Brasília (DF) – O 8º Fórum Clia Brasil teve início nesta quarta-feira (26), em Brasília (DF), com uma cerimônia de abertura marcada por perspectivas positivas para a recuperação da indústria de cruzeiros no País, mas também por alertas sobre os desafios que ainda limitam o crescimento do mercado brasileiro. Gustavo Feliciano, ministro do Turismo; Bud Darr, presidente global da Clia; Estela Farina, presidente do Conselho da Clia Brasil; e Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil, destacaram a necessidade de união entre poder público e iniciativa privada para tornar o País mais competitivo na disputa global por navios.
Feliciano abriu sua participação com um panorama do turismo brasileiro. Segundo o ministro, o País recebeu 9,2 milhões de turistas estrangeiros em 2025 e registrou quase 6 milhões de visitantes internacionais entre janeiro e julho deste ano. No mercado doméstico, foram 59 milhões de passagens aéreas no mesmo período de 2026. Ele também citou mais de US$ 5 bilhões em gastos de estrangeiros no Brasil neste ano e destacou que a cadeia do turismo responde por 2,4 milhões de empregos formais.
Dentro desse cenário, Feliciano apontou os cruzeiros como uma atividade capaz de distribuir os benefícios do turismo por diferentes destinos. O ministro citou a perspectiva de crescimento da oferta na próxima temporada, com cerca de 830 mil leitos, e defendeu avanços em questões que afetam diretamente o custo das operações, como regulamentação, atuação dos portos e segurança jurídica.
“A gente tem sempre mantido contato com a Clia para que a gente possa diminuir um pouco da burocracia brasileira, para que esse ambiente seja mais atrativo e a gente possa trazer uma enormidade de cruzeiros para o nosso País”, afirmou Feliciano. O ministro também citou a necessidade de integração com outros mercados da América do Sul, em especial Argentina e Uruguai, e colocou o Ministério do Turismo à disposição da entidade para a construção de soluções para o setor.

Brasil precisa disputar crescimento global
Em sua participação, Bud Darr trouxe ao Fórum uma perspectiva internacional sobre o mercado. O presidente global da Clia lembrou que esteve na primeira edição do encontro e destacou o potencial brasileiro para recuperar espaço na indústria. Segundo ele, a demanda existe, mas custos e condições regulatórias precisam permitir que as companhias considerem economicamente viável posicionar seus navios no País.
“Não há razão para que o Brasil não possa crescer nesse ritmo ou até mais, se continuarmos a criar o ambiente correto e os incentivos adequados para que as companhias de cruzeiros voltem, atendam os hóspedes daqui e tragam cada vez mais visitantes estrangeiros ao Brasil”, disse Darr, em tradução do inglês. Segundo o executivo, a indústria global tem registrado expansão anual de aproximadamente 6% a 7%, enquanto 37,3 milhões de passageiros viajaram de cruzeiro no mundo no último ano.
Darr explicou que os navios disputados pelo Brasil também podem ser destinados a outras regiões caso apresentem melhores condições econômicas. Na avaliação do executivo, novos impostos, exigências legais ou restrições não necessariamente elevam o preço pago pelo passageiro, pois esse valor é definido pelo mercado. O impacto recai sobre a margem da companhia e pode tornar determinado destino menos atrativo para a operação.
“Não vamos deixar que eles vão para outros lugares. Vamos incentivar mais navios a voltar ao Brasil. Vamos estimular mais viagens internacionais e gerar mais prosperidade econômica”, declarou. Darr apontou ainda que cerca de 93 mil empregos estão ligados ao ecossistema de cruzeiros no Brasil e afirmou que o potencial pode ser maior.
O presidente global também apresentou uma perspectiva de longo prazo. A indústria possui 87 navios encomendados, que representam aproximadamente US$ 98 bilhões em investimentos. Para Darr, esse volume demonstra a confiança das companhias e do mercado financeiro na expansão do setor. Ele citou Amazônia, praias do Nordeste, destinos do Sul e Rio de Janeiro entre os ativos capazes de sustentar uma presença maior dos cruzeiros no Brasil.

Decisões de hoje definem próximas temporadas
Estela Farina, que assumiu a presidência do Conselho da Clia Brasil em junho, definiu como objetivo do setor a construção de um ambiente “mais competitivo, previsível, sustentável e atrativo” para os cruzeiros. A executiva destacou que as companhias avaliam com cuidado os mercados nos quais direcionam seus investimentos e que o potencial turístico, isoladamente, não garante a escolha de um destino.
Segundo Estela, decisões sobre posicionamento dos navios são tomadas com anos de antecedência e levam em consideração custos, infraestrutura, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e eficiência operacional. “O que acontecer hoje, o que se decidir hoje, vai impactar três, quatro anos na frente”, afirmou.
A presidente do Conselho lembrou que a oferta brasileira caiu cerca de 20% na temporada passada e que a próxima temporada aponta recuperação, mas ponderou que esse avanço não representa garantia para os anos seguintes. “Se queremos transformar a recuperação da próxima temporada em um movimento consistente, precisamos avançar hoje”, declarou. Entre os pontos citados por ela estão custos operacionais e de atracação, infraestrutura portuária, tributação, regulação e segurança jurídica.
Estela também chamou atenção para a dimensão econômica da atividade nos destinos. Agentes de viagens, fornecedores, taxistas, motoristas de aplicativo, guias, artesãos, restaurantes e hotéis estão entre os segmentos beneficiados pelas escalas. “Quando o navio deixa de vir, esse impacto também deixa de circular”, pontuou.
Marco Ferraz pede ambiente mais competitivo
Marco Ferraz encerrou os discursos da abertura com um chamado aos participantes para que contribuam com a construção de um ambiente de negócios capaz de disputar navios com outros mercados. Segundo o presidente da Clia Brasil, os executivos das companhias no País atuam como “embaixadores do Brasil” dentro das empresas e precisam defender projetos de operação que concorrem com alternativas no Caribe, Europa, Austrália e outras regiões.
“Tudo que vocês passam para a gente, o que a gente sente de vocês, a gente faz isso chegar nos nossos associados. Então, queria contar muito com vocês para a gente transformar o Brasil num ambiente de negócios muito melhor para atrair esses navios”, disse Ferraz.
O executivo destacou ainda a importância dos agentes de viagens, responsáveis por mais de 70% das vendas de cruzeiros no Brasil, e antecipou alguns dos debates previstos para o Fórum. Um dos painéis reúne representantes dos quatro grandes grupos da indústria, que, segundo ele, respondem por entre 85% e 90% dos leitos de cruzeiros.
Ferraz também apresentou um dos números que devem nortear as discussões ao longo do evento: a temporada passada registrou 235 mil cruzeiristas a menos em relação à anterior. Para a próxima, a oferta volta a subir, embora o presidente da Clia Brasil tenha classificado o cenário como motivo para uma “comemoração moderada”. A possibilidade de transformar a recuperação em crescimento sustentado, segundo os discursos da abertura, dependerá das condições que o Brasil conseguir oferecer em uma indústria na qual os navios podem ser deslocados entre diferentes mercados do mundo.











