Documentos revelados pelo Fantástico mostram que um ex-inspetor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), exonerado em 2025 após 16 anos de serviço, havia feito alertas sobre possíveis irregularidades na manutenção da Voepass antes da queda do voo 2283, em Vinhedo (SP). O acidente ocorreu em agosto de 2024 e matou as 62 pessoas que estavam a bordo.
A Polícia Federal encerrou na quinta-feira (6) a investigação sobre o acidente e indiciou 16 pessoas, entre pilotos, funcionários de terra, gerentes, diretores e o presidente da Voepass. Segundo o delegado Rodrigo Sanfurgo, superintendente da Polícia Federal em São Paulo, a investigação analisou provas, perícias, laudos e testemunhos para determinar a dinâmica do acidente e possíveis responsabilidades.
“A Polícia Federal durante esses dois anos se debruçou na análise, nas provas, nas perícias, nos laudos, nos testemunhos, com o objetivo de entender a dinâmica dos fatos. E, ao mesmo tempo, responsabilizar todos que atuaram para que esse acidente ocorresse”, informou o delegado.
Segundo o delegado André Ribeiro, a investigação apontou problemas na estrutura de gestão da empresa. “A investigação deixa bem claro que há uma cultura de omissões, uma gestão pautada com pressões para não reportar, priorizando o operacional em detrimento da segurança”, afirma.
O voo 2283 havia partido de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando encontrou uma frente fria com condições severas de formação de gelo. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, as asas do modelo ATR têm quase 30 metros e o acúmulo de gelo pode acrescentar algumas toneladas ao peso da aeronave.
Falhas no sistema de degelo
Conversas registradas pelas caixas-pretas mostram a evolução da situação na cabine. Às 12h14, o sistema emitiu um alerta sonoro de detecção de gelo na asa direita. O comandante identificou uma falha no sistema de degelo, chamado de “airframe”: “É o airframe que deu fault”.
Na sequência, às 12h15, o piloto Danilo Romano desligou o sistema de detecção e afirmou: “Pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá… [com mau funcionamento]”.
Às 12h17, o comandante fez uma referência ao personagem Herbie, da série de filmes “Se meu Fusca falasse”: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele fusquinha, Herbie lá, Herbie, filme bem antigo”.
Mesmo com alertas de perda de velocidade e falha no sistema de degelo, os pilotos não deixaram a área de formação de gelo, conforme previa o procedimento.
Às 13h20, o copiloto Humberto Alencar avisou: “Bastante gelo”. Ele tentou acionar novamente o sistema, dizendo “ligar o airframe”, mas recebeu a resposta do comandante: “Essa b… não tá funcionando, né?”.
Às 13h21, a última fala registrada foi do copiloto: “Gelo”. Um minuto depois, a aeronave caiu.
A Polícia Federal identificou que o sistema de degelo havia apresentado falhas pelo menos 15 vezes anteriormente, mas os problemas não foram registrados no diário técnico. Segundo a investigação, caso os defeitos tivessem sido registrados, a aeronave não poderia ter decolado. O avião também não era homologado para voar em condições de gelo severo, situação prevista na rota.
Alertas à Anac
A atuação da Anac também passou a ser analisada pela investigação. Segundo o delegado André Ribeiro, a Polícia Federal solicitou à Justiça Federal o compartilhamento das provas com a agência e o encaminhamento de cópia à Procuradoria da República no Distrito Federal para análise de eventuais responsabilidades.
“Nós fizemos dois pedidos para a Justiça Federal de Campinas. Um deles que sejam compartilhadas a prova de toda a investigação com a própria Anac. E que encaminhasse cópia pra procuradoria da Republica do Distrito Federal para que seja analisado a possibilidade ou não de atos de improbidade, com eventual crime.”, diz o delegado André Ribeiro.
Documentos obtidos pela reportagem mostram que o ex-inspetor da Anac havia feito alertas sobre a operação da empresa antes do acidente. Em 2019, ele recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, posteriormente fundida à Passaredo para formar a Voepass. Na ocasião, afirmou haver evidências de que peças estavam sendo utilizadas sem avaliação de aeronavegabilidade. Segundo o ex-servidor, a recomendação não foi seguida pela agência.
Em 2022, o inspetor também alertou que peças de uma aeronave envolvida em um acidente em Rondonópolis (MT), em 2016, estariam sendo reaproveitadas de forma ilegal. Sem providências internas, ele encaminhou e-mails a órgãos internacionais, como a Federal Aviation Administration (FAA) e a European Union Aviation Safety Agency (EASA). Segundo os documentos, a Anac o desautorizou perante as duas agências.
O servidor posteriormente respondeu a um processo interno por insubordinação e foi exonerado em 2025. Denúncias de prevaricação contra funcionários da Anac foram arquivadas pelo Ministério Público Federal por falta de provas. Um processo cível por injúria e difamação permanece em andamento.
A Anac cassou a autorização da Voepass em junho de 2025, dez meses após o acidente.
Em nota, a agência informou que os achados relacionados à aeronave de Rondonópolis foram analisados e que as peças passaram por checagem conforme as normas. A Anac também informou a abertura de processo interno para verificar eventuais responsabilidades de servidores.
A Voepass reiterou que a segurança sempre foi prioridade, que seus treinamentos seguem protocolos e que a empresa colabora com as autoridades. José Luiz Felício Filho, advogado do presidente da companhia, afirmou que o executivo não atuava na gestão direta da empresa à época, mas havia determinado o cumprimento dos protocolos de segurança. Após o acidente, segundo o advogado, ele reassumiu a gestão para promover mudanças.
Os 16 indiciados pela Polícia Federal podem responder por atentado contra a segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica. Segundo o delegado André Ribeiro, as penas podem ser agravadas em razão da queda e das mortes.
“A exposição a perigo já é crime, já possui uma pena que é agravada quando há uma queda; se torna uma pena alta, de 4 a 12 anos. E o evento morte faz a pena ser aplicada em dobro”.

