Quando a experiência não significa nada

Ricardo Hida
Ricardo Hida
CEO da Promonde, formado em Administração e pós-graduado em Comunicação.

Sou um péssimo cozinheiro. Por isso, nunca me aventurei na cozinha, nem mesmo com receitas didáticas. Já ganhei livros autografados por grandes chefs durante viagens, mas nunca os abri. Um lançamento recente, porém, ganhou espaço ao lado da minha cama: 55 Pitacos, de Gero Fasano. Não por apresentar grandes teorias sobre gastronomia ou hotelaria, mas por questionar um vocabulário que o mercado adotou sem jamais colocar em dúvida. Entre suas provocações, uma chama especialmente a atenção: a crítica ao uso da palavra “experiência”. Para o fundador dos hotéis Fasano, o termo perdeu completamente o sentido.

À primeira vista, parece apenas uma implicância. Na verdade, trata-se de uma crítica ao modo como aprendemos a falar sobre turismo, hospitalidade e luxo. Existem palavras que deixam de acrescentar significado e passam apenas a ocupar espaço. “Experiência” tornou-se uma delas. Basta observar a comunicação de hotéis, destinos e restaurantes: praticamente ninguém vende quartos, refeições ou viagens. Todos vendem experiências. O problema é que, quando tudo passa a ser experiência, a palavra deixa de diferenciar qualquer coisa.

Esse movimento surgiu quando o mercado percebeu que produtos podem ser copiados, serviços podem ser igualados e preços tendem a ser pressionados. A solução foi vender algo mais emocional. Um quarto tornou-se uma experiência memorável; um jantar, uma jornada sensorial; uma viagem, uma transformação pessoal. Em muitos casos, deixou-se de descrever aquilo que realmente era entregue para vender uma promessa emocional cada vez mais vaga.

Na gastronomia, esse fenômeno ficou evidente. Pratos passaram a ser acompanhados por conceitos, histórias e interpretações que, muitas vezes, ocupavam mais espaço do que a própria comida. Gero Fasano ironiza esse processo ao criticar a fusion cuisine e levanta uma pergunta simples: será que as pessoas realmente desejam experimentos permanentes ou continuam procurando, antes de tudo, uma boa refeição?

Na hotelaria, acontece algo semelhante. A busca obsessiva por oferecer “experiências” frequentemente substituiu a hospitalidade pela performance. Formulários intermináveis, personalizações excessivas e demonstrações artificiais de proximidade são apresentadas como diferenciais, quando muitas vezes apenas geram desconforto. O verdadeiro luxo está em aspectos quase invisíveis: silêncio, conforto, iluminação, climatização e equipes que resolvem problemas antes mesmo que eles apareçam.

O Turismo vive um paradoxo. Nunca se falou tanto em autenticidade e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta padronização do discurso. Destinos diferentes prometem as mesmas experiências transformadoras, hotéis utilizam descrições idênticas e restaurantes repetem os mesmos adjetivos. A linguagem criada para diferenciar acabou produzindo uniformidade.

No fim, ninguém viaja em busca de uma palavra. As pessoas viajam para descansar, descobrir lugares, encontrar pessoas, comer bem e voltar para casa com a sensação de que seu tempo foi bem aproveitado. Se isso acontecer, a experiência será consequência natural de um excelente serviço, nunca sua promessa mais ruidosa. Talvez a verdadeira sofisticação esteja justamente em voltar a dizer, com precisão e sem exageros, aquilo que realmente se faz bem.

 

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