Bahamas, experiência em investimentos, finanças, governança e desenvolvimento econômico, credenciais não faltavam. O problema estava justamente no que aquela cadeira representava.
Durante anos, conta Joy, havia no setor turístico bahamense a percepção de que a liderança do NPIPB era um “teto de vidro” que um profissional do próprio país dificilmente romperia. A organização nunca havia sido comandada por uma pessoa das Bahamas. Muito menos por uma mulher bahamense. Ela rompeu os dois de uma vez.
Desde agosto de 2022, Joy é a primeira bahamense e a primeira mulher a ocupar o cargo de CEO da organização responsável pela promoção internacional de Nassau & Paradise Island, principal porta de entrada turística das Bahamas. Mas sua chegada significou mais do que uma mudança de nome no comando. A executiva assumiu com a intenção de aproximar a entidade do próprio país, incorporar mais profissionais bahamenses e, comercialmente, reduzir uma dependência histórica de mercados tradicionais.
É justamente nessa segunda transformação que o Brasil começa a ganhar espaço. Em sua primeira ofensiva mais estruturada no mercado brasileiro sob a representação da Imaginadora, Joy chegou a São Paulo com números, parceiros, planos de capacitação, conversas com companhias aéreas e uma mensagem bastante clara: Nassau & Paradise Island quer deixar de ser um destino que o brasileiro conhece de passagem para se tornar um destino que ele escolhe para ficar.

E os primeiros indicadores surpreenderam até a própria organização. Em maio, segundo a executiva, 33 mil usuários brasileiros engajaram com o site do destino, em um movimento que o NPIPB calcula como um crescimento no tráfego qualificado proveniente do Brasil em relação à base anterior. Para Joy, é apenas o começo.
Latam no radar prioritário
A mudança de mentalidade dentro do NPIPB talvez seja melhor resumida por uma comparação feita pela própria CEO. Segundo Joy, no passado, a lógica era simples: se Nassau & Paradise Island já recebia visitantes suficientes, sobretudo dos Estados Unidos, por que investir energia em mercados mais distantes? A resposta dela também é simples: porque depender demais de um único mercado não é uma boa estratégia de negócios. “Não faz sentido ter todo o foco em um mercado. O que está acontecendo nos Estados Unidos, por si só, nos mostra isso. É preciso diversificar”, afirma a CEO durante encontro exclusivo com o Brasilturis.
O Canadá oferece um exemplo recente. Em 2025, segundo Joy, a conectividade do mercado canadense com o destino saltou de 17 para 41 voos semanais, crescimento que ajudou a equilibrar a composição internacional da demanda. Agora, o NPIPB tenta construir uma trajetória semelhante na América Latina, inicialmente com atenção para Brasil, México e Argentina.
Antes da pandemia, o fluxo brasileiro para as Bahamas já vinha avançando e havia alcançado, segundo Joy, aproximadamente 50 mil visitantes por ano. Com a crise sanitária, o volume despencou para cerca de mil viajantes, mas a curva voltou a apontar para cima nos últimos anos. A estratégia agora é acelerar essa retomada e, principalmente, construir demanda de maneira mais consistente.
“Já começamos a ver os números crescendo na direção certa. Se conseguirmos adicionar mil visitantes no próximo ano, isso já será uma grande conquista”, avalia. A meta pode parecer conservadora, mas há uma razão estratégica. Cada crescimento comprovado do mercado brasileiro se transforma em argumento nas negociações por aquilo que Joy considera capaz de mudar definitivamente o jogo: um voo direto entre Brasil e Nassau.
Voo direto é o grande objetivo
Se existe uma palavra recorrente na estratégia do NPIPB para o Brasil, é conectividade. Atualmente, o brasileiro consegue chegar a Nassau por diferentes hubs nas Américas. Uma das apostas está na Copa Airlines, com conexões via Cidade do Panamá. A companhia, inclusive, participa de uma ação realizada pelo destino nesta segunda-feira (17), em São Paulo, para apresentar ao trade as possibilidades de conexão também de outras cidades brasileiras.
A conectividade via Estados Unidos também é ampla. Miami está a cerca de 30 minutos de voo de Nassau, segundo Joy, e oferece aproximadamente 15 frequências diárias. Orlando, Nova York e Atlanta aparecem entre outras possibilidades de combinação. Mas o objetivo maior é outro. “Para nós, a maior conquista seria conseguir um voo direto do Brasil para Nassau. Isso mudaria o jogo”, afirma.
A executiva usa o Panamá como exemplo do potencial criado pela oferta aérea. Segundo ela, a operação da Copa Airlines começou com apenas duas frequências semanais para Nassau. Hoje são seis, chegando a sete durante períodos de maior demanda.
O NPIPB já mantém conversas com companhias aéreas sobre as oportunidades do mercado brasileiro. Durante a entrevista, Joy citou Azul e Latam entre as empresas com as quais a organização já dialogou, além das discussões mantidas com outros players da região. A lógica é construir o mercado antes de pedir o assento.
Treinamentos, aproximação com operadores, ações com agentes de viagens, presença na mídia, campanhas B2C e crescimento das buscas digitais formam um conjunto de evidências que pode ser apresentado às companhias aéreas. “Quando nos reunirmos com as empresas, poderemos dizer: estivemos no Brasil, encontramos esses parceiros, fizemos essas ações. As companhias querem ver isso. Querem saber que estaremos do outro lado apoiando a operação”, explica.
Brasil ajuda Nassau
Há ainda uma vantagem menos evidente na aproximação com o mercado brasileiro: o calendário. A sazonalidade brasileira é diferente da norte-americana. Enquanto as férias de verão dos Estados Unidos se concentram no meio do ano, o calendário escolar brasileiro leva grande volume de famílias às viagens entre dezembro e janeiro.
Para um destino cuja base de visitantes ainda é fortemente norte-americana, essa diferença pode ajudar a preencher períodos de menor demanda. “É uma questão de negócio. As férias de vocês são diferentes das nossas. O verão de vocês acontece no nosso inverno. Janeiro, por exemplo, pode ser um período mais lento para nós, e é justamente quando os brasileiros têm suas férias mais longas”, explica Joy.
A própria temporada considerada mais confortável para visitar Nassau & Paradise Island coincide com esse calendário. O NPIPB destaca especialmente o período entre novembro e maio, quando as condições climáticas são mais amenas, com dias quentes, noites mais frescas e menor umidade. Para mergulho, abril e maio aparecem entre os meses especialmente favoráveis, conforme Giovanni Grant, diretor do NPIPB para a América Latina, que compartilha sua opinião particular.
Desafios a partir dos mares
Há, porém, um desafio curioso. As Bahamas recebem cerca de 10 milhões de passageiros de cruzeiros por ano, segundo os números apresentados por Joy. Aproximadamente 7 milhões passam por Nassau. Muitos desembarcam durante quatro horas, visitam a região próxima ao porto, retornam ao navio e acrescentam as Bahamas à lista de países conhecidos. Para Joy, esse é um dos maiores desafios de posicionamento do destino. “Eles ficam quatro horas e vão embora dizendo: ‘eu já fui às Bahamas’. É exatamente por isso que estamos fazendo este trabalho”, afirma.
O objetivo é converter parte dessa gigantesca exposição dos cruzeiros em futuras viagens de permanência. E há muito em jogo. Segundo a CEO, o Turismo responde direta ou indiretamente por cerca de 50% dos empregos das Bahamas, colocando o país entre as economias mais dependentes da atividade turística no mundo. O desafio comercial, portanto, não é apenas aumentar chegadas. É elevar permanência, consumo e dispersão dos gastos turísticos.

“Pelo menos sete dias”
Joy não hesita quando questionada sobre quanto tempo um brasileiro deveria reservar para conhecer as Bahamas. “Se você está vindo do Brasil exclusivamente para as Bahamas, eu diria no mínimo sete dias.” Contudo, isso não significa passar uma semana inteira dentro de um resort em Nassau.
O país possui cerca de 700 ilhas, e aproximadamente 19 são promovidas ativamente para o Turismo. A sugestão da executiva é dedicar quatro ou cinco dias a Nassau & Paradise Island e reservar outros dois ou três para conhecer outra ilha, acessível por ferry ou voo doméstico. Desta forma, a experiência muda completamente. “Você pode estar em uma praia de um quilômetro, absolutamente linda, e ser apenas você e sua família”, descreve.
Joy sabe que vender Bahamas a partir de suas águas azul-turquesa é relativamente fácil. O desafio é mostrar o que existe depois da fotografia. O NPIPB passou a trabalhar o conceito de “and more destination”, algo como um destino de “sol, mar e muito mais”.
A lista inclui gastronomia, arte, cultura, música, mergulho, pesca em alto-mar, bem-estar, vida noturna, cassinos, compras, eventos, esportes e experiências de luxo. “Se alguém tem um interesse específico, nós conseguimos oferecer alguma coisa. Se bem-estar é o que você procura, conseguimos montar uma experiência inteira. Se é arte, você ficará ocupado do momento em que chegar até a hora de ir embora”, diz.
Essa diversificação também é essencial para atingir o perfil que o destino procura no Brasil. Joy reconhece que Nassau & Paradise Island não pretende ser um produto para todos os viajantes. O trabalho com operadores será direcionado a públicos específicos, especialmente aqueles interessados em experiências mais completas e com maior valor agregado.
“Precisamos ser muito direcionados. Se alguém procura apenas férias baratas por poucos dias, talvez não sejamos o destino ideal. Mas, se busca uma experiência rica, temos produtos que sabemos que podem ser especiais para o mercado brasileiro”, afirma.
Oferta que vai do familiar ao ultraluxo
Nassau & Paradise Island concentra cerca de 85% dos visitantes das Bahamas e dispõe de aproximadamente 11 mil quartos de hotel, segundo Joy. A oferta de locações por temporada é ainda maior: ela estima aproximadamente 30 mil acomodações disponíveis por meio do Airbnb, segmento que ganhou peso significativo no destino. Na hotelaria tradicional, há desde empreendimentos familiares até alguns dos produtos mais sofisticados do Caribe.
Atlantis Paradise Island e Baha Mar funcionam praticamente como destinos dentro do destino, cada um com diferentes categorias de hospedagem. No Atlantis, a oferta inclui desde o Coral, de perfil mais acessível, e o icônico Royal até produtos de maior valor agregado, como The Cove e The Reef. No complexo Baha Mar, Rosewood ocupa o topo da pirâmide, enquanto SLS trabalha uma proposta lifestyle e Grand Hyatt combina lazer, famílias e grupos.
Joy também destaca o Four Seasons Resort The Ocean Club entre os produtos de luxo e o Comfort Suites Paradise Island como uma alternativa particularmente interessante para famílias. Com cerca de 200 quartos, o hotel permite que seus hóspedes utilizem as estruturas do Atlantis, criando uma opção de entrada mais econômica para o complexo.
Há ainda hotéis boutique com poucas dezenas de acomodações, ampliando a capacidade de construir produtos bastante distintos para diferentes perfis de viajantes.
Vale destacar que estes grandes resorts também colocam Nassau & Paradise Island no mapa do turismo de eventos. Atlantis e Baha Mar possuem alguns dos maiores centros de convenções do Caribe e, de acordo com Joy, conseguem receber grandes grupos, congressos, incentivos e até competições esportivas e shows.
Dependendo da configuração, os espaços podem acomodar entre 5 mil e 10 mil pessoas, com salões convertidos até mesmo em arenas para basquete, ginástica e outras modalidades. É um segmento importante na estratégia de diversificação do destino, especialmente por permitir trabalhar grupos fora dos períodos tradicionalmente associados ao lazer.
Gastronomia, Arte e Música
Segundo a CEO, Nassau & Paradise Island concentra pelo menos 20 chefs internacionais com restaurantes no destino, uma presença que ela considera superior à encontrada em outros destinos caribenhos. Entre os nomes citados estão Jean-Georges Vongerichten e José Andrés, além da presença de marcas internacionais como Nobu.
Mas a executiva faz questão de acrescentar que a internacionalização da gastronomia também provocou um movimento entre os próprios chefs bahamenses, que passaram a reinterpretar ingredientes e receitas tradicionais em propostas mais sofisticadas. Um dos exemplos mais curiosos está em Graycliff, hotel boutique conhecido também por sua adega.
Segundo Joy, o acervo reúne cerca de 275 mil garrafas, incluindo exemplares raros e uma seleção tão extensa que a carta de vinhos se tornou quase uma atração por si só. A propriedade também oferece experiências ligadas a charutos e alta gastronomia. É exatamente o tipo de história que o NPIPB acredita ainda não ter contado suficientemente ao brasileiro.
A arte também entrou de maneira mais estruturada na narrativa internacional. Joy cita como exemplo a participação das Bahamas na Bienal de Veneza, apoiada pelo NPIPB. Segundo ela, o pavilhão bahamense chegou a figurar entre os cinco mais destacados nas primeiras semanas do evento e gerou centenas de publicações sobre a produção artística do país.
Essa produção aparece também em eventos como o festival de gastronomia e artes realizado pelo Baha Mar, que reúne chefs, artistas e atrações musicais durante vários dias e funciona como vitrine da economia criativa caribenha.
Na música, uma das expressões mais características é o rake and scrape, gênero tradicional produzido historicamente a partir de instrumentos improvisados e materiais disponíveis nas comunidades. Mas talvez nenhuma manifestação cultural seja tão importante para a identidade bahamense quanto o Junkanoo, festival nacional marcado por música, dança, grupos e fantasias produzidas artesanalmente.

As maiores celebrações acontecem no Boxing Day, em 26 de dezembro, e no Ano-Novo, com desfiles que podem atravessar a madrugada e chegar a cerca de 12 horas de duração. Comparado com o Carnaval, o evento trabalha com o desenvolvimento de fantasias e desfiles utilizando materiais orgânicos, sendo o uso de industrializados, inclusive, motivo de desclassificação.
Mais importante para Joy é a função comunitária desses espaços. Crianças e jovens, inclusive aqueles em situações sociais mais vulneráveis, participam da preparação, convivem com adultos de diferentes profissões e gerações e precisam cumprir compromissos escolares antes de trabalhar nas fantasias. “Todos fazem parte, incluindo as crianças”, conta.
Combinar Bahamas e Estados Unidos
Outro argumento comercial ainda pouco conhecido no Brasil pode ser particularmente importante para viagens combinadas. As Bahamas possuem pré-clearance da imigração e alfândega dos Estados Unidos. Na prática, passageiros que embarcam em Nassau com destino ao território norte-americano realizam os procedimentos migratórios ainda nas Bahamas. Ao desembarcar nos Estados Unidos, o voo é tratado como uma chegada doméstica. “Você pega sua bagagem e vai embora. É um voo doméstico”, resume Joy.
Segundo ela, as Bahamas foram o segundo país fora dos Estados Unidos a receber esse sistema, que posteriormente foi ampliado para outros mercados. Para o brasileiro acostumado a enfrentar longas filas migratórias em aeroportos como Miami ou Nova York, isso muda a lógica de um roteiro combinado.
Em vez de Estados Unidos primeiro e Bahamas depois, o NPIPB quer estimular a construção inversa: Nassau primeiro, Estados Unidos depois. O viajante pode passar alguns dias no Caribe, realizar o processo migratório norte-americano antes do embarque e chegar à Flórida ou a outro destino dos Estados Unidos como passageiro doméstico. “Quando as pessoas descobrem isso, dizem: ‘então posso passar alguns dias nas Bahamas e depois seguir para os Estados Unidos’. São essas histórias que precisamos contar melhor”, afirma.
O trade brasileiro está no centro da estratégia
Apesar dos investimentos em comunicação direta com o consumidor, Joy não acredita que o crescimento no Brasil acontecerá sem o trade. Operadores e agentes de viagens ocupam posição central na estratégia. A primeira etapa é identificar os parceiros com perfil para comercializar o destino. A segunda é capacitar. A terceira, levar esses profissionais para conhecer Nassau & Paradise Island. “Quando eles estão confortáveis, quando visitam em viagens de familiarização e entendem o destino, ficam muito mais dispostos a ajudar a vendê-lo”, afirma Joy.
O NPIPB pretende, por meio de sua representação realizada pela Imaginadora, ampliar treinamentos, ações com operadores, suporte ao desenvolvimento de produtos, viagens de familiarização e presença junto à imprensa especializada. A estratégia B2B será acompanhada por maior presença digital B2C.

Para Joy, mais presença gera conhecimento. Conhecimento gera produto. Produto gera passageiros. Passageiros fortalecem o argumento por mais assentos. Mais assentos reduzem a barreira de acesso e permitem acelerar novamente a demanda. Para uma organização que, segundo sua CEO, passou anos sem olhar verdadeiramente para o Brasil, os primeiros meses representam uma mudança relevante de direção.
Ao aceitar o comando do NPIPB, Joy sabia que seu desempenho seria analisado para além dos resultados comerciais. “Era uma responsabilidade enorme porque eu era a primeira, não apenas a primeira mulher, mas a primeira bahamense. Se não desse certo, todos diriam: ‘está vendo? É por isso’. Então havia uma pressão todos os dias para mostrar que poderia ser melhor, que poderíamos contratar bahamenses e que eles poderiam fazer o trabalho”, conta.
Entre as primeiras mudanças, Joy questionou por que a organização não oferecia bolsas para formar profissionais bahamenses e por que sua estrutura estava concentrada fora das Bahamas. Descobriu que algumas dessas barreiras existiam simplesmente porque nunca haviam sido questionadas.
A organização passou a abrir mais espaço para talentos locais e, segundo ela, hoje recebe constantemente manifestações de profissionais interessados em trabalhar no NPIPB. “É um momento de orgulho. As pessoas nas Bahamas agora querem trabalhar conosco, querem estar associadas ao que estamos fazendo”, diz.
Ao trade brasileiro, Joy deixa um convite e também uma promessa. “Não conseguiríamos fazer esse trabalho sem os agentes de viagens e operadores em cada mercado. Estamos criando oportunidades para que eles conheçam o destino em primeira mão. Quando você entende, vende melhor. Vamos voltar cada vez mais para ajudar nossos parceiros no Brasil e tornar Nassau & Paradise Island mais fácil de vender”, garantiu.

