Brasil ainda é pequeno, mas tem “enorme potencial” para ampliar mercado, diz presidente da Clia

Bud Darr vê mudança positiva no cenário brasileiro e aponta ambiente regulatório e viabilidade financeira como condições para atrair navios

Maurício Herschander
Maurício Herschander
Repórter - E-mail: mauricio@brasilturis.com.br

Brasília (DF) – O Brasil ainda representa uma parcela relativamente pequena da indústria mundial de cruzeiros, mas reúne condições para ampliar de forma significativa sua participação nos próximos anos. A avaliação é de Bud Darr, presidente global da Clia, que analisou o momento do mercado brasileiro nesta quarta-feira (26), durante o 8º Fórum Clia Brasil, em Brasília (DF). Para o executivo, o cenário nacional apresenta sinais de recuperação após preocupações manifestadas pela entidade no ano passado.

Darr contextualizou a situação brasileira a partir da expansão mundial do setor. Segundo ele, 37,3 milhões de passageiros viajaram de cruzeiro no mundo no último ano, número que deve alcançar 42 milhões até 2029. A expectativa é de crescimento de aproximadamente 6% no próximo ano.

O presidente global da Clia também destacou a recuperação da indústria após a pandemia. Darr lembrou que o setor chegou praticamente a interromper suas operações em escala mundial e, mesmo após essa ruptura, retomou uma trajetória semelhante à observada antes da crise sanitária.

“Se você olhar para o crescimento da indústria, chegamos a 37,3 milhões no ano passado e vamos alcançar 42 milhões até 2029. A curva desse crescimento tem uma grande lacuna, que foi a pandemia, quando praticamente não transportávamos passageiros ao redor do mundo. Mas a trajetória depois disso parece até que ela não existiu”, afirmou Darr, em tradução do inglês.

Brasil ainda ocupa pequena parcela do mercado

Ao voltar sua análise para o País, Darr apontou que a previsão local de aproximadamente 836 mil cruzeiristas representa uma fatia pequena diante de um mercado mundial que deve chegar a cerca de 39 milhões de passageiros no período citado por ele. A diferença, porém, também indica o espaço existente para expansão.

“O Brasil ainda é uma parte relativamente pequena do mercado mundial”, disse. “Por outro lado, isso é importante porque vocês não apenas têm um bom mercado emissor, mas também possuem todos os atributos que fazem grandes destinos e grandes itinerários. Se conseguirmos continuar a alinhar o ambiente de negócios e o ambiente regulatório, o potencial de crescimento aqui é enorme”, declarou.

Na avaliação de Darr, o País combina uma população numerosa e disposta a viajar com destinos capazes de sustentar itinerários atrativos. O desafio está em assegurar que a operação também seja financeiramente viável para as companhias, já que os navios destinados à América do Sul precisam percorrer grandes distâncias e disputam espaço com outras regiões.

O executivo observou, porém, que o Hemisfério Sul apresenta uma característica favorável ao Brasil: há um número mais limitado de alternativas para o posicionamento dos navios durante a baixa temporada do Hemisfério Norte. África do Sul e Austrália foram alguns dos mercados mencionados durante sua análise.

“Estamos mudando esse cenário”

Darr também comparou sua percepção atual com a apresentada na edição anterior do Fórum Clia Brasil. Há um ano, o presidente global havia demonstrado preocupação com os rumos da atividade no País. Desta vez, afirmou enxergar sinais de mudança.

“Há um ano, eu sentia que estávamos na direção errada aqui e fui muito sincero com todos vocês que estavam nesta sala sobre como eu via a situação. Fico muito feliz agora porque tenho a sensação de que realmente estamos mudando esse cenário”, declarou.

Para ele, o potencial de crescimento brasileiro permanece elevado. “O potencial de avanço é enorme, porque esses navios precisam ir para algum lugar durante a baixa temporada no Hemisfério Norte e vocês oferecem uma grande oportunidade aqui”, acrescentou.

Além das questões econômicas e regulatórias, o presidente global da Clia chamou atenção para a importância do emprego e da experiência proporcionada pelos destinos. Darr citou os postos de trabalho destinados a brasileiros nos navios que realizam operações de cabotagem no País e destacou o papel dos tripulantes na qualidade do produto oferecido pelas companhias. Segundo ele, mais de 80% dos marítimos retornam para novos contratos.

A experiência, contudo, não termina quando o passageiro desembarca. Darr defendeu que portos, destinos e comunidades também precisam oferecer segurança, organização e hospitalidade aos visitantes, já que problemas em terra podem afetar a percepção sobre toda a viagem.

“Nosso negócio é ajudar as pessoas a criar memórias que vão durar a vida inteira. E não se trata apenas do que fazemos nos navios, mas de como interagimos com a comunidade e de como ela interage com os nossos hóspedes”, afirmou.

Para Darr, essa relação entre companhias, destinos e poder público explica a importância de encontros como o Fórum Clia Brasil. Em um mercado mundial que segue em expansão, o executivo vê o País diante de uma oportunidade para capturar parte desse crescimento, desde que consiga transformar seus atrativos turísticos e sua demanda interna em condições operacionais e financeiras capazes de disputar navios com outros destinos.

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